Sérgio Rizzo, crítico de cinema*
Que a sociedade de consumo incentiva a apatia e realimenta a desigualdade social, todos concordam. As divergências, sobretudo entre os jovens, dizem respeito ao que se poderia fazer para atacar o problema. Muitos preferem a ação político-social organizada, acreditando que as transformações possam ocorrer sem desrespeito às “instituições” e às regras da democracia representativa. Outros, desiludidos em relação a essa alternativa pacífica, optam por combates em terreno distinto. É o caso dos jovens protagonistas de “Edukators”.
Eles se propõem a ser os “educadores” do título. São politizados, sem dúvida; caso contrário, nem mesmo veriam a necessidade de “reeducar” a sociedade de consumo alemã. Mas são também românticos e, em diversas situações, ingênuos. Sua prática parece inofensiva: durante a noite, circulando por bairros nobres de Berlim, eles invadem casas de famílias ricas, na ausência dos moradores, e desarrumam o que for possível desarrumar. Não levam nada, embora houvesse muito o que levar. Apenas completam a bagunça com avisos em tom de ameaça, no gênero “seus dias de fartura estão contados” ou “você tem muito dinheiro”.
Ousadia ou molecagem? Ação inócua ou efetiva? Enquanto o público reflete sobre o que fazem clandestinamente esses dois jovens, o diretor e roteirista austríaco Hans Weingartner insere na trama outros dois personagens – a namorada de um deles, que desconhece as aventuras noturnas, e um milionário que termina seqüestrado pela dupla, por acidente – para deixar as coisas um pouco mais complicadas. Entra em cena, por exemplo, o conflito geracional, acompanhado da idéia de que o reformista engajado de hoje é o conservador acomodado de amanhã.
Imagem de divulgação
Texto publicado na edição nº 20 da Revista Viração, em setembro de 2005
