A camisa do Brasil virou campo de disputa. E isso diz muito sobre o país

Por Fátima Tertuliano Kalunga
Edição Monise Berno
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A história da camisa amarela ajuda a compreender um fenômeno maior: a disputa pelo significado dos símbolos nacionais e seus efeitos sobre a comunicação política e a democracia no Brasil. 

Há uma diferença importante entre criar um símbolo e se apropriar de um símbolo.

A camisa amarela da Seleção Brasileira não nasceu de um partido político, de um governo ou de um movimento ideológico. Ela surgiu em 1953, quando a então Confederação Brasileira de Desportos promoveu um concurso nacional para substituir o uniforme branco, associado ao trauma do Maracanazo (nome em espanhol dado ao jogo da final da Copa de 1950, quando a seleção brasileira perdeu para o Uruguai no Maracanã). O projeto vencedor foi do jovem desenhista Aldyr Garcia Schlee, que imaginou uma camisa capaz de reunir as quatro cores da bandeira brasileira. Desde então, a “amarelinha” deixou de ser apenas um uniforme esportivo para se tornar um dos principais símbolos da identidade nacional

Durante décadas, vestir a camisa da Seleção significava, sobretudo, compartilhar uma paixão coletiva. Ela atravessou governos de diferentes matizes ideológicas, crises econômicas, mudanças de regime e cinco títulos mundiais. Era um raro consenso nacional em um país acostumado às divergências.

Esse consenso começou a ruir quando a política descobriu o poder dos símbolos.

As manifestações de 2013 inauguraram uma nova fase da comunicação política brasileira. A partir dali, e com intensidade crescente entre o impeachment de 2016 e as eleições de 2018, a camisa da Seleção passou a ocupar um espaço que antes era reservado às bandeiras partidárias. O verde e amarelo deixaram de ser apenas as cores da Seleção para se transformarem, na percepção de parte da sociedade, em um marcador de identidade política.

Não foi um fenômeno espontâneo.

Na ciência política e nos estudos da comunicação, esse processo é conhecido como apropriação simbólica ou ressignificação de símbolos coletivos: quando um grupo político incorpora elementos que pertencem ao imaginário nacional para construir legitimidade, fortalecer identidade entre seus apoiadores e produzir uma distinção entre “nós” e “eles”. Não se trata apenas de estética. Trata-se de estratégia política. A reconstrução histórica da criação da camisa canarinho está documentada na exposição “A História da Camisa Canarinho: Como o amarelo-ouro passou a vestir o Brasil, desenvolvida pelo Museu do Futebol em parceria com o Google Arts & Culture. A exposição reúne documentos históricos, croquis originais de Aldyr Garcia Schlee e materiais do concurso promovido pelo jornal Correio da Manhã e pela Confederação Brasileira de Desportos (CBD), que definiu o novo uniforme da Seleção Brasileira em 1953. 

A força dos símbolos está justamente na sua capacidade de representar todos. E é exatamente por isso que eles são disputados.

Nenhum movimento político conseguiria criar, do zero, um símbolo com o peso emocional da camisa da Seleção. Ela já carregava décadas de memória afetiva, vitórias esportivas, infância, Copa do Mundo, reuniões familiares e sentimento de pertencimento. Apropriar-se desse patrimônio simbólico significava herdar, ainda que parcialmente, o capital emocional construído ao longo de gerações.

É nesse ponto que a estratégia comunicacional se encontra com a política.

Ao vestir sistematicamente a camisa da Seleção em atos políticos, parte da direita brasileira — especialmente durante a ascensão do bolsonarismo — produziu uma associação visual extremamente eficiente: patriotismo, nação e projeto político passaram a aparecer na mesma imagem. Essa associação não acontece porque os significados sejam naturais, mas porque são repetidos até parecerem naturais. A comunicação política chama isso de construção de enquadramento (framing).

O problema aparece quando um símbolo nacional deixa de funcionar como elemento de união e passa a operar como mecanismo de exclusão.

Se uma parcela da população evita vestir a camisa da Seleção para não ser identificada com determinada corrente política, há um deslocamento evidente do significado original do símbolo. Ele deixa de representar a coletividade e passa a representar, para muitos, apenas um segmento dela.

Não por acaso, o próprio Aldyr Garcia Schlee manifestou publicamente, ainda em vida, profundo desconforto ao ver sua criação transformada em bandeira de disputas políticas. Em entrevistas, afirmou que a camisa havia sido apropriada por movimentos que, em sua avaliação, não representavam o espírito com que ela foi concebida. 

É importante, porém, fazer uma distinção necessária.

Do ponto de vista jurídico, utilizar a camisa da Seleção em manifestações políticas não constitui, por si só, um crime. O debate não é penal. É político. Porque as democracias dependem de símbolos compartilhados.

Quando um grupo consegue monopolizar símbolos nacionais, produz algo maior do que uma vitória estética. Produz uma narrativa segundo a qual apenas ele representa “o verdadeiro Brasil”. E toda vez que alguém reivindica exclusividade sobre a identidade nacional, a democracia perde um pouco da sua capacidade de reconhecer a pluralidade que a sustenta.

Não existe uma única forma de amar o Brasil.

O patriotismo não pertence à direita, assim como a defesa da democracia não pertence à esquerda. O país é maior que suas disputas eleitorais e mais antigo que qualquer liderança política.

Nos últimos anos, diversos setores da sociedade passaram a defender aquilo que muitos chamam de ‘reocupação’ dos símbolos nacionais. Não para substituí-los por outros, mas para devolver-lhes seu significado original: representar todos os brasileiros, independentemente de orientação política, religião, raça, classe social ou voto.

Essa talvez seja a principal lição dessa história.

A camisa amarela nunca foi patrimônio de um partido. Nunca pertenceu a um presidente. Nunca pertenceu a um movimento político. Ela pertence à mesma coletividade que a transformou em um dos maiores símbolos do Brasil.

E talvez esteja na hora de lembrar que a democracia também se mede pela capacidade de compartilhar seus símbolos.

Referências

  1. Ribeiro, M. F. B. (2024). Reflexões sobre a camisa da Seleção Brasileira de Futebol. Revista Intellector.  
  2. Sousa, J. D.; Braga, A. B. (2021). Da política e do esporte: a bandeira brasileira e as rupturas discursivas da identidade nacional.  
  3. Entrevista de Aldyr Garcia Schlee ao El País Brasil (2018).  
  4. Museu do Futebol. A História da Camisa Canarinho: Como o amarelo-ouro passou a vestir o Brasil. Exposição virtual do Centro de Referência do Futebol Brasileiro, disponível na plataforma Google Arts & Culture.  Visto em 09/07/2026

Imagem destacada: Divulgação/Nike

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Fátima Tertuliano Kalunga

jornalista formada pela Universidade Federal de Goiás, comunicadora popular, produtora cultural e educomunicadora quilombola. Fundadora da Rádio Kalungueira e do Sistema Kalunga de Comunicação, desenvolve projetos voltados à comunicação comunitária, valorização cultural, formação de jovens comunicadores e fortalecimento dos direitos dos povos e comunidades tradicionais. Sua atuação conecta comunicação, educação, cultura, memória e justiça socioambiental, contribuindo para que as narrativas dos territórios sejam contadas por quem vive e constrói essas histórias.

Fátima Tertuliano Kalunga

jornalista formada pela Universidade Federal de Goiás, comunicadora popular, produtora cultural e educomunicadora quilombola. Fundadora da Rádio Kalungueira e do Sistema Kalunga de Comunicação, desenvolve projetos voltados à comunicação comunitária, valorização cultural, formação de jovens comunicadores e fortalecimento dos direitos dos povos e comunidades tradicionais. Sua atuação conecta comunicação, educação, cultura, memória e justiça socioambiental, contribuindo para que as narrativas dos territórios sejam contadas por quem vive e constrói essas histórias.

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