Preconceito contra imigrantes: o outro como “alienígena”

A extrema direita tem crescido em diversos países nos últimos anos. Na Europa, ela adota uma posição xenófoba, atacando os imigrantes que, segundo o discurso ultraconservador, “roubam” empregos e “contaminam” os países ocidentais com seus valores — sobretudo os de ordem religiosa, no caso de cidadãos islâmicos que se estabelecem em países ocidentais.

O drama dos imigrantes ilegais é ilustrado de maneira ampla por “Bem-vindo”. Dirigido e coescrito pelo francês Philippe Lioret (de “Não se Preocupe, Estou Bem”), essa recriação dos percalços vividos por curdos e afegãos (entre outras origens) na região norte da França provocou intensa polêmica no país por registrar a perseguição do governo a cidadãos franceses que colaborem de alguma maneira com os “alienígenas”, o que inclui lhes dar abrigo, comida ou mesmo um pouco de atenção.

Na trama de Lioret, que fez pesquisas na cidade portuária de Calais antes de escrever o roteiro, um professor de natação (Vincent Lindon) sente-se moralmente obrigado a ajudar um jovem curdo (Firat Ayverdi) que planeja encontrar a namorada na Inglaterra, mas que não consegue sair da França. De um lado, acompanhamos as dificuldades do rapaz e sua fé inabalável na capacidade de completar a jornada. De outro, vemos o cerco ao professor. Como um bom filme-denúncia, “Bem-vindo” dificulta a vida do espectador que não queira se posicionar em relação ao tema.

VOCÊ FOI MARCADO POR ALGUM FILME, BRASILEIRO OU INTERNACIONAL, QUE TRATE DE IMIGRANTES? CONTE QUAL FOI E EXPLIQUE POR QUE MEXEU COM VOCÊ.

“Sim. Pelo filme A boa mentira (The Good Lie). Assisti sem muitas expectativas e esperava só mais um filminho pipoca pescado na Netflix, mas ele me jogou na cara a importância da alteridade ao tocarmos a cultura do outro e o quanto as concepções de tempo, espaço, existência e cultura são particulares de cada povo e que por isso o quanto é importante o respeito aos povos, suas especifidades e tradições.”

Fernanda P. Garcia, Campo Grande (MS)

“‘A Vida é Bela’ marcou minha vida. Eu sou negra, mas tenho uma prima descendente de alemão. E a primeira que vi esse filme já me marcou MUITO por conta de o pai fazer de tudo pra proteger o filho das atrocidades que estavam sofrendo, e da violência, até o fim. Me trouxe, enquanto mulher negra (que é, muitas vezes tratadas como estranha em sua própria terra – Vitória/ES, a cidade que mais mata mulheres negras no Brasil) um outro olhar sobre como lidar com a opressão. E me falou fundo também no momento em que o Guido acha que o oficial está chamado-o num canto para ajudá-lo… Mas esse sequer estava percebendo sua aflição.
Citei minha prima pq a última vez que assisti La Vita è Bella foi com ela. E foi forte perceber nela dor e a vergonha de ter em sua raiz essa história terrível.”  

Leandra Barros, Vitória (ES)

***

E nesta quarta-feira, 31/08, o diretor polonês Jerzy Skolimowski fez um apelo aos cineastas: mais filmes com a temática da imigração, uma das mais relevantes questões sociais do mundo contemporâneo. A declaração foi feita durante o Festival Internacional de Cinema de Veneza, onde foi premiado. Saiba mais aqui!

 

Jornalista, mestre em Artes/Cinema, com uma dissertação sobre a obra de Woody Allen, e doutor em Meios e Processos Audiovisuais, com uma tese sobre a formação de professores para a educação audiovisual, pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.

É apresentador do canal de TV Arte 1, colaborador dos jornais "O Globo", "Valor Econômico" e "Folha de S. Paulo", e de publicações na área de educação, como o jornal "Mundo" e o portal "Carta Educação". Colabora em projetos do Laboratório de Mídia e Educação (MEL - Media Education Lab) e trabalha como produtor associado da produtora Parece Cinema.

Ver +

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *