Câmera na mão, país na cabeça

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Sérgio Rizzo, crítico de cinema*

Na primeira década do século 21, uma das principais novidades do cinema europeu foi a produção jovem da Romênia. Feita com recursos limitados, mas com muita criatividade e a disposição de analisar a história recente do país em perspectiva crítica, essa elogiável safra de longas que foram consagrados em festivais internacionais tem como destaques “A Morte do Sr. Lazarescu” (2005, ainda inédito no Brasil), “A Leste de Bucareste” (2006), “4 Meses”, “3 Semanas e 2 Dias” (2007), que obteve a Palma de Ouro no Festival de Cannes, e “Polícia, Adjetivo” (2009).

O pacote inclui “Como Eu Festejei o Fim do Mundo” (2006), recém-lançado em DVD no Brasil. Primeiro longa-metragem do diretor e roteirista Catalin Mitulescu, ele foi apadrinhado por dois dos mais importantes cineastas em atividade, o norte-americano Martin Scorsese (“Os Infiltrados”, “Ilha do Medo”) e o alemão Wim Wenders (“Buena Vista Social Club”), que aparecem nos créditos como produtores executivos — maneira gentil encontrada por diretores veteranos para ajudar a viabilização e circulação de filmes realizados por jovens pouco conhecidos.

A exemplo de seus compatriotas revelados na última década, Mitulescu faz um inventário da Romênia sob a ditadura sangrenta de Nicolae Ceausescu (1918-1989). O diferencial vem do ponto de vista infantojuvenil, como também fizeram recentemente, em relação ao mecanismo de ditaduras latino-americanas, o argentino “Kamchatka” (2002), o chileno “Machuca” (2004) e o brasileiro “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias” (2006).

Poética e bem-humorada, a história se ambienta nos últimos dias do período de terror de Ceausescu. A perspectiva é a de um menino (Timotei Duma) e de sua irmã mais velha (Doroteea Petre). Ambos estudam em escola onde o patrulhamento político ainda funciona, mesmo que não seja mais tão implacável. Enquanto ele acompanha ao lado de amigos a queda do regime, com inocência e espirituosidade, ela sofre os efeitos dos derradeiros espasmos de uma era autoritária.

* www.sergiorizzo.com.br

Imagem de divulgação

Texto publicado na edição nº 62 da Revista Viração, em maio de 2010

 

 

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