Entre o Encardido, o Branco e o Branquíssimo: Branquitude, Hierarquia e Poder na Cidade de São Paulo 

Por Amanda da Cruz Costa
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Resenha sobre o livro da Lia Vainer
“Os brancos não têm a possibilidade de perceber sozinhos o que é a branquitude.” (Lia Vainer Schucman)

Olá minha lindeza climática <3

Você que me acompanha há um tempinho, sabe que amo dar meus pitacos sobre as coisas, principalmente nos assuntos relacionados à raça, gênero, classe e territórios. Como mulher preta que transita entre a quebrada e os espaços de tomada de decisão, escolhi ser intencional nas minhas reflexões, levantar questionamentos incômodos e mostrar pontos que uma sociedade fundamentada na colonização, escravização e marginalização da população negra insiste em ocultar.

Nestas andanças pela vida, encontrei o livro “Entre o encardido, Branco e Branquíssimo: Branquitude, Hierarquia e Poder na Cidade de São Paulo”, da escritora Lia Vainer Schucman. A primeira vez que escutei falar da obra foi com a minha amiga Mahryan, ativista recohecida pelo movimento negro brasileiro. Alguns meses mais tarde, ouvi o título novamente com a minha professora Rosa Matoso, durante as aulas da formação de “Consciência de Igualdade Racial”, criado pelo Prof Dr. João Elias. Após nosso encontro de estudos, decidi comprar a obra.

Na minha visão, livros são verdadeiros chamados que só conseguimos ouvi-los quando estamos prontos para trilhar a jornada que eles nos oferecem. Foi assim com Lia Vainer. O livro ficou na minha biblioteca do Kindle por muitoooo tempo, até que, ao estreitar a amizade com um amigo branco descendente de português, senti que o momento havia chego: indiquei a leitura para ele e, finalmente, mergulhei também nessas páginas.

Nesta obra, o objetivo de Schucman é compreender a formação da raça branca em São Paulo a partir da ideia de branquitude. Muito se fala sobre os negros e o racismo, mas chegou a hora de trocarmos as lentes e analisar os fatos a partir do outro lado. 

Querida leitora, você já refletiu sobre o que significa ser branco?

“Não se constrói um antirracismo sólido sem compreender melhor os brancos e o seu racismo.” (Lia Vainer Schucman) 

A real é que a branquitude estabeleceu o seu domínio ao redor das questões estruturais de poder. De acordo com a autora, “a branquitude começa a ser construída como um constructo ideológico de poder, em que os brancos tomam sua identidade racial como norma e padrão, e dessa forma outros grupos aparecem ora como margem, ora como desviantes, ora como inferiores.”

Só quem já tentou contar para o branco que ele é branco sabe o tamanho do desafio. Um montão de branco sem letramento (e noção) vem com as frases prontas:

  • Para com esse papo, somos todos humanos.
  • Eu não ligo para a cor da pele, ligo para o coração das pessoas.
  • Eu nao tenho preconceito, escuto rap e até tenhos amigos negros.

🤡

Como diz Florestan Fernandes, “O brasileiro tem preconceito de ter preconceito.” Até porque, no fim das contas, toda essa negação serve ao “pacto narcísico da branquitude”, expressão criada em 2002 por Maria Aparecida Bento que evidencia como pessoas brancas sem letramento racial contribuem para o aprofundamento do racismo e se desresponsabilizam pela sua manutenção.

Querida leitora, juro que eu gostaria que o mundo fosse esse conto de fadas bonitinho e sem preconceitos, mas ele não é. Diferentes pesquisas demonstram que os brancos têm mais facilidades no acesso à habitação, à hipoteca, à educação, à oportunidade de emprego e à transferência de riqueza herdada entre as gerações. Enquanto nós, pretos e periféricos, sempre comemoramos quando não herdarmos as dívidas dos nossos pais ou de algum familiar próximo.

Apesar das desigualdades gritantes que cortam a nossa sociedade, muitos brancos ainda nutrem medo com a possibilidade da inclusão do negro em posições e cargos de poder e/ou tomada de decisao. É só olhar o desenho do nosso congresso:

Para que a gente possa aprofundar nosso entendimento no assunto, é essencial entender a diferença entre racismo individual e racismo institucional:

  • Racismo individual: atitudes e ações individuais de discriminação racial feitas nas práticas das relações interpessoais; 
  • Racismo institucional: mecanismos de discriminação inscritos no corpo da estrutura social, e que funcionam mesmo sem a intenção dos indivíduos da sociedade, ou seja, se estabelece nas instituições, traduzindo os interesses, as ações e os mecanismos de exclusão perpetrados pelos grupos racialmente dominantes.

Os políticos eleitos, geralmente, legislam para o grupo que representam. Se temos poucas pessoas negras e indígenas nesses cargos, você acha que a prioridade dessa galera será criar políticas para as periferias e aldeias?

Por isso eu sempre digo: eu não quero apenas sair da quebrada, quero que políticas públicas de qualidade cheguem no meu território!

“Para que haja essa vivência conjunta, as políticas públicas voltadas para a igualdade racial, como as cotas, o reconhecimento da história, do espaço, a ação do movimento negro, são essenciais para que os brancos consigam se deslocar da posição de norma e hegemonia cultural e tentem se olhar como socialmente.” (Lia Vainer)

Com muita força e resistência, estamos mudando essa realidade. Lembro que, na época das cotas esse assunto foi mega polêmico, dividindo opiniões: muitos diziam que a cota não deveria ser por raça, mas sim por classe, pois os brancos pobres estavam na mesma situação que os pretinhos periféricos.  

Lia Vainer apresenta bons argumentos ao longo do livro para desmentir essa falácia. Quero destacar um deles:

“Quando comparamos brancos pobres com negros pobres percebemos que os significados construídos em torno da pertença racial branca asseguram a eles privilégios e vantagens em diversos setores sociais, uma possibilidade de ascensão social.”

Durante a produção de sua tese, Lia realizou entrevistas com diferentes pessoas. Em uma dessas conversas, ela falou com Fernando, um homem branco, de olhos azuis, em situação de rua. Quando questionado sobre o que significa ser branco, ele respondeu sem rodeios:

  • “Ser branco? Ah, ser branco é poder entrar no shopping para cagar.”

Carlos Hasenbalg, pesquisador responsável pela consolidação dos estudos sociológicos sobre racismo, desigualdades raciais e política racial no Brasil moderno, apontou que “o conceito de democracia racial é uma arma ideológica produzida por intelectuais das elites dominantes brancas destinada a socializar a população brasileira de brancos e não brancos como iguais, evitando, assim, um conflito racial no Brasil.”

Ler Lia Vainer não é confortável, mas é necessário. No fim das contas, falar sobre branquitude é cutucar uma ferida que muitos preferem esconder, mas que precisa ser exposta para cicatrizar. Não dá para construir um futuro justo sem reconhecer as estruturas que nos trouxeram até aqui. Como mulher preta, sigo acreditando que nosso papel é tensionar, questionar e provocar, mas também sonhar com uma sociedade onde nossas histórias não sejam silenciadas, e sim celebradas. 

E você, minha lindeza climática, está pronta para olhar no espelho da branquitude e se perguntar: qual o seu papel nessa transformação?

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Amanda da Cruz Costa

Amanda Costa é ativista climática, jovem embaixadora da ONU, delegada do Brasil no Y20, liderança Forbes #Under30 e fundadora do Perifa Sustentável

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Amanda Costa é ativista climática, jovem embaixadora da ONU, delegada do Brasil no Y20, liderança Forbes #Under30 e fundadora do Perifa Sustentável

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