Tecnológico ou paradigmático: qual o desafio real da educação?

Compartilhe:

Desafios_educação_2

Texto e imagens: Bruno Ferreira, da Redação

Um dos desafios da educação, atualmente, é tornar a escola um lugar mais interessante aos estudantes. E uma possibilidade de torná-la mais atraente é incorporar as novas tecnologias nas práticas de ensino. Não faltam aos especialistas argumentos para fazer da sala de aula também um espaço hi-tech.

Talvez o mais importante deles baseia-se no fato de que a tecnologia faz parte dos hábitos de crianças e jovens. As Novas Tecnologias da Comunicação e da Informação (NTIC’s) integram a cultura juvenil. O uso de aplicativos para celulares android e IOS, especialmente relacionados ao entretenimento do usuário, é uma realidade cada vez mais concreta no cotidiano de jovens.

A escola, no entanto, ainda não vestiu a camisa da tecnologia e, em vez de incorporar esses recursos para tornar a educação formal mais interessante, prefere resistir a eles. E até mesmo declarar guerra, ao proibir o uso de celular em sala de aula. Uma das hipóteses para esta resistência é o fato dos mais conservadores não admitirem que a escola não é mais o único espaço de legitimação do saber, uma vez que as NTICs também possibilitam o contato com o conhecimento, de forma livre, em que o usuário traça o caminho de sua própria aprendizagem.

Tecnologia e educação formal

Desafios_educação_4

Especialistas como o Prof. José Francisco Vinci de Moraes, da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), procuram utilizar recursos tecnológicos em sala de aula. Durante um workshop do evento Desafios da Educação – Fórum de Lideranças, que aconteceu na última quarta-feira, 6 de agosto, em São Paulo, Vinci compartilhou a experiência de suas aulas de Mercado Financeiro com o uso do aplicativo Blackboard Learn.

Este app permite que estudantes vivenciem a sala de aula em seus próprios celulares. O professor disponibiliza tarefas e materiais e os alunos podem interagir em fóruns e ser avaliados por meio de sua participação no aplicativo.

O recurso tecnológico apresentado por Vinci no workshop do evento – que reuniu representantes de 130 instituições de ensino, sendo a maioria de ensino superior –, demonstra que o desafio da educação, para alguns especialistas se restringe a aproximar a tecnologia das tradicionais práticas pedagógicas das escolas, especialmente da universidade. “A ideia do aplicativo é tentar fazer do limão uma limonada. Não é ele que vai me salvar em nada, ele está colaborando para um processo de aprendizagem, em que eu uso um tipo de equipamento que o estudante não larga”, afirma Vinci.

No entanto, é preciso considerar, conforme discutem pensadores como Guillermo Orozco-Gomez e Jesús Martín-Barbero, que incorporar as tecnologias à educação não basta. Os recursos mais modernos de comunicação, para eles, precisam estar a serviço da reformulação da educação, suas práticas e objetivos.

Desafio paradigmático

Desafios_educação_3

Assim como não é possível virar as costas para a tecnologia, tampouco se pode ignorar que o principal desafio da educação, nos dias atuais, é paradigmático. Isso quer dizer que não faz mais sentido para crianças e jovens (inclusive os universitários) o modelo pautado pela distância entre professores e estudantes, que apenas a tecnologia não desconstrói, e pelo excesso de conteúdos que não dialogam com a realidade do estudante. É o que o renomado educador Paulo Freire chama de “educação bancária”, que ainda hoje orienta a educação formal.

Em outras palavras, a adoção de um aplicativo como recurso pedagógico pode apenas transferir da lousa para o celular o tradicionalismo secular em que se baseia a educação formal. Por outro lado, recursos tradicionais, como giz e quadro negro podem ser utilizados em um contexto educativo transformador. Tudo vai depender da criatividade e boa vontade de educadores e gestores de diferentes âmbitos.

Pensando nessas questões, questionei o Prof. José Francisco Vinci de Moraes ao final do workshop. As respostas seguem abaixo.

Desafios_educação_1

O senhor falou algumas vezes que a tecnologia não resolve o problema da educação. Gostaria de saber do senhor qual é o problema da educação e como um aplicativo como esse poderia potencializar a aprendizagem e não apenas ser mais uma forma de avaliação, mas em outra plataforma?

O problema da educação no Brasil para mim é um problema shakespeariano. No ensino universitário, o processo seletivo é anacrônico. É uma estupidez inominável você determinar que um menino de 17 anos é obrigado a escolher uma profissão. Já começa errado aí. Quando falamos em educação centrada no estudante ou educação com aprendizagem ativa… O que eu quis demonstrar aqui é que eu poderia ter feito isso com baralho, com joguinho, cartão branco ou vermelho para responder a enquete. A ideia do aplicativo é tentar fazer do limão uma limonada. Não é ele que vai me salvar em nada, ele está colaborando para um processo de aprendizagem, em que eu uso um tipo de equipamento que o estudante não larga. A minha aprendizagem não foi digital. Esse aplicativo vai se tornar aliado de um novo estudante.

Novo em que sentido?

Esse estudante que é como a minha filha, que tem 30 anos e viu a Branca de Neve antes de ler sobre ela. Isso é o que eu chamo de geração digital. Não era assim comigo, o meu processo foi outro. E eu não sei qual é o melhor e qual é o pior. Como educador, não gosto de ser saudosista. O surgimento do livro também não agradou a muitos educadores na época.

Há um parâmetro de países que mais utilizam esse tipo de recurso na educação formal, especialmente na América Latina?

Em número de estudantes que acessam algum tipo de ensino não presencial é a Colômbia. O equivalente ao Senac da Colômbia tem atualmente cinco milhões de alunos em vários cursos, em geral cursos técnicos.

E em outros continentes?

Os Estados Unidos.

Compartilhe:

Respostas de 2

  1. Excelente artigo, o fato da escola estar atrasada e as metodologias de ensino não condizerem com a realidade e o ambiente tecnológico em que vivemos diz muito sobre a falta de interesse do aluno na sala de aula.
    Já encontrei pesquisas onde se mostra uma relação disso com TDAH (Déficit de Atenção com Hiperatividade), onde muitas vezes os alunos por viverem em um mundo agitado vão para uma escola com metodologias antigas e arcaicas, por falta de interesse na escola ao final são diagnosticados por TDAH. Isso se comprova pelo número agravante de crianças com esse problema nós últimos anos.
    Devido a esse problema, criamos uma solução para educação inovadora, onde alia tecnologia a uma metodologia de ensino nova, se conseguirem dar uma olhada será ótimo: http://www.braox.com
    Criamos metodologias com base na sala de aula invertida porém com o uso da tecnologia, os resultados aqui estão sendo ótimos!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

plugins premium WordPress