Transformar a saúde mental para todos – Parte 2

Segunda parte da análise descontraída e informativa sobre o “Relatório Mundial de Saúde Mental | Transformando a Saúde Mental para todos” (World mental health report | Transforming mental health for all)” 🙂

Por Duda Matias

Na última produção fiz algumas perguntinhas a vocês, sendo elas:

“Você consegue perceber quais avanços na saúde mental já foram feitos? Na sua perspectiva, todos precisam do acesso à saúde mental? Qual a verdadeira importância de batermos tanto na tecla desta problemática? Temos o poder de mudar alguma coisa, visto a dimensão desse desafio?”

E aí, pensou sobre elas? Porque hoje falaremos sobre esses assuntos e mais um pouco!

Prontos para a parte 2?!

Quanto custa ter uma saúde mental de qualidade?

O compromisso com a saúde mental é um investimento para uma vida e um futuro melhores para todos.

Existem três grandes motivos para o investimento em saúde mental:

  1. Evitar a sobrecarga na saúde pública;
  2. Assegurar os direitos humanos;
  3. Incentivar o desenvolvimento social.

Para elaborar melhor: o descaso com a saúde é uma afronta direta aos direitos humanos. Pessoas que sofrem preconceitos devido suas condições mentais são frequentemente excluídas da vida em sociedade – o que prejudica seus direitos básicos -, sofrem no trabalho, na escola e até mesmo na justiça, onde não são reconhecidas pela lei. No Brasil até 2015 pessoas com doenças mentais não podiam se casar.

Cuidar da saúde mental aumenta a qualidade, o funcionamento e a expectativa de vida. Melhora a acessibilidade do tratamento de saúde mental nos sistemas de saúde, visto que mais pessoas terão consciência de que essa problemática é significativa e cada vez mais presente na sociedade; reduz a fragmentação e duplicação de recursos que, por decorrência da clarificação de sintomas, atitudes e tratamentos, pode otimizar a estrutura dos sistemas da área da saúde mental, alinhando e direcionando com melhor eficácia normas, diretrizes, custos e procedimentos para que as necessidades das pessoas sejam melhor atendidas.

Implementar os direitos humanos internacionalmente acordados em convenções, como a Convenção para os Direitos das Pessoas com Deficiência, possibilitará fazer grandes avanços em relação ao assunto, principalmente na questão anti-estigma e discriminação. Uma intervenção que pode ser feita é trazer voz à pessoas que tiveram experiências vividas para que possam conscientizar e informar a população com mais propriedade.

O relatório evidencia um conjunto básico de intervenções custo-efetivas para condições prioritárias que sejam viáveis, acessíveis e apropriadas. Essas incluem aprendizagem social e emocional baseada em programas escolares e proibições regulatórias de produtos altamente perigosos (para prevenir suicídios), bem como uma série de intervenções clínicas conforme listado no Compêndio UHC (Universal Health Cares – Coberturas de saúde pública universais) da OMS.

O retorno do investimento para intervenções clínicas podem ser substanciais, especialmente para depressão e ansiedade. Por exemplo, um estudo de modelagem global realizado para 36 grandes países indica que um crescimento linear na cobertura de tratamento entre 2016 e 2030 poderia garantir 43 milhões de anos extras de vida saudável, no valor de US$ 310 bilhões, e gerar mais US$ 399 bilhões em ganhos de produtividade. Com o custo de ampliação do tratamento estimado de US$ 147 bilhões, o custo benefício proporcionado é de cinco para um. Os países de renda média-baixa serão os que terão resultados melhores no retorno do investimento.

Outros estudos de modelagem na mesma pesquisa mostram que pacotes de saúde mental que combinam múltiplas intervenções para promoção, prevenção e cuidados podem trazer benefícios significativos e retornos em grande escala, especialmente nos ganhos de produtividade e na qualidade e expansão das redes de apoio sociais.No Sul da Ásia e na África Subsaariana, o custo de ampliar a entrega de um pacote integrado para epilepsia, depressão, transtorno bipolar, esquizofrenia e uso excessivo de álcool têm sido calculado em US$ 3–4 per capita. O retorno deste investimento é estimado em 500 a 1.000 anos de vida saudáveis para cada milhão de dólares gastos.

Em outros lugares, o custo de implementação de um pacote de cuidado em ambientes não especializados foi estimado ser ainda menor. Estudos na Etiópia, Índia, Nepal, África do Sul e Uganda calculam que seja inferior a US$ 1 per capita. Esses estudos sugerem que, durante um período de expansão de dez anos, o valor adicional que precisaria ser investido cada ano é inferior a US$ 0,10 per capita.

Ou seja, precisamos parar de pensar que investir em saúde mental é dinheiro desperdiçado, como o próprio relatório diz, por mais que no início precise depositar uma grande quantia de investimento, o retorno será 5 vezes maior. A partir disso, não estamos falando apenas de saúde, mas na melhora coletiva do mundo como um todo, o setor da saúde interfere significativamente em todos os outros, afinal sem saúde, não há trabalho produtivo e muito menos energia e espaço para crescimento ou evolução de uma sociedade.

O trabalho é coletivo, não tem outro jeito

A transformação da saúde mental começa com a construção das bases para sistemas e serviços de saúde mental que funcionem bem.

De muitas maneiras, o fortalecimento dos sistemas de saúde afeta as bases da mudança. Ele permite reorganização e dimensionamento de serviços e suporte. As principais áreas de ação incluem:

  • governança e liderança; 
  • finanças; 
  • conscientização pública; 
  • competências para o cuidado em saúde mental.

É fundamental que as leis e políticas destinadas a essa área abordem todos os setores. Segundo o relatório, são necessários três tipos de compromissos políticos para fazer avançar a agenda da saúde: Expresso, Institucional e Orçamentário.

Dentro dessas, a advocacia, as evidências e o contexto político podem ter uma enorme influência na promoção do compromisso e da liderança. As emergências humanitárias e de saúde pública, em particular, representam uma obrigação e uma oportunidade para os países investirem na saúde mental – já que são oferecidas plataformas incomparáveis ​​para mudança. O forte interesse e compreensão do público também impulsionam a melhoria.

Para transformar os serviços de saúde mental, o compromisso deve ser traduzido em ação através de financiamento adequado. Na prática, isto significa que os decisores políticos e os planejadores precisam dedicar mais fundos à saúde mental. Isto é adquirido através da obtenção de recursos adicionais do tesouro do Estado ou de financiadores externos, ou através da redistribuição de recursos, tanto dentro do orçamento da saúde quanto através do governo.

Uma força de trabalho competente e motivada é um componente vital de um sistema de saúde que funcione bem. Todos os países devem aumentar o número de profissionais especializados em saúde mental e, ao mesmo tempo, capacitar outros provedores de cuidados e indivíduos em cuidados de saúde mental. Em particular, profissionais de cuidados básicos, prestadores comunitários e instituições de saúde precisam estar equipados com novas competências para detectar o nível de risco das condições, fornecer intervenções e apoio básicos, encaminhar pessoas sempre que necessário, e fazer o acompanhamento.

“Como posso ser mais ativo nessa problemática?”

O primeiro passo para poder buscar informações sobre as políticas, programas e ações relacionadas à saúde mental que estão sendo implementadas pelo governo é se informar! Isso pode incluir acessar os sites oficiais do governo, procurar relatórios de órgãos de controle, como tribunais de contas e órgãos de fiscalização, e acompanhar notícias e atualizações sobre saúde mental nos meios de comunicação.

A participação em audiências públicas e consultas também é uma alternativa. Muitas vezes, os governos realizam audiências públicas ou consultas para discutir políticas e programas relacionados à saúde mental. Estar – ou tentar se fazer presente – nesses eventos é uma maneira eficaz de expressar preocupações, fazer perguntas e oferecer sugestões para melhorar as políticas públicas nessa área.

Muitas cidades e estados têm conselhos ou comissões de saúde mental compostos por membros da comunidade, profissionais de saúde e representantes do governo. Participar desses órgãos pode oferecer uma oportunidade para influenciar as políticas e programas relacionados à saúde mental em nível local ou estadual.

Embora não seja um costume, os cidadãos podem e devem entrar em contato com seus representantes políticos, como vereadores, deputados estaduais e federais, e senadores, para expressar suas preocupações e demandas relacionadas à saúde mental, por meio de e-mails, cartas, telefonemas ou participando de reuniões com os representantes.

Além disso, uma forma mais ativa de chamar atenção dos governantes e da sociedade para questões específicas à saúde mental e exigir que ações concretas sejam feitas é organizar petições e manifestações.

Ao cobrar o poder público, é importante ser persistente, organizado e informado sobre as questões relacionadas à saúde mental. É crucial buscar alianças e colaborações com outros grupos e indivíduos que compartilhem preocupações semelhantes. Como por exemplo: ONG ‘S (Organizações não-governamentais), profissionais da área, grupos de cuidadores e auxiliares, ativistas e defensores dos direitos humanos ou da área da saúde e muitos outros grupos de apoio.

Em muitos contextos, as tecnologias digitais oferecem ferramentas promissoras e podem reforçar esses sistemas, proporcionando formas de informar e educar o público, apoiar e especializar os profissionais de saúde, prestar cuidados à distância e permitir a autoajuda. Como sites ou cursos informativos e especializados com conteúdo devidamente conferido e confiável; chamadas de vídeo que permitem o contato entre profissionais e pacientes com alguma dificuldade de mobilidade, distância ou localização. Redes sociais que oferecem a possibilidade de ampliar o conhecimento de forma mais acessível e compreensível para o público leigo.

Todos os contextos estão sujeitos a enfrentarem condições psicológicas prejudiciais

Transformar a saúde mental significa reforçar a promoção e prevenção multissetorial para todos.

As intervenções de promoção e prevenção funcionam através da identificação dos determinantes individuais, sociais e estruturais da saúde mental e, em seguida, intervêm para reduzir os riscos, criar resiliência e estabelecer ambientes de apoio à saúde mental. As intervenções podem ser concebidas para indivíduos, grupos específicos ou populações inteiras.

Estima-se que 15% dos trabalhadores do mundo sofram de problemas ou desordens mentais a qualquer momento, isso dá 1 bilhão de pessoas.

Experiências desafiadoras durante a infância: violência, negligência ou morte de alguém querido contribuem para que o cérebro não seja desenvolvido completamente e comprometa o sistema nervoso e imune durante a vida, ao contrário de quem viveu em condições melhores, em um lar acolhedor e seguro. Além disso, a depressão materna pode ter impactos adversos duradouros no desenvolvimento do cérebro de uma criança.

A adolescência também é uma fase complicada, onde uma parte crucial do desenvolvimento social e pessoal é criada. Se não tiver cuidado, o jovem pode recorrer a substâncias nocivas para tentar atravessar um problema. O suicídio lidera a causa de mortes em adolescentes. Pais adolescentes também correm um risco alto.

Nas pessoas idosas, a recorrência de doenças mentais também são grandes, impactos cumulativos de experiências de vida anteriores e estressores específicos relacionados ao envelhecimento. Por exemplo, perda de funcionalidade, capacidade musculoesquelética, luto e o isolamento podem resultar em solidão e estresse psicológico. Um em cada seis idosos sofrem abusos psicológicos, muitas vezes por seus próprios cuidadores, com graves consequências para a saúde mental.

Neste momento, a prevenção ao suicídio é uma prioridade internacional, com a Meta 3.4 do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 3 de reduzir a taxa de mortalidade por suicídio em um terço até 2030.

Para ajudar os países a atingir esta meta, a OMS desenvolveu a abordagem LIVE LIFE para a prevenção do suicídio, que prioriza quatro intervenções com comprovada eficácia:

  1. limitar o acesso aos meios de suicídio;
  2. interagir com a mídia para reportagens responsáveis sobre suicídio;
  3. promover habilidades sociais e emocionais para a vida de adolescentes; 
  4. intervenção precoce para qualquer pessoa afetada por comportamentos suicidas.

Por outro lado, experiências adversas na infância aumentam o risco de sofrer problemas de saúde mental. Quatro estratégias principais para reduzir os riscos e aumentar os fatores de proteção incluem: 

  1. desenvolver e aplicar políticas e leis que promovam e protejam a saúde mental;
  2. apoiar os cuidadores na prestação de cuidados de criação; 
  3. implementação de programas escolares, incluindo intervenções anti-bullying; 
  4. e melhorar a qualidade dos ambientes em comunidades e espaços digitais. 

Os programas de aprendizagem social e emocional baseados nas escolas estão entre as estratégias de promoção mais eficazes para países de todos os níveis de rendimento.

Tal como as escolas, os locais de trabalho podem ser locais de oportunidade e risco para a saúde mental. Empregadores e os governos têm a responsabilidade de criar mais oportunidades de trabalho para pessoas com boas condições para a saúde mental, além de ter como objetivo promover e proteger a saúde mental de todas as pessoas no trabalho. Para governos, isso significa implementar medidas de apoio, legislação e regulamentos em matéria de direitos humanos, trabalho e saúde ocupacional. Para os empregadores, as diretrizes da OMS enfatizam a importância de operações organizacionais, formação de gestão mental e intervenções em saúde para os trabalhadores.

Na reforma dos sistemas de saúde é preciso ter uma grande reorganização de métodos de cuidado com as doenças mentais. Pacientes com transtornos mentais graves devem ser direcionados a serviços  de saúde comunitários adequados e acessíveis, com um atendimento mais humano e focado na reabilitação, e não a hospitais psiquiátricos. Aliás, para transtornos mais comuns como ansiedade e depressão as ações precisam ser intensificadas.

Outra alternativa é apoio informal realizado por prestadores comunitários e parceiros, para complementar o serviço de saúde e ajudar a garantir ambientes saudáveis, mesmo em locais não relacionados à saúde. No geral, não existe um modelo único para organizar serviços de saúde mental que se aplique a todos os países ou contextos, mas todos eles, independente de seus recursos ou restrições, podem tomar medidas para reestruturar e ampliar os cuidados nessa temática.

O plano de ação da OMS, que abrange a saúde mental de 2013-2030, representa um compromisso de todos os países para melhorar os cuidados com a saúde mental. Por consequência, este, fornece um planejamento organizado, pensado a longo prazo, com análises direcionadas e metas, objetivos e estratégias a serem cumpridas. No contexto mundial atual, sabe-se que muitos países não têm recursos para implementar cada ação, porém, toda nação tem amplas oportunidades para fazer progresso significativo em direção a uma melhor saúde mental para sua população. Não espera-se que o país cumpra todas as implementações no plano de ação global, mas deve escolher o foco principal de acordo com seu contexto, mentalidade e necessidades existentes de cada sistema de saúde.

Deve-se aprofundar o valor e o compromisso da saúde mental individualmente, socialmente e nacionalmente. Somar isso a mais comprometimento, engajamento e investimento por parte de todas as partes interessadas, em todos os setores.

Também é preciso remodelar as características físicas, sociais e econômicas dos ambientes (casas, escolas, trabalhos e na sociedade). Esses meios devem garantir o bem estar físico e mental de todos em seu maior nível possível.

Fortalecer os cuidados com a saúde mental para que todos sejam atendidos com o melhor suporte e preparo é a meta. O objetivo é que no futuro possamos viver em um mundo no qual a saúde mental seja respeitada, validada e protegida. Todos temos uma responsabilidade nisso.

Importante destacar:

Saúde mental não é um estado constante, nem sempre estaremos 100% bem ou 100% mal. Na verdade, existe toda uma complexidade por trás sobre como entender nossas emoções e reações em relação ao sofrimento e a dor emocional. A saúde mental não é definida pela presença ou ausência de uma doença mental propriamente diagnosticada.

Assim como uma pessoa diagnosticada com uma doença mental severa pode ter altos níveis de bem-estar e satisfação pessoal, profissional ou etc. Cada pessoa reage de uma forma diferente à saúde, percepção física e emocional e por isso falar sobre essa área exige uma análise delicada de cada tipo de contexto.

Obs.: O relatório também se refere a perturbações neurológicas, perturbações por uso de substâncias e deficiências cognitivas e intelectuais. Embora estas condições não sejam o foco principal, este reconhece que todas elas podem estar, e muitas vezes estão, intimamente ligadas às condições de saúde mental. Cerca de um terço de todas as pessoas que possuem a saúde mental prejudicada tem uma inclinação ao uso de substâncias nocivas, e essas, ao usarem tais substâncias, estão sujeitas a desenvolverem algum transtorno psicológico.

Fontes:

World mental health report | Transforming mental health for all
181 | Relatório Mundial de Saúde Mental
A pessoa com deficiência mental ou intelectual pode se casar?
Esquizofrenia – Manual MSD
World mental health report | Transforming mental health for all
Plano de ação da compreensão da saúde mental 2013 – 2030
OMS destaca necessidade urgente de transformar saúde mental e atenção – Organização Pan-Americana da Saúde
Relatório da OMS destaca déficit global de investimentos em saúde mental
Violência mental: ansiedade e depressão durante a pandemia de COVID-19 no Brasil 
SUS oferece atendimento às pessoas com transtornos mentais
ODS 3 – Saúde e Bem-Estar – IPEA 
Agenda 2030 destaca a prevenção do suicídio no Brasil
Compêndio UHC – intervenções separadas por área
Atlas de Saúde Mental 2020
Especialistas apontam violações de direitos humanos em atendimento a pacientes com transtornos mentais
LIVE LIFE an Implementation Guide for Suicide Prevention in Countries

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