Torto Arado, resenha de um quilombo atual

Reflexões sobre o livro de Itamar Vieira Junior

Por Amanda da Cruz Costa

Olá minha pizza de abobrinha com provolone de castanhas 🙂

Nas últimas semanas mergulhei no livro Torto Arado, um romance brasileiro escrito em 2019 por Itamar Vieira Junior. A obra foi um sucesso, vendeu mais de 100 mil exemplares e recebeu diversas premiações nacionais e internacionais, entre elas os prêmios Leya, Jabuti e Oceanos.

Mas o que esse livro tem de tããão especial? 🤔

O livro conta a história de duas filhas de trabalhadores rurais do sertão baiano, Bibiana e Belonísia, que tiveram a vida marcada por conta de um incidente que arrancou o direito de fala de uma das irmãs. Foi através dessa escrita simples, leve e didática que o autor ilustrou a luta por liberdade e dignidade do povo negro, descendentes de pessoas escravizadas trazidas da África para o Brasil durante séculos de colônia.

Os capítulos são narrados ora por Bibiana ora por Belonísia, vozes femininas que expressam memórias coletivas das desigualdades raciais, sociais e de gênero, evocando as resistências ancestrais dos povos quilombolas, suas lutas e ligações com a terra.

Não podemos mais viver assim. Temos direito à terra. Somos quilombolas.

Torto Arado, Itamar Vieira Junior

Essa obra me prendeu do início ao fim! Em diversos momentos me senti alegre, enciumada, entristecida, reflexiva e incomodada. Veja o trecho abaixo:

Indomável, Severo caminhou por estudada, elevou sua voz em discursos, enfrentou os novos donos e chefes dos trabalhadores. Mudando ele mesmo, em meio ao movimento que parecia crescer em nossas vidas, foi moldando água negra, fazendo-a se transformar num lugar diferente. Enquanto Zeca Chapéu Grande viveu, respeitou o seu desejo de não confrontar os que haviam lhe dado abrigo. Questionar o domínio das terras da fazenda seria um gesto de ingratidão.

Já parou para pensar o quanto essa passagem se conecta com os atuais desafios do povo negro?

Eu sou ativista. Há uma mensagem de igualdade, justiça e reparação histórica que borbulha no meu coração! Assim como Severo, elevo a minha voz em discursos e enfrento aqueles que, numa sociedade de supremacia branca, ocupam os espaços de poder. 

Por sua vez, Zeca Chapéu Grande optou por exercer uma liderança conciliatória, evitando o confronto e demonstrando extrema gratidão para com os dominadores, isto é, os  senhores da fazenda. 

Contudo, Severo apresentou uma postura diferente.

Com conhecimento, apoio e ousadia, Severo lutou para romper com a exploração da sua comunidade, questionando o status quo e se posicionando contra as desigualdades que afrontavam seu povo. Veja esse outro trecho:

Nesse campo desigual, Severo levantou sua voz contra as determinações com quem não concordávamos. Virou um desafeto devotado do fazendeiro. Fez discursos sobre os direitos que tínhamos. Que nossos antepassados migraram para as terras de água negra porque só restou aquela peregrinação permanente a muitos negros depois da abolição. Que havíamos trabalhado para os antigos fazendeiros sem nunca termos recebido nada, sem direito a uma casa decente, que não fosse de barro, e precisasse ser refeita a cada chuva. Que se não nos uníssemos, se não levantássemos nossa voz, em breve estaríamos sem ter onde morar.

A luta pelo direito à terra é uma luta histórica! Até quando vamos aceitar esse sistema de exclusão, exploração e subjugamento?

Vejo essa mesma luta sendo reproduzida nas favelas, periferias e quilombos. Além de tomar as nossas terras, querem nos silenciar, dizer que deveríamos ser gratos aos detentores do poder e se surpreendem quando reivindicamos aquilo que é nosso por direito!

Estamos cansados dessa herança escravocrata, que explora nossos corpos e subjuga nossas mentes. Nós, pessoas periféricas, faveladas e descendentes de quilombolas, exigimos que nossa existência seja respeitada e lutamos para transformar sonhos coletivos em um futuro possível.

Chega de sofrimento para o povo preto.

Chega de fingir gratidão por uma situação histórica de injustiça.

Chega de deixar que o homem branco se aproprie do nosso saber, da nossa luta e das nossas terras!

Assim como disse Severo, ouso afirmar que “Queremos ser donos do nosso próprio trabalho, queremos decidir sobre o que plantar e colher além dos nossos quintais. Queremos cuidar da terra onde nascemos, da terra que cresceu com o trabalho das nossas famílias.” 

No final, queremos apenas uma única coisa: nossa LIBERDADE!

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