Em “O Que Eu Mais Desejo”, após serem separados durante o divórcio dos pais, dois irmãos procuram manter contato para compartilhar suas novas experiências
Sérgio Rizzo, crítico de cinema*
O japonês Hirokazu Kore-eda, 50 anos, é um dos diretores orientais de maior prestígio internacional na atualidade. Sua obra, que costuma circular em festivais e nos circuitos de arte das grandes cidades, o tornou um cronista da vida cotidiana e das relações familiares no Japão contemporâneo, ao explorar temas como a infância, a memória e a morte. “Maborosi” (1995) revelou seu talento, confirmado em filmes como “Depois da Vida” (1998), “Distância” (2001) e “Ninguém Pode Saber” (2004).
Em “O Que Eu Mais Desejo” (2011), recém-lançado em DVD no Brasil, Kore-eda trata novamente do mundo segundo a perspectiva infantil e nos lembra que, para as crianças, a realidade se apresenta como um espaço repleto de mistérios. As relações entre os adultos, por exemplo, parecem nebulosas, uma vez que as motivações para certos comportamentos ainda são desconhecidas. Por decorrência, o mundo também se revela, na infância, como um espaço de descobertas inesgotáveis.
Na trama, a separação provisória de um casal leva também ao distanciamento entre seus dois filhos. Koichi, de 12 anos, fica morando com a mãe e os avós. O caçula, Ryunosuke, passa a viver com o pai em outra cidade, ao norte. Muito ligados, os meninos procuram manter os laços e conversam por telefone sobre o que fazem na escola, com os amigos e em família. Koichi é um pouco mais capaz de entender o que está acontecendo, mas não deixa de ser criança: ao ouvir que milagres podem ser concedidos a quem presencia um encontro entre dois trens que seguem em rotas opostas, ele planeja uma forma de pedir a realização de seu maior desejo, a reconciliação dos pais.
Os adultos são personagens secundários nessa história protagonizada por crianças e que busca se aproximar ao máximo da visão de mundo infantil. Seu convite ao espectador envolve um exercício para a percepção: a aventura fabular de Koichi, Ryunosuke e seus amigos, em busca do encontro mágico entre dois trens, ganha sentido à medida que o espectador deixe de lado o olhar adulto para recuperar um pouco da sensação de encarar o mundo como um lugar de mistérios e descobertas.
Imagem de divulgação
Texto publicado na edição nº 91 da Revista Viração, em dezembro de 2012
