Transformar a saúde mental para todos – Parte 1

Dados, métodos, recomendações, planos e estratégias sobre saúde mental, tudo em um só lugar, essa é a proposta que a OMS, Organização Mundial da Saúde, quis trazer para avaliar esse setor no mundo. Uma análise descontraída e informativa sobre o “Relatório Mundial de Saúde Mental | Transformando a Saúde Mental para todos”.

Por Duda Matias

Introdução

Oii gente! Eu sou a Duda Matias, jovem comunicadora da AJN, e cá estou falando sobre saúde mental novamente. Por mais que o assunto, talvez, esteja um pouco desgastado, ele continua a ocupar grandes partes da nossa vida, em todos os seus âmbitos. Hoje, o tema é bem mais abordado do que antes, os estigmas diminuíram, o tratamento melhorou, e isso é ótimo! Mas não o suficiente, ainda há um enorme caminho pela frente. E, é pensando exatamente nisso – em como está a saúde mental global – que a OMS (Organização Mundial da Saúde) fez um relatório: “World mental health report | Transforming mental health for all” – “Relatório Mundial de Saúde Mental | Transformar a saúde mental para todos”, em português. 

É um documento enorme – 256 páginas – que ainda não foi traduzido para o português, ou seja, meu trabalho foi ler e facilitar os resultados dessa pesquisa para vocês. Então, esse conteúdo vai ser grande, mas lembrem-se que o original é bem maior 🙂 E, para que a leitura fique mais fácil, prazerosa e prática, essa produção vai ser dividida em duas. A primeira chega hoje, abordando assuntos de responsabilidade social e individual na área da saúde mental. Esse texto vem cheio de reflexões e dados informacionais com o objetivo de alertar as pessoas sobre como anda nossa saúde e porquê não podemos mais tratá-la com descaso.

Nas duas partes existem informações muito importantes e estratégias que podemos adotar como indivíduos e sociedade para melhorar a vida de nós mesmos e dos outros. Nenhuma pessoa está isenta de ter problemas, transtornos ou doenças mentais, independente de seu contexto social, regional ou pessoal. 

Se vocês estiverem interessados em conhecer o documento original, indico especialmente os capítulos 4 e 7 – são os mais interessantes e diretos, com listas do que fazer, como somos prejudicados, o porquê e problemas que podemos estar inclinados a ter, com dados e imagens. Fica de recomendação! Agora, vamos à parte 1.

Um relatório mundial para inspirar e informar a mudança

20 anos se passaram e a publicação da OMS em 2001 The world health report 2001: mental health: new understanding, new hope (Relatório Mundial de saúde 2001: saúde mental – novos entendimentos, novas esperanças), que foi um marco, continua tendo suas recomendações válidas até hoje.

Muitas coisas já foram feitas. O interesse e a compreensão da saúde mental aumentaram. Vários países fortaleceram suas políticas e planos de saúde mental. Pessoas com desenvolvimento prejudicado por causas psicológicas tiveram suas vozes ampliadas. De acordo com a pesquisa, o assunto avançou, tecnicamente. Numerosas práticas, evidências baseadas em guias de saúde mental, manuais e outras ferramentas já estão disponíveis para implementação. 

Por meio de uma assembleia composta pelos Ministros da Saúde dos 194 Estados-Membros, a OMS adotou o Plano de Ação da Compreensão da Saúde Mental 2013 – 2030, onde todos eles, através de assinaturas, se comprometeram a cumprir as metas globais para melhorar a saúde mental – o que representa um reconhecimento notável e oficial da importância da saúde mental. Estas centraram-se no reforço da liderança e governação, cuidados comunitários, promoção e prevenção, sistemas de informação e investigação. 

Entretanto, a última análise do Atlas de Saúde Mental 2020, feito pela OMS, do desempenho dos países em relação ao Plano de Ação confirma que os progressos têm sido lentos. Em 2013, 45% dos países relataram ter políticas e planos de saúde mental que estavam alinhados com os instrumentos de direitos humanos. O Plano de Ação estabeleceu uma meta para aumentar esse valor para 80% até 2020 (mais tarde este prazo  foi estendido para o ano de 2030), mas quase na metade do plano  essa porcentagem  subiu apenas para 51%. E, quando falamos sobre cuidados mundiais com psicoses, esse número desce para menos de 29%. Nesse cenário, países e comunidades que viram inovação e avanços reais permanecem isolados de boas práticas, num mar de necessidade e negligência, segundo o relatório.

Ainda assim, algumas áreas tiveram mais sucesso: a taxa global de mortalidade por suicídio padronizada por idade para o ano de 2019 caiu 10% desde 2013. Mas isso está muito aquém da meta de redução de 33% prevista para 2030. No geral, ainda há um longo caminho a percorrer até que o mundo cumpra as metas estabelecidas no Plano de Ação Abrangente para a Saúde Mental 2013–2030.

Na nossa situação atual, as ameaças globais a essa questão estão mais presentes do que nunca. As desigualdades sociais e econômicas permanecem em crescimento, conflitos que não acabam, saúde pública sendo continuamente afetada por violências emergenciais, tudo isso ameaça o progresso que vem sendo feito. Agora, mais do que nunca, é fundamental a melhora no sistema de cuidados à saúde mental, até porque os métodos antes feitos não estão sendo – nem serão – suficientes.

O relatório, juntamente com esse texto, são uma tentativa esperançosa de inspirar e informar a transformação urgente e indiscutível que precisamos para garantir que a assistência à saúde mental de qualidade seja oferecida para todos. Além de promover uma abordagem multissetorial, têm-se o objetivo de atingir todo o setor da saúde, o que inclui governos estaduais e municipais, ministérios, profissionais da saúde e instituições parceiras do setor para que políticas públicas para saúde mental, assim como a prestação de seus serviços, se desenvolvam.

Saúde mental como direito humano básico

A saúde mental é extremamente importante para todos, em todos os lugares.

Saúde mental é uma parte fundamental na saúde e bem-estar geral e nos direitos básicos de um ser humano. Ter uma boa saúde mental significa ser mais capaz de criar laços, de ser funcional, de conseguir lidar com os desafios da vida e de prosperar. Porém, as necessidades médicas mentais são abundantes e as respostas são insuficientes e inadequadas.

O capítulo 3 do Relatório fala sobre a situação da saúde mental global atual, e a situação “não tá boa pra ninguém”, pois em todos os países a prevalência de distúrbios mentais é gigante. Segue alguns dos dados obtidos do relato:

Uma a cada 8 pessoas no mundo tem um transtorno mental, que variam de acordo com sexo e idade. Mas em ambos, os transtornos de ansiedade e depressão são os mais comuns. Mundialmente, tem-se 20 tentativas de suicídio a cada 1 morte, e 1 suicídio a cada 100 mortes. Essa é a maior causa de morte entre os jovens.

As doenças mentais prejudicam fortemente a qualidade de vida. A esquizofrenia, que ocorre em 1 a cada 200 adultos, é uma das maiores preocupações neste âmbito, e em seus casos agudos é o mais prejudicial de todos os transtornos mentais. As pessoas com esquizofrenia ou outras doenças mentais graves têm uma expectativa de vida de 10 a 20 anos inferior à da população em geral.

Em geral, as consequências econômicas das doenças mentais são enormes. As perdas de produtividade e outros custos indiretos para a sociedade ultrapassam muitas vezes os custos dos cuidados de saúde – é estimado que cerca de 12 bilhões de dias de trabalho são perdidos devido a ansiedade e depressão. Dentro desses termos, a esquizofrenia é a perturbação mental mais dispendiosa por pessoa para a sociedade. Mas, as perturbações depressivas e de ansiedade são mais prevalentes, embora mais baratas, e, por isso, contribuem majoritariamente para os custos nacionais e globais – também conforme o relatório.

Em todo o mundo, os sistemas de saúde mental possuem grandes lacunas e desequilíbrios na informação, investigação, governação, recursos e serviços. Outras áreas da saúde são consideradas mais relevantes nesse sentido, o que causa negligência ao bem-estar físico, mental e social.

Em média, países dedicam menos de 2% dos seus orçamentos de saúde à saúde mental. Mais de 70% das despesas com a saúde mental nos países de rendimento médio ainda se destinam a hospitais psiquiátricos – o que não representa o tipo de tratamento adequado, pois não foca na reabilitação. Cerca de metade da população mundial vive em países onde existe apenas um psiquiatra para servir 200.000 ou mais pessoas. E a disponibilidade de medicamentos psicotrópicos essenciais a preços acessíveis são limitados, especialmente nos países de baixa-renda. A maioria das pessoas com doenças mentais diagnosticadas não recebem qualquer tratamento. Em todos os países, as lacunas na cobertura dos serviços são agravadas pela variabilidade na qualidade dos cuidados.

O Brasil, embora seja um dos países com mais pessoas ansiosas no mundo – segundo o Conselho Nacional de Saúde -, oferece serviços de apoio à saúde mental abertos e comunitários por meio da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), protagonizado pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Esses serviços são estrategicamente compostos por metodologias, ações e equipamentos variados para cada tipo de situação, são eles:

  • Unidades Básicas de Saúde (UBSs);
  • Centros de Atenção Psicossocial (CAPS);
  • Serviços Residenciais Terapêuticos (SRT);
  • Unidade de Acolhimento (UAs);
  • Equipes Multiprofissionais de Atenção Especializada em Saúde Mental (AMENT);
  • Equipes de Consultório na Rua;
  • Serviços Ambulatoriais Especializados;
  • Unidades de Referência Especializada em Hospital Geral;
  • Hospitais Especializados em Psiquiatria;
  • Leitos de Saúde Mental em Hospital.

Vários fatores impedem as pessoas de procurar ajuda para saúde mental, incluindo a má qualidade dos serviços, baixos níveis de literacia em saúde mental, bem como o estigma e a discriminação. Em muitos locais, não existem sequer serviços que tratem essa questão, e, se existem, são muitas vezes inacessíveis. Geralmente, as pessoas optam pelo sofrimento mental sem alívio do que arriscar a discriminação e exclusão que advém do acesso aos serviços de saúde mental.

Infelizmente, muitos de nós já pensamos isso, mesmo que involuntariamente. Nós somos ensinados a “ser fortes”, “se ocupar”, falar que foi “só um dia ruim” quando precisamos de ajuda e de acolhimento, a tendência é se isolar e tentar esquecer o que te incomoda ao invés de ir atrás de um atendimento – quando se tem essa possibilidade -, o que não é uma realidade para a maioria dos brasileiros. À respeito de medicamentos psiquiátricos, então… há muito mais estigmas e preconceitos enraizados, pois é dito que quem vai ao psiquiatra “é louco”.

Dito isso, você consegue perceber quais avanços na saúde mental já foram feitos? Na sua perspectiva, todos precisam do acesso à saúde mental? Qual a verdadeira importância de batermos tanto na tecla desta problemática? Temos o poder de mudar alguma coisa, visto a dimensão desse desafio?

Bom, queridos leitores, essas são as interrogações que quero deixar para que vocês possam refletir mais a fundo sobre o tema. No próximo texto – a parte dois – vamos abordar todas essas questões de maneira mais detalhada e prática, espero vocês lá, em! 

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