#Opinião:O mito da insuficiência

Uma reflexão muito pessoal sobre como, ainda que “invisível”, o racismo estrutural impacta uma vida inteira em pequenos momentos.

Por Mariana Gomes

Recorrente no meu processo de análise, o termo “suficiente” aparece mais vezes do que consigo contar. Nessas ocasiões, minha analista sempre me questiona: “o que é ser suficiente? E, mais importante, suficiente pra quem?”. Preciso dizer que raras são as vezes que consigo encontrar respostas para essas perguntas.  

A verdade é que, apesar de sempre questionar a minha “suficiência”, seja no âmbito profissional ou pessoal, se sou bonita o bastante, inteligente o bastante ou divertida o bastante, tenho percebido cada vez mais que não é uma questão, de fato, interna, mas que me vem diariamente a partir de pequenas situações cotidianas.

Comecei a questionar a minha “suficiência” ainda na infância, quando via o tratamento que minha mãe, mulher negra, pobre e mãe solo recebia do entorno – abro um parêntese para dizer que, inicialmente, esse não era um texto sobre raça, mas apenas sobre existir e sentir, porém, sendo uma mulher negra, cada minuto da minha permanência no mundo, ainda que eu eventualmente negue ou tente abstrair, é pautado em questões raciais. Sempre que eu ouvia um dos vizinhos mencionar minha mãe como “aquela nega metida”, ou como “neguinha” quando ela nos levava pra passear, quando saía de casa mais arrumada, quando tinha a ousadia de não se submeter a situações vexatórias, ou, ainda, quando levantava a voz para defender a própria opinião, eu dava um sorriso amarelo sem saber o peso que essas palavras carregavam. Já adulta, e muito mais consciente da estrutura que molda o mundo em que vivemos, percebi que essa expressão trazia muito mais do que uma crítica ao comportamento, com muitas aspas, arrogante (ao olhos de quem?) da minha mãe. Era, na verdade, uma crítica a sua não subserviência, uma crítica a essa mulher negra que, no fim das contas, só tentava dar o melhor pras filhas sem ter que abaixar a cabeça pra poder viver com o mínimo de dignidade.

Ainda na infância, na escola, nos primeiros anos de ensino fundamental, eu estava sempre na lista das mais feias da sala e a possibilidade de algum garoto ter “ficado” comigo era frequentemente sinônimo de riso e zombaria com ou da parte dele. No ensino médio, adolescente, em busca do primeiro namorado, era sempre preterida em favor das amigas brancas. Nunca era a favorita dos professores e nem considerada a mais inteligente da sala, não importava o quanto me esforçasse. 

Já adulta, na faculdade, o fato de estar em um meio no qual não me reconhecia, cercada por pessoas que tiveram um leque de oportunidades muito maior que o meu e com uma rivalidade e uma cobrança alimentada pelo ranking de notas da sala gerado pelo sistema, além de ter contado com professores muito pouco compreensivos e empáticos, a autocobrança e a comparação excessiva com os colegas viraram minhas melhores amigas junto às crises de ansiedade e ao desconforto quase diário.

Fora do ambiente universitário, o medo de tentar e falhar, o medo de descobrir que, de fato, eu não era boa o suficiente, me fizeram desistir de tentar e me transformaram em uma profissional insegura, ansiosa e pouco disposta a correr riscos. 

Atualmente, questiono — ou poderia dizer, mais precisamente, que, na verdade, reconheço — o peso que essas situações e falas tiveram, e ainda têm, sobre mim.

Na tentativa de recuperar a autoconfiança e a capacidade de falhar sem o peso da culpa e sem a necessidade do autoflagelo, tenho realizado o exercício  de me questionar constantemente: eu quero ser suficiente pra quem? E por que?

Racionalmente, eu — e sei que você também — conheço bem a resposta para essas perguntas, assim como as implicações que essa resposta traz. O desafio, porém, é aceitá-la no íntimo do estômago.

Há quem chame todo esse sentimento de síndrome da impostora. Eu chamo de outra coisa, no caso, racismo.

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