Eleições e clima: o que os candidatos à presidência dizem sobre justiça climática

Por Isabela Vieira
Mentoria Monise Berno
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Nenhum plano de governo cita o El Niño, e maioria ignora metas climáticas, adaptação e justiça climática

As mudanças climáticas já não são assunto distante para o eleitor brasileiro. Enchentes que se repetem, calor fora de época e secas prolongadas passaram a integrar o cotidiano de quem mora em grandes cidades e regiões metropolitanas. Os efeitos podem chegar à escassez de chuvas e das secas históricas na Amazônia, que podem  isolar comunidades pela interrupção do transporte fluvial,  ao risco de a floresta atingir um ponto de não retorno. As projeções ainda indicam mais tempestades severas, frentes frias canalizadas e inundações graves, como as que atingiram o Rio Grande do Sul.

O que antes era pauta episódica de cobertura jornalística tornou-se, agora, pano de fundo permanente da vida urbana e rural, pressionando governos e candidatos a apresentarem respostas concretas.

Esse cenário coloca em evidência a chamada justiça climática, que parte de uma constatação simples: os impactos do clima não atingem todos da mesma forma. Trata-se de uma abordagem ética e política, derivada da justiça ambiental, que relaciona direitos humanos, equidade e sustentabilidade. Na prática, ela orienta medidas para proteger os grupos mais expostos, populações periféricas; indígenas; quilombolas; ribeirinhas e negras, e defende que essas pessoas participem das decisões que afetam suas vidas.

O conceito se apoia em três dimensões: a distributiva, que trata da repartição desigual de riscos e benefícios; a de reconhecimento, que valoriza saberes e territórios historicamente invisibilizados; e a procedimental, que garante voz nos processos decisórios. O debate inclui temas como racismo ambiental, saneamento básico, moradia digna, acesso à água potável e demarcação de territórios indígenas e quilombolas.

Na disputa eleitoral, porém, o tema aparece de forma desigual. Levantamento do Observatório do Clima aponta que, entre 28 assuntos analisados, o enfrentamento ao El Niño é o único ausente em todos os planos de governo. Quando o assunto é a crise do clima, poucos programas apresentam propostas concretas: apenas o de Lula menciona o cumprimento da meta climática brasileira e o Acordo de Paris, com ações e prazos para adaptação, além de compromissos com fiscalização ambiental e agricultura sustentável. É o único documento que trata a adaptação climática como destaque, detalhando medidas e prazos, que sinaliza algum grau de preparo para lidar com os efeitos já em curso.

A ausência de propostas, no entanto, não é uniforme. Ela varia entre o negacionismo explícito, o reconhecimento vago e a contradição entre discurso e prática.

 No primeiro grupo está Flávio Bolsonaro, cujo plano sequer admite a existência de uma crise do clima. Já Augusto Cury reconhece as mudanças climáticas, mas não apresenta política estruturada para enfrentá-las: seu programa não menciona a Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) brasileira, metas de redução de emissões, neutralidade climática, justiça climática ou racismo ambiental. Renan Santos segue caminho semelhante e vai além, seu plano não traz políticas específicas para crise climática e não cita a agenda de clima, deixando de fora a meta brasileira, o Acordo de Paris, a Política Nacional sobre Mudança do Clima (PNMC) e o Plano Clima.

Há ainda os casos em que o reconhecimento do problema convive com lacunas graves. Ronaldo Caiado admite que as mudanças climáticas provocam eventos extremos e perdas agrícolas e propõe medidas de adaptação e prevenção de desastres, mas não inclui propostas de redução de emissões nem menciona a NDC, o Acordo de Paris, a justiça climática, o racismo ambiental, o Plano Clima ou os mapas do caminho. Romeu Zema, por sua vez, reconhece que o país é afetado por eventos extremos, mas não deixa claro quais serão os meios de implementação das ações de monitoramento e resposta a desastres.

O resultado é um debate eleitoral em que a crise climática é reconhecida como urgente, mas ainda tratada, na maioria dos casos, como tema secundário. Enquanto os efeitos já se fazem sentir no cotidiano, no transporte interrompido, na falta de água, na perda de moradias e na insegurança alimentar , a resposta política segue fragmentada.

 Análise dos planos de governo (Observatório do Clima)

A ausência de propostas consistentes sobre a crise climática nos planos de governo não é apenas uma falha programática, é um risco concreto de aprofundar as desigualdades que a justiça climática busca enfrentar. Isso porque o plano de governo não é um documento meramente simbólico, é o alicerce do ciclo de políticas públicas e do orçamento. É a partir dele que se definem prioridades, se estruturam programas e se direcionam recursos. O que não é colocado como prioridade no programa eleitoral dificilmente entra nas metas do Plano Plurianual, da Lei de Diretrizes Orçamentárias e  nem da Lei Orçamentária Anual. Ou seja, a omissão no debate eleitoral se converte, na prática, em ausência de verba, de política e de ação concreta.

E essa omissão ocorre em um contexto em que a sociedade já sinaliza o caminho oposto, pesquisa da Ipsos encomendada pelo Observatório do Clima, que ouviu 1.800 brasileiros em todas as regiões do país entre 17 e 20 de agosto, mostra que 91% consideram importante que os candidatos apresentem propostas para enfrentar as mudanças climáticas, sendo que 62% classificam o tema como “muito importante”. Além disso, 90% consideram muito importante que o governo e as políticas públicas se dediquem à proteção ambiental, um dos consensos mais fortes do estudo. Há, portanto, uma distância entre o que a população espera e o que os programas eleitorais entregam.

Esse encadeamento tem consequências diretas para quem já vive na linha de frente dos desastres. Sem ações de adaptação e infraestrutura preventiva, a gestão pública limita-se a resolver as questões das tragédias, atuando apenas depois que a enchente destrói casas, a seca isola comunidades ou o calor mata.

Sem planos claros, o país corre o risco de ver a crise do clima ampliar ainda mais o abismo entre quem tem condições de se proteger e quem está na linha de frente dos desastres. Quem pode pagar por moradia em área segura, ar-condicionado, água encanada e plano de saúde enfrenta o calor e as tempestades de forma muito diferente de quem vive em encostas, beiras de rio ou periferias sem saneamento. A justiça climática existe justamente para nomear e enfrentar essa desigualdade. Ignorá-la no programa eleitoral é, portanto, escolher não apenas o que não será feito, mas também quem continuará desprotegido.

Quer pesquisar candidaturas comprometidas com a justiça climática antes da votação? Conheça a campanha Vote pelo Clima.

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Imagem destacada: Kritsada Seekham/Pexels.

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Isabela Vieira

Técnica em Meio Ambiente e estudante de Graduação em Jornalismo pela Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat). Bolsista de Iniciação Científica (CNPq) no grupo de pesquisa ”Jornalismo, Educomunicação e Cidadania (Educom.JOR)”, atuando no projeto ”Educomunicação Socioambiental e Mudança Climática em Territórios Indígenas de Mato Grosso”. Vencedora do Expocom Centro-Oeste 2026 na categoria de Produção em Jornalismo Literário com o texto intitulado “Terra que nos fez, terra que seremos”. Tem interesse em comunicação comunitária, jornalismo ambiental e produção de conteúdo socioambiental.

Isabela Vieira

Técnica em Meio Ambiente e estudante de Graduação em Jornalismo pela Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat). Bolsista de Iniciação Científica (CNPq) no grupo de pesquisa ”Jornalismo, Educomunicação e Cidadania (Educom.JOR)”, atuando no projeto ”Educomunicação Socioambiental e Mudança Climática em Territórios Indígenas de Mato Grosso”. Vencedora do Expocom Centro-Oeste 2026 na categoria de Produção em Jornalismo Literário com o texto intitulado “Terra que nos fez, terra que seremos”. Tem interesse em comunicação comunitária, jornalismo ambiental e produção de conteúdo socioambiental.

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