Opinião: Sobre o direito de existir

Um texto de questionamentos sobre a existência

Por Mariana Gomes

Recentemente, tomando uns drinks com uma amiga, conversávamos sobre as injustiças, privilégios, angústias e quereres da vida. Eu, no auge da indignação — inflamada pelo álcool, diga-se de passagem —, mencionei me sentir cansada de ter todos os meu relacionamentos, sentimentos e produções pautados, de um jeito ou de outro, em questões raciais. Tudo o que eu digo, escrevo, crio e produzo. Nunca é arte pela arte, escrita pela escrita, existir por existir ou viver por viver. Ela, uma mulher branca — com uma intenção muito boa, reconheço —, me respondeu que assim como aconteceu com outras questões da minha vida, eventualmente eu pararia de transpirar racialidade nas minhas produções. Naquele momento, tudo o que consegui fazer foi sorrir e acenar em concordância. Sem muita confiança, porém, de que isso seja, de fato, possível.

Alguns dias depois, pensando naquela tarde e refletindo sobre algumas questões,  percebi que, na verdade, discordo. Afinal, como conseguiria me desligar de algo que, apesar de não definir quem eu sou, é completamente indissociável de mim? 

Muitas vezes, experienciei um sentimento de algo como traição em que eu sou a traidora, e a minha negritude a parte traída, pois, como uma mulher negra, numa posição que permite que fale para outras mulheres negras se recusa a se posicionar, considerando a vivência num país estruturalmente racista? 

Não acredito existir a possibilidade de ser uma mulher negra e não falar, direta ou indiretamente, com palavras ou atitudes, sobre ser uma mulher negra, no entanto, ao mesmo tempo, me pergunto – e aqui parafraseio bell hooks – e eu não sou também uma mulher? 

Além de negra, sou também, filha, amiga, namorada, profissional e mulher. Não tenho, porém, o direito de apenas existir, enquanto todas essas coisas sem que a minha vida seja cercada pela sombra do racismo? 

Gostaria de poder dizer que sim, mas arrisco dizer que não estarei viva para ver o dia em que uma mulher negra possa ser apenas mulher ou existir por existir.

Este é, no fim das contas — e acho que você já percebeu —, fazendo os devidos recortes, um texto de questionamentos.

E, mais que isso, de auto questionamentos que não faço a menor ideia de para onde me levarão – mas que tenho ciência de terem me trazido até onde estou – ainda que não muito longe, para algum lugar.

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