A Netflix lançou em março de 2026 uma minissérie brasileira inspirada na história real do trágico acidente com Césio-137. Tudo começou em setembro de 1987 em Goiânia, Goiás, quando dois catadores de sucata encontraram uma cápsula abandonada em um prédio parcialmente demolido onde funcionava o Instituto Goiano de Radioterapia (IGR). Eles a levaram para casa, desmontaram o aparelho e o venderam para o dono de um ferro-velho. Ao manuseá-lo, este descobriu um pó branco que, mesmo sem ser exposto à luz, brilhava na cor azul. O “pó brilhante” — ou melhor, Césio-137 — atraía os olhares inocentes e despertava a curiosidade dos moradores mais desfavorecidos da cidade pela sua beleza e novidade. Diante disso, as primeiras pessoas que tiveram contato com ele se contaminaram de forma silenciosa.

Foto: Divulgação/Netflix
Os cinco episódios dramatizam o caminho percorrido pelo Césio-137. Após os primeiros contatos e a descoberta da contaminação, a notícia começou a se espalhar pela cidade, provocando pânico geral. As famílias foram separadas, os lares foram isolados para conter a contaminação e médicos americanos com experiência recente de Chernobyl se uniram aos profissionais de saúde do Brasil para tratar os doentes.
O perigo invisível
Em uma das cenas mais marcantes da obra, pai e filha brincam sobre a mesa do jantar jogando as “estrelinhas” para cima e ficam encantados vendo o césio brilhante cair do céu como em um sonho, sem imaginar o pesadelo que esse simples momento em família desencadearia. Logo depois, serviram o jantar e, enquanto a pequena “Celeste” (a personagem que representa Leide das Neves Ferreira, vítima fatal e símbolo deste desastre) comia um ovo cozido, a substância radioativa entrou em contato com o alimento. A menina teve seu organismo infectado de forma muito grave e irreversível. Outro testemunho emblemático é o de “Carlinhos”, inspirado no catador Roberto dos Santos Alves, que sofria muito com dor e teve parte do seu braço amputado devido à gravidade e progressão da ferida causada por Césio-137.
Remédio, vítimas e heroína

Foto: Reprodução/TV Anhanguera
Os sintomas apresentados pelos grupos contaminados eram: vômito, tontura, perda de cabelo e feridas na pele semelhantes a queimaduras. O “Azul da Prússia”, pigmento industrial usado na medicina para tratar o organismo de pessoas que ingeriram ou inalaram metais pesados como Tálio ou Césio-137, funciona como uma esponja no organismo, com o objetivo de eliminar os resíduos do cloreto de césio pelas fezes após “prendê-los” ao antídoto. Apesar de ter salvado vidas, o medicamento não foi o suficiente para evitar a morte de “Celeste” mesmo administrado em doses mais altas. Ela e “Antônia” (inspirada na vítima Maria Gabriela Ferreira) ficaram em estado gravíssimo e faleceram no mesmo dia no Hospital Naval do Rio de Janeiro, para onde os pacientes mais debilitados foram levados e tratados.
“Antônia” era a esposa do dono do ferro-velho; foi ela quem suspeitou que todos estavam doentes por consequência do “objeto amaldiçoado” comprado por seu marido e deixado em casa durante 10 dias. Ela o levou de ônibus até a vigilância sanitária para pedir ajuda investigativa. Apesar de ter sido uma ação arriscada, foi o que revelou a origem da tragédia e evitou maior disseminação da substância tóxica. Por este motivo, ela foi retratada como uma heroína.
Seu marido e seu cunhado (pai da “Celeste”) sobreviveram ao acidente, mas tiveram problemas de saúde física e psicológica em razão da exposição, da culpa e do trauma. Na vida real, Devair Alves Ferreira e Ivo Alves Ferreira faleceram anos depois do ocorrido, por complicações dessas enfermidades.
Medo, luto e estigma

Foto: Sérgio Marques/Agência O Globo
O velório e sepultamento das vítimas foram marcados por pânico coletivo e revolta das pessoas que temiam o alastramento da contaminação pelo solo da região. Considerados “fontes radioativas”, seus corpos foram enterrados em caixões revestidos com chumbo e as covas, seladas com concreto grosso.
Uma sociedade inteira ficou marcada por preconceito e necessita de assistência vitalícia e reparação histórica. As vítimas fatais eram vistas como “lixo atômico” e os familiares ou sobreviventes como uma “extensão” desse lixo, sendo forçados ao isolamento social.
Os sobreviventes do Césio-137 enfrentaram décadas de batalhas judiciais para as sentenças saírem do papel e, com isso, obterem pensões, assistência médica e parte da sua dignidade de volta.
A cor, a classe social e o endereço das crises ambiental e climática
Durante toda a série, cenas mostram os possíveis responsáveis por abandonarem o equipamento de radiação sendo interrogados. Cada um com sua versão, tentava responsabilizar as outras partes. Por fim, o roteiro deixa bastante evidente que quem sofreu com o acidente e sofre as consequências até hoje são as vítimas e sobreviventes de Goiânia.
Um dos exemplos do que chamamos racismo ambiental acontece quando populações marginalizadas, em sua maioria negras e moradoras de periferias, são mais expostas a resíduos tóxicos que moradores de outras áreas do mesmo território. Neste caso do acidente com Césio 137, catadores, trabalhadores braçais, mulheres e crianças de bairros afastados — cidadãos com baixa escolaridade e falta de acesso à informação técnica. Tais condições são uma prova da negligência do Estado nesses territórios.
Ruas foram isoladas, casas foram demolidas, terrenos concretados e sua ocupação impedida por 150 anos. O Supremo Tribunal de Justiça (STJ) reconheceu a desapropriação indireta e condenou o estado de Goiás a pagar pelos danos morais e materiais aos herdeiros dos lotes interditados. As histórias de muitas famílias foram apagadas por irresponsabilidade e falta de fiscalização. Em vários momentos da trama, percebe-se que a preocupação do poder estatal estava concentrada em expor na mídia que a situação estaria controlada, quando, na verdade, a prioridade deveria ser adotar medidas responsáveis com atenção e, principalmente, urgência.

Foto: Reprodução/Agência Internacional de Energia Atômica
Outro ponto relevante para reflexão é a criação de “zonas de sacrifício”, expressão utilizada pelos movimentos de justiça ambiental que basicamente tratam-se de áreas geográficas onde Estado e empresas promovem atividades com impacto prejudicial ao meio ambiente e à humanidade. Geralmente, essas zonas são ligadas ao racismo ambiental, por conta desses efeitos serem desiguais para ricos, pobres e grupos racializados.
Seis mil toneladas de rejeitos radioativos foram abrigadas em Abadia de Goiás e permanecem sob vigilância da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN). Antes de tal decisão, a série mostra que foi cogitado pelas autoridades despachar o lixo na “Serra do Cachimbo”, área de difícil acesso localizada no estado do Pará, onde vivem diversos povos indígenas. A justificativa era de que, por ser longe da zona urbana, o risco à humanidade era quase zero. Porém, o governo do Pará não aceitou e houve protesto da população paraense, especialmente de lideranças indígenas; obrigados a recuar, mantiveram o lixo no próprio estado onde tudo ocorreu.

Foto: CNEN/Divulgação
A União, o Estado e a CNEN foram responsabilizados pela falha na fiscalização. Conforme o decreto 81.384 de 1978, cabia ao poder público, por meio do Ministério da Saúde, garantir a segurança desses materiais, então a falha nesse dever de vigilância contribuiu diretamente para a tragédia. E mesmo que os especialistas afirmem não haver risco nas áreas concretadas, é importante que a educação e a fiscalização sejam contínuas para evitar novos acidentes.
Lições da injustiça ambiental
Todo este desdobramento é um exemplo clássico de como os impactos das questões ambientais recaem com mais força sobre grupos pobres e racializados, o que também se caracteriza como racismo ambiental. Além disso, enfatiza a ausência de preocupação ambiental, pois uma vizinhança humilde de Goiânia sentiu na pele a crueldade da desigualdade — um povo sem voz política que foi atingido profundamente.
Após conhecer o caso retratado em “Emergência Radioativa”, é impossível não pensar que todo esse sofrimento poderia ter sido evitado. O questionamento incômodo que surge é: será que a cápsula de Césio-137 teria sido descartada respeitando as normas ou removida imediatamente se estivesse localizada em um bairro de luxo, onde a voz política e a pressão do poder econômico existem? Teria recebido atenção apenas dois anos depois do abandono? Provavelmente, em tal caso, nem sequer teria sido abandonada de forma tão irresponsável, não é mesmo? E se a justiça tarda, a ponto de a vítima falecer antes de receber a indenização, ela ainda é considerada justiça?
Respostas de 12
Parabéns Renata pelo ótimo trabalho que vc está fazendo
Com fé em Deus vc vai ser uma ótima jornalista.
Obrigada pelo incentivo, é muito importante para mim!
Exelente matéria, mostrando o risco de descarte incorreto de um objeto, causou mortes de inocentes, parabéns aos envolvidos 👏🏻👏🏻👏🏻
Me sinto honrada! Obrigada.
Perfeito ❤️
Gratidão! ❤️
Um fato real, de muita tristeza, sofrimento e dor. Onde o governador não deu tanta importância. Um bairro onde eram de pessoas humildes e que não tinham conhecimento do grande perigo. Pessoas irresponsáveis deixaram esse perigo para trás.
Muito triste tamanho sofrimento, e muito revoltante tamanha irresponsabilidade.
Excelente matéria, eu em particular nunca tinha ouvido falar desse tema tão triste que foi para as pessoas da época na localidade.
Triste mesmo! Quando tive contato com a história me emocionei muito.
Parabéns, adorei 🥰
Obrigada, me sinto lisonjeada!