Quanto vale a venda do amanhã?

Uma reflexão a partir da leitura dos livros “O amanhã não está à venda” e “Futuro Ancestral”, do filósofo e líder indígena Ailton Krenak.

Por Camila Alves

Há muito tempo não programo atividades para “depois”. Temos de parar de ser convencidos. Não sabemos se estaremos vivos amanhã. Temos de parar de vender o amanhã

Ailton Krenak em seu livro ‘O amanhã não está à venda’

Começo o texto com essa frase do livro “O amanhã não está à venda”, de Ailton Krenak, pois fala bastante sobre o período de lançamento do livro e o que estávamos vivenciando: a pandemia do COVID-19. 

A pandemia foi um momento muito difícil onde tivemos que parar todas as nossas atividades e ficar em isolamento para nos proteger. Em seu livro, Krenak começa contando sobre os cuidados que precisaram ser tomados para que não apenas ele, mas os que estão a sua volta fossem protegidos do vírus. Ele reflete também sobre como esse tipo de isolamento é recorrente para os moradores das aldeias, visto que, desde que a história do Brasil começou a ser escrita sob o olhar colonizador, focamos nela e deixamos toda a história dos que já habitavam este território para trás, isolando-os e seguindo o fluxo da história como se eles fossem invisíveis ou mero coadjuvantes. Hoje, infelizmente, ainda é possível observar essa visão, principalmente na sociedade urbana, pois apesar de falarmos tanto sobre humanidade, não sabemos de fato o que isso significa.

Não apenas nos colocamos como o ser mais importante do sistema, como elencamos outros seres em níveis mais baixos, uma sub-humanidade com os caiçaras, quilombolas e indígenas. Achamos estranho quando eles falam da natureza de igual para igual, mas não achamos estranho quando o governo, em plena pandemia, disse que a economia não podia parar – e que alguns iriam morrer e está tudo bem.

Esse antropocentrismo urbano foi evidenciado a partir do momento em que apenas estávamos adiando nossas tarefas para fazê-las mais tarde, em uma data onde “tudo estaria de volta ao normal”. Porém, no livro o autor fala sobre não podermos voltar ao que um dia foi “normal”, porque se isso acontecer, de nada valeu as mortes de todas as pessoas vítimas do vírus.

Krenak ainda dialoga sobre essa necessidade de reconexão com a natureza para que possamos providenciar para a próxima geração um futuro melhor. Um futuro em que eles cuidarão do espaço em que estão ocupando e que lembrem-se daqueles que vieram antes. Um futuro ancestral.

Futuro Ancestral

Lançado em 2022, o livro Futuro Ancestral traz reflexões de Krenak sobre a vida entre 2020 e 2021 – ou seja, durante a pandemia. Separado em 5 capítulos (Saudações aos rios; Cartografias para depois do fim; Cidades, pandemias e outras geringonças; Alianças afetivas e O coração no ritmo da terra).

Ler esse livro foi como estar em uma maré seguindo os pensamentos de Krenak. Os tópicos abordados são muito ricos e a maneira como ele mostra toda a beleza de algo que nós possamos considerar simples, como o rio, abre a nossa mente e desperta sentimentos e atenções que são necessárias para furar a bolha da nossa ignorância e começar a olhar, principalmente, para a natureza sob o olhar igual e não nos colocando como os seres vivos mais importantes.

Para além da natureza, Krenak dialoga sobre a pandemia e como o sistema quer, cada vez mais, que nos distanciamos das florestas e aceitamos a vida medíocre que nos é oferecida – digo medíocre porque nos colocamos em uma posição naturalizada de que se o humano não está produzindo para o crescimento econômico de seu país ou da sua cidade, ele não tem mais utilidade.

As duas obras citadas e outras que foram lançadas são um convite para refletirmos sobre a nossa atuação neste mundo. Para além de suas obras, é importante que possamos abrir um espaço para conhecer mais sobre Ailton Krenak e seu papel como ativista e representante.

Ailton Krenak

Ailton Krenak é escritor indígena, ativista do movimento socioambiental e de defesa dos direitos indígenas. Contribuiu para a criação da União das Nações Indígenas (UNI) e organizou a Aliança dos Povos da Floresta, realizando um trabalho educativo e ambientalista que resultou na conquista do “Capítulo dos índios”, na Constituição de 1988, que passou a garantir os direitos indígenas à cultura autóctone* e à terra.

Ailton Krenak no dia da toma posse na Academia Brasileira de Letras (Foto: ABL/Divulgação)

Recentemente, Ailton Krenak tornou-se o primeiro indígena a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras (ABL), instituição cultural responsável pelo cultivo da língua e da literatura nacional. 

Não há palavras para expressar a importância de Krenak para o pensamento da nossa sociedade contemporânea e, principalmente agora que ele foi imortalizado na ABL, abrindo portas e novas perspectivas na forma de pensar. Ler as obras de Ailton Krenak é se permitir furar a bolha da nossa ignorância e refletir sobre o passado, presente e a construção de um futuro. 

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