“Precisei domar a mim mesma para não cair na tentação de ser infinita e perder o simples de vista.” – Tamara Klink
Conheci Tamara na Green Zone da COP 30. Eu estava conversando com meu videomaker sobre um vídeo que havíamos criado juntos para uma empresa de saneamento básico quando de repente, JP, um amigo que trabalha no Instituto Alana se aproximou ao lado de uma moça.
Depois de me cumprimentar, ele nos apresentou e conheci a Tamara. Ela disse que me acompanha nas redes sociais e que é super fã do meu trabalho, no Instituto Perifa Sustentável. Eu agradeci e logo começamos a conversar.
Entre muitos kikikis, Tamara me contou que é velejadora, cruzou o Atlântico na Sardinha (apelido carinhoso que deu para seu pequeno barco) e que documentou a jornada num pequeno diário de bordo, que se tornou livro. Fiquei encantada com a nossa conversa e antes de me despedir, abri o site da Amazon e perguntei qual livro deveria comprar, para conhecer mais a sua história.
Ela me recomendou Nós – O Atlântico em Solitário e comprei no mesmo instante! Disse que leria no avião, durante as minhas intermináveis escalas de volta para Londres (o meu voo de baixo custo custou 2 dias de viagem – Belém, Sao Paulo, Roma e Londres rs).
Agora, numa manhã gelada e chuvosa do inverno de Londres, quero compartilhar algumas impressões que tive com a leitura. Bora comigo? =)

“Me sinto bem aqui. Mesmo quando as condições são difíceis, tenho a impressão de que há sempre uma saída, uma solução. E quando eu já tiver tentado de tudo, quando não puder fazer mais nada, vou esperar. Vou fazer o suficiente para manter o barco seguro, e a mim, viva. Vou guardar energia para quando meu esforço fizer diferença. Uma hora o contexto vai mudar. Como foi a calmaria no início, como foram as ondas de ontem.” – Tamara Klink
Primeiramente, preciso dizer: fiquei maravilhada com a leitura! Tamara se tornou um exemplo de ousadia, coragem e atrevimento, eu diria. Com apenas 24 anos, fez uma travessia sozinha pelo Atlântico e impressionou o mundo com seus relatos (a gata tem até documentário, produzido em parceria com a Localiza). Mesmo com poucos recursos, ela foi lá e criou suas próprias possibilidades, encontrou pessoas que apoiaram sua jornada e documentou parte dos bastidores num pequeno caderno, seu diário de bordo.
“Será preciso aceitar que o barco nunca estará pronto. Nem eu. E que jamais terei certeza de que saberei fazer um caminho que nunca fiz.” – Tamara Klink
Querida leitora, você já se sentiu paralisada por querer fazer algo interessante, divertido e que soa como loucura para o restante do mundo?
Juuuuuro, depois de ler o livro da Tamara, a minha vontade de fazer um mochilão pela Ásia foi intensificada! Agora deixou de ser um sonho distante e virou a minha próxima meta, com prazo definido e planejamento em construção (toda trabalhada na metodologia SMART).

Mas, enquanto eu me enchia de planos, um pensamento me atravessou: sonhar é um BAITA privilégio que muitas pessoas pretas e periféricas não tem! Me diga: como podemos criar metas a longo prazo quando não sabemos se teremos comida no dia seguinte, se a casa vai inundar na próxima chuva de verão ou se conseguiremos dinheiro para pagar o aluguel no final do mês?
Pois é, gata garota, esse assunto é vrau e vrau. Por isso é tão importante fazermos um debate interseccional sobre gênero, raça e classe em todos os nossos diálogos, para não nos perdemos no mundo fantasioso da meritocracia de “quem quer, consegue.” Tem que ter base forte para conseguir, viu?!
Eu mesma reconheço todas as vantagens sociais que me permitiram chegar onde estou: tenho pais presentes que investiram muuuuito na minha educação e criaram as fortalezas para que eu pudesse sonhar. E eu acredito, sinceramente, que isso não deveria ser nenhuma vantagem, mas direito básico de cada ser humaninho que habita neste mundo.
Quando nos permitimos sonhar e encontramos caminhos para realizar, desenhamos a nossa jornada de forma única, sendo regada por constante crescimento, aprendizado e evolução. Como disse Tamara, “Eu já sabia que a parte mais valiosa do projeto não era o reconhecimento dos outros, e sim o aprendizado que ninguém tiraria de mim.”
Tamara me ensinou a importância de ir lá e fazer, ao mesmo tempo que ela se mostrou consciente sobre todos os privilégios que foram pilares para que ela chegasse neste lugar. Com isso, é essencial entender de onde partimos, acolher nosso medo, aprender com erros, saber quem teremos dias e dias, respirar fundo, chorar quando necessário e simplesmente continuar seguindo a nossa jornada. Quando navegamos com o nosso próprio veleiro o caminho se torna cheio de aventuras, desafios e coragem!
Para finalizar essa resenha, deixo contigo as palavra de Tamara:
“É preciso ir longe, pelo menos uma vez na vida, para descobrir o prazer de estar de volta. Para separar o supérfluo do essencial, saber quem são as pessoas que nos fazem falta. É preciso completar a travessia para descobrir que o sentido de toda viagem está no ponto de partida.”