Os sonhadores

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Sérgio Rizzo, crítico de cinema*

Para quem nasceu na década de 80, maio de 1968 é um momento distante e mitológico em que os jovens de então – hoje na passagem dos 50 para os 60 anos – se defrontaram com a tentativa de tornar a vida pública mais coerente com os princípios de igualdade e liberdade. Foram derrotados ou aquela batalha ainda não terminou, sendo agora disputada por seus filhos e netos? “Os Sonhadores” ajuda a entender o que estava em jogo ali – e que, em boa medida, continua a pautar nossa agenda social e política.

O cenário é a Paris das barricadas estudantis e dos confrontos com a polícia. Três personagens vivem os conflitos políticos e de geração, que tomaram de assalto a cena francesa (e, com menor impacto, mundial). Um deles é um estudante estadunidense (Michael Pitt) que vive sozinho na cidade, dedicando seu tempo livre a ver filmes na Cinemateca Francesa. Ali, conhece um casal de irmãos gêmeos franceses (Eva Green e Louis Garrel), filhos de intelectuais, que o “adotam”.

Seus sonhos têm muito a ver com os do cinema. Na primeira parte, incomparavelmente superior, há inúmeras referências a filmes, cineastas, atores, diálogos e situações. Essa vivência intensa os aproxima. Na segunda parte, quando eles se tornam mais íntimos, as diferenças se revelam e, enquanto o mundo lá fora pega fogo, eles se entregam a prazeres e descobertas “burgueses”, como parte da esquerda se referia a qualquer assunto que não envolvesse política (ou, ao menos, um certo conceito do que venha a ser política).

O diretor italiano Bernardo Bertolucci (“Último Tango em Paris”, “O Último Imperador”) e o roteirista escocês Gilbert Adair eram jovens em 1968. Não é por acaso que há um bocado de reminiscências muito afetuosas em “Os Sonhadores”. Mas existe também, como seria natural esperar, uma visão de quem hoje perdeu ilusões. Os que ainda sonham, porém, têm muito o que explorar e discutir nesse filme de beleza sedutora, como todos os de Bertolucci.

www.sergiorizzo.com.br

Imagem de divulgação

Texto publicado na edição nº 19 da Revista Viração, em julho/agosto de 2005

 

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