Gabriel Cruz Freitas | Imagem: Acervo pessoal
Vida de escritor não é fácil. Nem sempre vem a inspiração, a confiança raramente está em patamares aceitáveis e até a questão financeira sufoca a vida daqueles que vivem de literatura. Soluções precisam ser tomadas, afinal, a vida segue, o tempo corre e dinheiro é vital para quem vive em sociedade.
Muitos autores de outrora dedicavam-se à literatura como hobby. Teimosos, chegavam a ter até dois empregos para poder sustentar sua paixão: escrever. O escritor brasileiro Carlos Drummond de Andrade foi funcionário público a vida inteira e escrevia desde a adolescência. Manuel Bandeira foi poeta, crítico literário, crítico de arte, professor de literatura e tradutor brasileiro. Albert Camus (autor de “O Estrangeiro”) foi escritor, romancista, ensaísta, dramaturgo e filósofo francês. Vinicius de Moraes foi censor demográfico, crítico de cinema, vice-cônsul em Los Angeles e diplomata em Roma e Paris.
O mercado literário
No contexto atual de mercado literário, o padrão internacional determina que, para cada livro vendido, o autor deve receber em média 10% do preço de capa. O restante é dividido entre editora (que arca com custos de edição, publicação, promoção), distribuidora e livraria.
Numa pesquisa informal realizada pela Folha de São Paulo com 50 autores de diversos perfis e estágios na carreira, fez-se um relatório de como os escritores no Brasil sobrevivem. Os autores responderam a questões como “qual sua maior fonte de renda” e “o quanto a venda de livros representa da sua renda”.
Só quatro escritores (três deles no campo da literatura juvenil/de entretenimento) apontaram a venda de livros como principal componente de sua renda. Os outros apontaram atividades relacionadas à escrita (aulas ou palestras), traduzir livros (como nosso queridíssimo Manuel Bandeira), trabalhar com jornalismo e criar roteiros de cinema e televisão.
Jovens escritores no Brasil
Já a literatura nacional não é nada lucrativa para os escritores. As editoras acreditam ser mais vantajoso publicar obras estrangeiras do que investir em autores locais. Diante da realidade de desvalorização do jovem brasileiro, o que um escritor jovem do Brasil precisa fazer para se sobressair e conseguir chamar a atenção das grandes editoras?
Cybelle Santos é um exemplo de sucesso. Com apenas 21 anos já publicou um livro, “Palavras Apaixonadas”, que lhe possibilitaram ter dezenas de milhares de fãs no Facebook. Palavras Apaixonadas se trata de um livro repleto de crônicas e contos, relatando várias fases apaixonantes da sua vida. Com textos escritos com o coração, ela nos leva a pensar sobre o amor e as sensações estranhas que ele nos causa.
Cybelle possui um fã clube e já está trabalhando no seu segundo livro. Entrevistamos Cybelle para saber de sua história, sua experiência ao lidar com editoras e dizer o que fez para obter sucesso no mercado literário. Acompanhe:
AJN: O público jovem tende a gostar mais de ficção (normalmente proveniente do exterior, como EUA e Inglaterra) e você o conquistou com experiências pessoais, envolvendo sentimentos e uma qualidade peculiar na descrição dos fatos. Além destes aspectos, a que se deve seu sucesso neste nicho?
Cybelle: Acredito que seja a linha de identificação. Nesse meio tempo ouvi muitos comentários, como “Adoro seus textos, são tão românticos, mas não acredito mais em amor”. As pessoas se relacionam, se envolvem, sofrem e se decepcionam. É normal ter esse tipo de pensamento, mas no fundo elas ainda querem algo no qual possam acreditar. Toda pessoa já sentiu alguma vez do mesmo jeito que outra pessoa e passou pela mesma situação. Eu só expus os sentimentos que muitas vezes nem eu queria admitir. Acho que a grande jogada foi escrever sobre situações que todo mundo passa e que todo mundo sente.
Como foi a sua abordagem com a editora? Como foi o processo de convencê-los de que valia a pena publicar seus escritos?
No início eu não sabia nada. Era muito inocente no meio e não sabia como me apresentar e muitas vezes como apresentar a obra. É difícil convencer uma editora de que sua obra pode ser publicada mesmo com uma história boa. Eu comecei como todo mundo. Enviei meu original para várias editoras, perguntei se publicavam o gênero que escrevi e torci. Torci muito. Eu selecionei meus melhores textos e toda a ideia que eu tinha para o livro. Hoje, a principal dificuldade do autor jovem é saber como convencer uma editora de que aquela história pode render. Muitos recorrem à publicação independente ou redes sociais. Observo muito que a maioria dos autores que são convidados para entrar em uma editora tem um número grande de seguidores em redes sociais ou são populares. Ainda acho as oportunidades escassas e preconceituosas. Tem muita gente talentosa por aí, esperando uma oportunidade pra dar o seu melhor.
Outros jovens escritores te procuram, pedem conselhos?
Com certeza. Desde o lançamento do livro tenho recebido mensagens de leitores que me consideram um tipo de inspiração ou ídolo para seguirem seus sonhos. Muitos me disseram que iam continuar a escrever ou tentar publicar por minha causa. Muitos pedem conselhos, dicas, como foi o processo, o que devem fazer, e pedem para dar uma lida no que escrevem e dar minha opinião. Eu faço tudo que está ao meu alcance, e tento ajudar todas as pessoas que me procuram. Por um lado é uma responsabilidade ser vista como algo pra se inspirar e por outro eu fico orgulhosa por isso. Porque muitas pessoas desistem não só de escrever, mas como de outros sonhos por dificuldades, medo ou críticas negativas. É difícil, tem que ter persistência.
Entrevistador: No caso de não te procurarem, o que você diria para um jovem escritor que deseja investir nesse talento, mas não sabe por onde começar?
Escreva e escreva. Quanto mais você treinar, melhor ficará seu texto. Escreva o que gosta, o que sente e principalmente o que te faz feliz. Não é um mar de rosas, mas se você gostar do que faz vale bem a pena no final. Acreditar em você, persistir e não desistir são as peças fundamentais.
