Territórios Indígenas evitam cerca de 15 milhões de casos de doenças respiratórias e cardiovasculares por ano! 

Pesquisa divulgada pela revista Communications, Earth & Environment evidencia que a floresta amazônica e seus territórios indígenas podem absorver até 26.000 toneladas de poluentes nocivos liberados pelas queimadas, assim impedindo milhares de casos de doenças cardiovasculares e respiratórias letais.

Por Thaynara Floriano, Rhafaela Resende e Gustavo Souza

A Floresta Amazônica é a região de maior biodiversidade do planeta Terra, cercada por milhares de espécies de plantas e animais, ainda é plural em multiplicidade cultural, com 1,7 milhão de pessoas pertencentes a 375 grupos indígenas, povos esses que seu estilo de vida deve ser seguido como modelo, principalmente a sua relação de cuidado com a natureza, que foi comprovada como prevenção de doenças cardiovasculares e respiratórias letais.

O estudo inédito “Protecting Brazilian Amazon Indigenous territories reduces atmospheric particulates and avoids associated health impacts and costs”, revela que territórios indígenas previnem doenças graves causadas por incêndios florestais. O resultado dessa pesquisa de dez anos mostra que as florestas manejadas por povos indígenas na Amazônia brasileira absorvem poluentes que são liberados pelas queimadas, evitando cerca de 15 milhões de casos de doenças todos os anos. 

O estudo oferece uma nova perspectiva sobre a importância dos territórios indígenas e ressalta a necessidade da demarcação dessas áreas como uma estratégia fundamental para a promoção da saúde da população brasileira e da biodiversidade na região Amazônica. É evidente que os territórios indígenas evitam diversos problemas sociais, desde saúde até o gasto do dinheiro público, mas quando eles terão um reconhecimento e investimento por isso? 

Sempre enfatizamos a importância da floresta em pé, da preservação e da proteção dos territórios indígenas, e que isso seja de fato uma política de Estado e que seja implementada. Esperamos que o governo se comprometa com o desmatamento zero e com o combate às queimadas, dentro e fora das Terras Indígenas, em unidades de conservação e em todo o território nacional. É importante dizer que este estudo aponta para a necessidade de as políticas públicas fomentar ações e as demarcações das terras indígenas.

Dinamam Tuxá, advogado e Coordenador Executivo da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB)

Segundo a pesquisa, se essas doenças realmente se desenvolvessem, tratá-las  custaria até 2 milhões de dólares ao sistema de saúde. Então, além de prevenir a incidência dessas doenças e influenciar a saúde geral da população, essas áreas contribuem totalmente para a economia de dinheiro público – dinheiro este que poderia ser investido em estrutura e políticas públicas para os povos indígenas. Ao olhar para essa contribuição, chegamos a outro fator: a desvalorização dos povos originários no Brasil. Nestes 523 anos de história enquanto Brasil, vemos que os povos indígenas nunca foram priorizados. Um dos fatos que evidenciam isso é a própria ‘descoberta’ do Brasil, creditada aos portugueses, ignorando os indígenas já estavam aqui. Outro ponto a ser destacado é a criação de um ministério que olhe para as necessidades e para a garantia de direitos dos povos indígenas somente em 2023.

Além da questão da saúde, o estudo também aborda que essas terras estão protegendo densamente populações urbanas e rurais e florestas que perdeu sua cobertura florestal para a agroindústria ou atividades no “arco de desmatamento” da região sudeste da floresta. A pesquisa serve para provar a importância da atuação indígena e cobrar ações do governo e sociedade civil, como diz Dinamam Tuxá, advogado e Coordenador Executivo da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB): 

É mais um instrumento que iremos utilizar não apenas para levar ao governo, mas também para informar toda a sociedade civil sobre a importância dos territórios indígenas e dos povos indígenas no contexto da luta contra as mudanças climáticas, que afetam pessoas em todo o mundo. Este estudo traz elementos essenciais para as pessoas conseguirem visualizar na prática a importância dos territórios indígenas e o valor da floresta em pé.

Dinamam Tuxá, advogado e Coordenador Executivo da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB)

“Em todo o mundo, as florestas são conhecidas por absorverem poluentes de incêndios pelos poros localizados na superfície das folhas, mas esta é a primeira vez que calculamos a capacidade das florestas tropicais para fazer isso”, afirma a brasileira Paula Prist, cientista brasileira, pesquisadora sênior da EcoHealth Alliance e principal autora do estudo.

Em entrevista para a Agência Jovem de Notícias (AJN) Paula Prist nos contou um pouco sobre sua participação no estudos e alguns dos resultados alcançados, confira:

AJN – Como foi a participação de vocês do Brasil na construção dessa pesquisa inédita?

PP – Tivemos participação desde o início – estando envolvidos na discussão sobre a coleta de dados, definição da metodologia e escrita do artigo.

AJN – A partir desses resultados alcançados, quais medidas preventivas você destaca como essenciais para serem adotadas antes do período das queimadas e o agravamento dessa situação?;

PP – A principal medida preventiva é evitar que as queimadas aconteçam, fortalecer os mecanismos legais para a manutenção das Unidades de Conservação, como as Terras Indígenas e demais áreas protegidas, e aumentar o número de áreas sob status de conservação na região.

AJN – É possível ampliar essa análise feita a partir da Amazônia Legal para os pólos urbanos brasileiros e propor ações preventivas também para essas áreas? Quais seriam elas?

PP- Podemos extrapolar o resultado negativo da emissão de poluentes em relação à saúde humana. Para as áreas urbanas o ideal seria aumentar a quantidade de área verde na cidade e em áreas próximo à elas, de forma a garantir esse serviço de regulação de doenças mesmo nesses ambientes urbanizados. 

AJN – O que você gostaria que as pessoas, em especial a juventude, levassem como prioridade para a luta pelo clima, ao conhecer os resultados dessa pesquisa?

PP- Eu gostaria que a nova geração tivesse uma maior compreensão sobre a relação entre áreas de vegetação nativa com saúde, qualidade da água, mitigação climática. Ao lutar pela preservação das florestas e pelo clima, eles também estarão lutando por uma melhor qualidade de vida para essa geração.

A Floresta Amazônica é responsável pelo fornecimento de serviços ecossistêmicos essenciais para a sobrevivência na Terra: o abastecimento de água doce, a manutenção do carbono e a regulação do clima. Mas o desmatamento excessivo e o garimpo ilegal estão destruindo a biodiversidade responsável pela manutenção da vida humana.

É indispensável apoiar a luta pela cultura indígena e pela preservação dos seus espaços com autonomia, para que possam exercer sua cultura e sua liberdade de existir. Mas agora, com esse estudo, fica evidente que o cuidado com as demarcações interfere na saúde da população brasileira e, se antes a luta pelos povos originários já era de todos, agora se torna indispensável para todas as pessoas que se preocupam com o futuro do nosso país e do mundo.

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