Sérgio Rizzo, crítico de cinema*
As difíceis relações entre pais e filhos já forneceram excelente matéria-prima para obras notáveis na literatura e também no cinema, mas poucas vezes foi possível encontrar, em páginas ou na tela, tanta poesia quanto em “As Chaves de Casa” (2005), do italiano Gianni Amelio (de “As Portas da Justiça”, “América – O Sonho de Chegar” e “A Estrela Imaginária”), baseado em romance de Giuseppe Pontiggia.
Durante quase duas horas, um jovem pai (Kim Rossi Stuart, de “Além das Nuvens” e “Estamos Bem Mesmo sem Você”, outro filme sobre relações familiares) e seu filho mais velho (o menino Andrea Rossi, estreante no cinema) ficam juntos o tempo todo. Ambos são italianos de Roma, mas estão juntos (e bem deslocados) em Berlim. Como nenhum deles fala alemão, eles têm apenas um ao outro.
O que faz a dupla na Alemanha? O menino nasceu com lesão cerebral e, embora seja adolescente, se comporta como criança. Foi criado pela avó e por um casal de tios; a mãe morreu no parto, aos 19 anos, e o pai, desde então, nunca mais quis vê-lo. Os médicos acreditam, no entanto, que o processo de recuperação possa ser acelerado se o pai biológico acompanhar o filho que abandonou até o moderno hospital alemão que cuida de seu caso.
Descrito dessa maneira, “As Chaves de Casa” talvez se pareça com dramalhões norte-americanos sobre doenças, realizados sobretudo para provocar as lágrimas do público, como “Laços de Ternura” (1983) e “Flores de Aço” (1989). É possível mesmo que o espectador chore durante o filme, mas não será porque Gianni Amelio o force a isso. Ao contrário: a notável sobriedade do filme evita as habituais armadilhas sentimentalistas e permite que se experimente, com os personagens, o drama profundo envolvido nessa relação entre pai e filho.
Há uma importante e simbólica participação brasileira no filme: a trilha sonora destaca a canção “Deus do Fogo e da Justiça”, de Geraldo Lima e Osvaldo Almeida, interpretada por Virginia Rodrigues.
Imagem de divulgação
Texto publicado na edição nº 47 da Revista Viração, em novembro de 2008
