“Dizem que algumas pessoas escrevem para não morrer, outras pintam, algumas representam, e há também as que cantam, as que tocam instrumentos, as que bordam… Eu danço.” (Conceição Evaristo)
Olá lindeza climática <3
Semanas atrás eu terminei de ler a obra “Insubmissas Lágrimas de Mulheres”, da rainha da literatura brasileira Conceição Evaristo. Cheguei neste livro na ânsia de conseguir processar todos os sentimentos que estavam vivos em mim, que foram despertados por conta da minha viagem para o Fórum de Pessoas Afrodescendentes da ONU, em Genebra (Suíça).
Foram tantos sentimentos que brotaram dessa viagem!
Força, alegria, resgate ancestral… Mas também revive sentimentos que me acompanham há um tempinho, relacionados à luta de mulheres negras que constantemente enfrentam um cenário de injustiça, desigualdades e subjugamento.
Resultado? Percebi a necessidade de ampliar meu conhecimento sobre raça, classe e gênero e devorei 3 livros em menos de uma semana!
- Tornar-se negro, da dr. Neusa Santos Souza
- Famílias Inter Raciais, da Lia Vainer
- Insubmissas Lágrimas de Mulheres, da Conceição Evaristo
Cada autora me encantou com seu jeitinho de escrever, seja pelos dados apresentados, as análises feitas ou a graciosidade da contação de uma boa história, daquelas que só quem traz amor pela escrita e consegue fazer as palavras nos encantarem com a sua dança.
Agora neste artigo, quero contar um pouquinho da minha última leitura. Bora? 🙂

Conceição Evaristo tem o dom da palavra. Nesta obra, ela escuta diversas mulheres e retrata suas histórias, que trazem um recheio de realidade com cobertura de imaginação. Histórias que revelam a dor que muitas mulheres carregam, relacionados a estupro, abandono e julgamentos, mas também, mostra a beleza da nossa capacidade de resiliência, o nosso amor profundo pela família e a escolha de continuar caminhando, mesmo em meio a muitas dores e lágrimas.
Me reconheci num dos trechos, o qual diz:
“Digo mesmo que o tempo é curto, por isso, desde menina, sempre corri.” – Conceição Evaristo
Eu, desde menininha, corri minha cara leitora. Corri para ser uma boa aluna, pois estudei numa escola privada na periferia de São Paulo e precisava me destacar de alguma forma. Na época das provas, escutava minhas professoras dizerem que as minhas colegas brancas eram inteligentes, mas eu era esforçada. Então, de alguma forma, precisava mostrar que através do esforço, eu também poderia chegar lá.
Já na minha adolescência, fui capturada pelos esportes. Vôlei, futsal e futebol se tornaram as minhas paixões diárias. Joguei vôlei pelo Colégio Adventista de Vila Nova Cachoeirinha e o futebol pelo time oficial da Portuguesa, o Tiger Luso-Portuguesa Tietê. Nestes tempos, vivia uma correria que só! Ia para a escola de manhã, estudava no trem indo para a Portuguesa (trajeto de quase 2 horas!) e as minhas tardes/noites ficava imersa no centro de treinamento do clube.

Depois da correria dos esportes, entrei na correria dos estudos. Fiz cursinho pré-vestibular, passei no curso de Relações Internacionais da PUC mas desisti logo antes de começar, pois surgiu uma oportunidade de ir para os Estados Unidos e trabalhar como monitora de acampamento na Califórnia. Uma aventura maravilhosa, com aprendizados, novas amizades e muitas sementinhas de sonhos insubmissos que foram plantados no meu coração.
Voltei para o Brasil e entrei na correria da faculdade, estágio, movimentos sociais…
Fui me descobrindo enquanto ativista climática e mulher negra, fatos que marcam a minha história até hoje. Decidi fundar uma ONG para unir essas duas lutas e junto com Mahryan e Gabriela demos vida ao Instituto Perifa Sustentável. Aí foi uma correria danada, muito gostosa, mas também muito desafiadora: captar recursos, desenvolver projetos e mostrar para o mundo que apesar da nossa pouca idade, sabíamos bem o que estávamos fazendo e onde queríamos chegar.

Agora, posso dizer que estou mudando a frequência e parando de correr. Estou estudando em Londres, fazendo mestrado na London School of Economics and Political Science e finalmente posso experimentar as delícias de manhãs tranquilas, estudos na calmaria do meu quarto e tempo de respiro, pausas e até meditação.
Eu me sinto muito grata por poder viver esta experiência e sempre lembro das diversas mulheres que precisaram aguentar muita coisa para que hoje eu pudesse estar aqui. Foram as lágrimas de insubmissas mulheres que me permitiram ter força para lutar pelos meus sonhos, encontrar espaços para chorar minhas dores e ainda assim, continuar trilhando a minha jornada.
E hoje, minha cara leitora, eu escolhi escrever.
Escrevo para dizer que nenhuma história é individual, que só estou aqui porque tem muitas mulheres me apoiando e que escolhi como missão abrir caminhos para outras mulheres insubmissas.
Escrevo porque entendi que nossas lágrimas também são linguagem. Que elas contam histórias, denunciam violências, mas também anunciam futuros. Desse modo, Insubmissas Lágrimas de Mulheres não é apenas um livro, é um convite, um chamado para escutar com mais atenção as histórias das mulheres ao nosso redor e, principalmente, a nossa própria história.
Se por muito tempo nos ensinaram a correr, a silenciar, a suportar… talvez agora seja o momento de pausar, sentir e contar nossas próprias histórias.
Qual é a história que você deseja contar? 💚✨