Adeus, Lênin!: Muitas vezes todos precisamos ouvir mentiras

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Sérgio Rizzo, crítico de cinema*

Em 10 de novembro de 1989, o mundo inteiro assistiu pela TV à queda do Muro de Berlim, que dividia a cidade em duas partes, uma controlada pela Alemanha Ocidental e a outra, pela Alemanha Oriental, representando a polarização do planeta em dois blocos político-econômicos, o capitalista (sob influência dos EUA) e o comunista (sob a órbita da extinta União Soviética). O esfacelamento do muro inaugurou também uma nova ordem internacional, em que o império soviético perdeu sua força e a “guerra fria” contra os estadunidenses terminou.

“Adeus, Lênin!” relembra esse capítulo da história contemporânea da perspectiva de uma família que vivia na Alemanha Oriental. A professora Christiane (Kathrin Sass) não pôde ver a queda do muro. Vítima de um infarto, ela estava em coma no hospital. Seu filho Alexander (Daniel Brühl) acredita que foi melhor assim. Adepta fervorosa dos valores socialistas, sua mãe talvez não resistisse a testemunhar a unificação das duas Alemanhas sob o regime capitalista. O problema é que, contrariando todos os prognósticos médicos, Christiane sai do coma.

Alexader resolve, então, transformar o apartamento da família  em uma espécie de “museu do socialismo”, para esconder da mãe o que aconteceu. Sua estratégia inclui produzir telejornais falsos com um amigo, inventando um noticiário em que a Alemanha Oriental ainda existe e começou a atrair “capitalistas desiludidos” que preferiram viver sob o regime comunista.

O diretor Wolfgang Becker e o roteirista Bernard Lichtenberg, ambos nascidos e criados na Alemanha Ocidental, realizaram uma comédia dramática que, além de reviver com muito bom humor o período de unificação alemã, mostra como, às vezes, todos precisamos ouvir mentiras. Alexander, um emérito contador delas, descobrirá no final que também foi vítima do mesmo expediente. E, ao olhar para os seu passado com novos olhos, torna-se finalmente um adulto.

* www.sergiorizzo.com.br

Imagem de divulgação

Texto publicado na edição nº 11 da Revista Viração, em junho/julho de 2004

 

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