Lideranças de diferentes segmentos e idades compartilharam suas decisões em atuarem a favor do desenvolvimento sustentável

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O que eu vivi já em contribuição para um mundo democrático e sustentável? O que me deixou emocionado, com energia, me sentindo parte desse mundo democrático? Qual atitude em minha própria casa pode fortalecer minha própria história? Essas foram as questões que orientaram a fala de cada liderança participante do Diálogos Intergeracionais sobre Sustentabilidade na Rio+20, na tenda cinco, na manhã de ontem (19/6), durante a programação da Cúpula dos Povos.

Para registrar esse diálogo, participaram: Jammie Henn, de 28 anos; Regina Chaves, de 17 anos; Heloisa Helena, de 49; Marina Silva, de 54 anos; Fernanda Kaingang, de 34 anos de idade; Ailton Krenak, 58 anos; Oded Grajew, de 68 anos; Edith Sizzo, 73; Ivan Pauscaud, 34; Lucas Campodonico, 33; e Maria Alice Setubal, 62.

A primeira a falar foi Fernanda Kaingang. A jovem é a primeira representante indígena, advogada e mestre em direito público pela Universidade de Brasília e diretora executiva do Instituto Indígena para Propriedade Intelectual (Inbrapi). Começou explicando a origem de seu nome, que é o nome de um chá de cura. A sua avó já falava de seu papel social. Filha de uma grande educador e defensora de modos tradicionais indígenas, Kaingang contou que sua mãe também esteve na ECO-92 e disse para ela: “Os pais ficam em casa agora e os filhos vão para Rio+20”.

A indígena questionou como implementar as metas das florestas e ainda criticou que um grupo pequeno de indígenas participantes da Rio+20 estão em condições precárias no Sambódromo e no Aterro do Flamengo. “Temos o tema da demarcação das terras indígenas na Constituição Federal, na Agenda 21, na Carta da Terra, que reconhece os saberes indígenas. Hoje não sabemos como eles irão contribuir para a Rio+40”, salientou e ainda criticou como regressão do movimento da sociodiversidade a aprovação do Código Florestal. E terminou: “Nós faremos o possível para discutir com os governos. Somos povos para ensinar como manter a floresta em pé. Nunca recebemos pelos nossos serviços socioambientais prestados”.

Após a indígena, Jammie contou sua militância. O criador da organização 350.org, diretor de comunicação desta organização e autor de publicações sobre juventude e militância contou que é a primeira vez no Brasil e já ficou impressionado com a energia e a possibilidade de mudança. Ele tinha o sonho de estar em uma tenda e dormindo na Amazônia e sua esperança em continuar lutando em prol do meio ambiente. Também contou sobre a criação da organização 350.org. “Temos esperança, apesar de todos os fracassos que acontecem no Riocentro. Sabemos que as mudanças acontecem aqui, não nos espaços em que estão os políticos. Há uma citação em minha parede do Nelson Mandela: ‘Não é o que temos medo da nossa sombra, mas temos medo  da nossa própria luz. Acho que todos nós temos esse sonho: sonhar com Amazônia e acordar sendo verdade”.

A cearense Regina Chaves, coordenadora da Rede Cearense da Juventude Recejuma e delegada da Conferência Infanto-Juvenil de Meio Ambiente na Rio+20, falou da mágica do seu trabalho com educação ambiental. Apesar de sua família não ter vínculo nesse segmento, ela gostou do impacto de atuar com educação ambiental, na formação em escolas. “Trabalhar com amor, carinho, respeito com as diferenças, pelas causas, para melhorar sua convivência dentro de casa”, disse. A jovem comentou que gostaria de sair da Cúpula com mais determinação em sua luta, com ideias, com algo concreto e novos aprendizados.

O empresário Oded Grajew, idealizador do movimento Nossa São Paulo, falou que estava presente na ECO-92 e da époda de impeachment contra o ex-presidente Fernando Collor. “Muita gente dizia que não ia dar em nada. No final participaram cerca de duas mil pessoas. O que significa isso? Todo movimento de transformação começa com pouca gente. E essas pessoas acreditam que é certo e justo. Isso vale para hoje, ontem e sempre”, recordou-se.

Sobre o rascunho zero, Oded chamou atenção para pressão da sociedade para o governo cumprir as metas estipuladas. Também destacou o tema de financiamento de campanhas. “Enquanto a gente não mexer na questão de financiamento de campanhas, muita coisa não irá acontecer”, disse. O idealizador do Fórum Social Mundial pediu ao público atenção na hora de escolher seus candidatos e prefeitos. “Cada um tem que sair daqui e perceber o que acontece para agir. Não adianta sair daqui e voltar para casa, fazendo as mesmas coisas. Quatro meses para escolher o que vai acontecer em quatro anos”.

A jovem Damaris Paes, de 19 anos, atua no Rejuma e na ONG Coletivo Jovem de Manaus. Contribui para a articulação da vinde de jovens do Amazonas para participar do encontro. Ela saiu do Pará e foi viver no sul da Amazônia para atuar na formação de jovens. “Começamos a mobilizar a sala de aula, que aumentou para a cidade e depois ao interior. No ano passado, criamos outro coletivo jovem no interior”. Ela falou de sua felicidade em ver os jovens, que formou, articulando outros encontros e manifestações. E deixou um recado:  “Desde que começamos a preparar a Rio+20 muitos dizem que nós temos o poder, a responsabilidade de mudar o mundo. A responsabilidade não é nossa. Temos um grande poder de mobilização. Nós em todos os lugares podemos mudar a realidade. Nós queremos isso também e que façam conosco”.

Já Lucas, coordenador da Rio+Você, foi o responsável por muitos estarem de camiseta verde clara com a sigla do movimento. A Rio+Você mobilizou jovens de mais de 200 cidades para trazê-los para a Conferência Internacional das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, e eventos paralelos. A pouco tempo, o designer se deu conta da importância da informação para conscientização e possibilidade de ação. “Passou na minha cabeça fazer um evento simultâneo sobre juventude e diversidade. E aí surgiu a ideia da campanha e foi um êxito”. Sobre sustentabilidade, ele acha que tenta ser cada dia uma pessoa melhor. “Quando um se dá conta de suas contradições, impulsos, tudo fica fácil”.

Para encerrar a primeira rodada, Maria Alice Tide Setubal, conselheira de muitas organizações sociais, educadora, doutora em psicologia da educação, contou que seu olhar mudou sobre o meio ambiente em 2000, quando casou novamente, foi morar em uma chácara e trabalhar com turismo rural. “Aprendi a ver a natureza de outra forma, em diferentes tonalidades. Aprendi muito com essa integração”.  Ela ainda comentou sobre uma fala da Maria sobre o tempo para uma ideia: o tempo do semear, do poder de escutar o outro e esses aprendizados. “Isso possibilitou essa escuta, articular diferentes grupos e pessoas. Fui ficando próxima e participando de redes que me ajudaram a repensar o que é fundamental: olhar essa educação para a sustentabilidade”.

Além de Fernanda, Ailton foi outra liderança indígena presente. O ambientalista e escritor fez um levantamento da ECO-92 para os dias de hoje: “Aprendiz que nós podemos atuar com a nossa intelectualidade, ter nossa própria identidade e se relacionando com outros coletivos, além de atuar em sistema de redes”.

O representante da Rede Povos da Floresta acredita que as novas gerações irão potencializar o protagonismo. Atualmente ele dedica sua luta em defesa das florestas e usa sua capacidade de mobilização e ação em rede.

Os indígenas xavantes do Mato Grosso cantaram e fizeram um ritual para lideranças e participantes do Diálogos Intergeracionais. O cacique Xavante também falou: “Temos esperança que a nossa área seja limpa. Queremos colaborar. Nossa área está na Amazônia Legal e está totalmente devastada pelos não indígenas. Queremos a exclusão deles. Agradeço aos participantes, como a Marina para ouvir nossa realidade. Na ECO-92 estive aqui reivindicando a demarcação da área e esperei 20 anos para a expulsão dos não indígenas, quero solução já!”

Cidadãs do mundo

Edith Sizzo revelou as razões por participar de encontros e eventos relacionados com a causa ambiental: raiva, amor e esperança. A holandesa sente raiva pela morte de inocentes em guerras e conflitos. Até hoje não entende o racismo. Comentou sobre a escolha por estudar patologia e sua experiência em acompanhar seu marido que atuava em projetos de desenvolvimento na Índia, Hong Kong e Indonésia. “Decidi aprender todas as línguas por onde estava, estudar a população e suas culturas. Em Hong Kong, fomos ainda na época em que era colônia britânica e montamos um programa para atender 70 mil crianças. A raiva só cresceu, mas meu amor também. Depois fomos para a Índia e minha raiva cresceu ao ver como aquelas mulheres eram tratadas, mas meu amor por elas também cresceu. Aprendi com essas diferenças. Há uma comunidade global e nós fazemos parte dela”.

Vandana Shiva dirige o Centro para a Ciência, Tecnologia e Política dos Recursos Naturais de Dehradun, na Índia. Criticou os chefes de Estados presentes na Rio+20, presentes nas atividades da Riocentro. “Um futuro que apague a história. Há uma frase muito bonita: ‘a luta do povo contra o poder é a luta contra o esquecimento”. A saída, para ela, é a comunicação intergeracional. Lembrou que quando era estudante de física aprendeu com as mulheres da sua região sobre as ervas e a ser mais humilde. “Sabia solucionar todo tipo de equação, mas não sabia a erva da floresta. Foi daí que surgiu o movimento que elas não fossem destruídas. Árvores não são madeiras. A natureza não é dinheiro, nem commodities”.

A indiana entendeu a verdadeira economia verde e a diversidade da vida com a semente. “Agora podem escrever o quanto quiserem como as vitórias da Conferência do Rio+20 foram desfeitas. Eles podem definir a economia verde como uma modificação da natureza. O sal irá continuar sendo da natureza. Acabei de sair uma sessão, em que os indígenas  disseram que estão sendo ameaçados na distribuição de sementes. Convido vocês, a Marina, em um movimento de todos nós em que a semente traduz a liberdade. O futuro desse País não está na mão de corporações criminosas. Esta na mão das gerações futuras. Primeiro não ter medo, porque alguém está te dominando, ameaçando. Segundo, o amor pela terra, pelas espécies e s pelos sete milhões de habitantes. As corporações estão tentando redigir leis para dominar nossos recursos”, alertou. Neste momento, Fernanda Kaigang entregou um colar de sementes do Pau Brasil e outra do povo Pataxó, da Bahia.

O jovem Ivan é da Rede Francesa de Estudantes para o Desenvolvimento Sustentável e participou da organização da ECA-92, na construção da Agenda 21, e dos preparativos da Rio+20 contou sobre a criação dessa rede, criada após a morte de um jovem de 24 anos por câncer. “Por que uma pessoa dessa idade morre? Por causa dos alimentos com agrotóxicos, lá era uma coisa inustivada. A geração irá viver menos que seus pais. Fiquei impressionando em ver a quantidade de pessoas falando no celular. Será que eles têm que mandar em nossas vidas? Valorizamos mais o ser e não o ter. Precisamos sair do mito do crescimento e ir para a prosperidade da felicidade. O primeiro vetor das mudanças são os jovens”, pontuou.

Participaram desse encontro estudantes, crianças e jovens, educadores, gestores de projetos, empresários e, inclusive, integrantes do Programa Jovens Urbanos, da Fundação Itaú Social.

 

Por Suzana Sarmiento – Publicado em Setor3 (www.setor3.com.br)

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