09.10.2022 – LULA EM BH – Lula e Alckmin participam de caminhada em Belo Horizonte (MG), saindo da Praça da Liberdade e seguindo até a Praça Tiradentes. Foto: Ricardo Stuckert

#Opinião: Por que vou votar no Lula?

Por Daniele Savietto

Pesquisas indicam que as pessoas estão vivendo em bolhas, principalmente nas mídias sociais, entretanto, tenho transitado entre espaços e, contrariando as estatísticas, tenho muitos amigos que votarão diferente de mim.

O que não seria um problema, afinal viver em democracia é a liberdade para que pensamentos opostos e divergentes coexistam. Mas, o que vejo e sinto, é que nesta guerra de informação, títulos caça-cliques, pós-verdade e campanhas cada vez mais massivas e agressivas de desinformação, muitas pessoas acabam votando pelos motivos errados, ou pior, pautados em mentiras plantadas por estas campanhas inteligentemente elaboradas.

E isso não é uma questão de classe social ou formação acadêmica. Talvez por sermos todos vítimas de uma educação utilitária, sofremos para desenvolver o senso crítico. Inclusive, essa inabilidade de lidar com a informação onipresente está presente em todas as gerações. A solução passa por um complexo sistema de formação contínua que ainda está em discussão e provavelmente seja pauta para outro artigo.
Mas o fato é que, vou votar no Lula, e por acreditar que muitos não irão votar pelos motivos errados me senti motivada a escrever este artigo.

Não tenho ilusões de que podemos mudar votos de pessoas convictas, mas acredito que, quem ainda não se decidiu, pode ponderar questões que me parecem relevantes.

E aqui foco no me parecem, porque este é um artigo de opinião. É importante saber distinguir fatos de opiniões. Não significa que não apresentarei fatos ao longo desta argumentação, faço questão de listar dados que subsidiem meu pensamento, mas já deixo claro que, no fim das contas, todo texto é uma janela para um mundo, e esta janela está voltada para o horizonte que eu, como escritora, decidi abrir.
Se tem uma coisa que insisti com meus alunos de jornalismo é a inexistência de neutralidade. Mas, a não neutralidade não é sinônimo de inverdades.

Escrevo porque acredito que as pessoas que pretendem votar no Bolsonaro não são fascistas e não querem acabar com os pobres. Escrevo porque acredito que as pessoas que vão votar no Lula não são comunistas, (aliás conceito que precisa ser urgentemente esclarecido em outro momento) e não querem que o Brasil vire uma Venezuela. No fim, acredito que ambos os lados querem a mesma coisa, uma país mais justo, seguro e com oportunidades.

É passada a hora de romper a dicotomia.

Se, no primeiro turno, tínhamos opções para uma terceira via, a população escolheu levar ao segundo Lula e Bolsonaro. Por isso, é nosso dever escolher entre um dos dois. Tudo bem, existe a opção de votar nulo ou cancelar seu voto, mas isso não exime ninguém de sua responsabilidade democrática, lavar as mãos também não te isenta das consequências.

Sendo assim, precisamos de um voto crítico, vigiar e cobrar. Alias, o papel da impressa, que hoje é tão atacada, sempre foi o de vigiar, por isso ela é conhecida como o quarto poder. A imprensa vigia e o povo cobra. Este é um ciclo que não pode ser quebrado. O povo cobra porque a imprensa vigia e a imprensa vigia para que o povo cobre. Este casamento precisa fazer as pazes.

Levantei alguns pontos que tenho ouvido das pessoas que querem o bem do país e que também permeiam minha preocupação.

Como um artigo que esmiuçasse estas questões tornar-se-ia uma tese, resolvi aproveitar a leitura não linear que o digital nos oferece e reuni para vocês os links com os dados que atestam meu pensamento. Assim, cada leitora e leitor pode percorrer este texto focando em seu principal interesse.

A maior arma contra a reeleição petista é sem dúvidas os escândalos de corrupção que foram delatados pela mídia. Não sou a favor da corrupção, e para mim os fins não justificam os meios. A corrupção precisa ser investigada e punida.

Entretanto, é fácil esconder a corrupção na impossibilidade da investigação, como por exemplo, quando se impõe sigilo de 100 anos. Ou pior, quando cria mecanismos para justificar e liberar atos de corrupção.
Houve sim corrupção no governo petista. Um absurdo que não podemos normalizar e nem fechar os olhos. Mas, os indícios apontam que o governo Bolsonaro conseguiu agravar e institucionalizar ainda mais a corrupção sistêmica de nosso país.

O fato é que o orçamento secreto instituído pelo governo Bolsonaro em 2020 indica ser o maior esquema de corrupção da história do Brasil, e para pessoas como Simone Tebet, provavelmente do mundo. A falta de transparência e todas as investigações que conseguem avançar neste sentido atestam essa suspeita. Para saber mais confira AQUI e AQUI . Para entender melhor sobre a importância do combate a corrupção indico este site AQUI.

Para aqueles que não conseguem explicar o desenvolvimento econômico da gestão Petista, justificam dizendo que foi tudo graças ao endividamento do país. Entretanto, ao consultar os dados do IPEA, o governo que mais contribuiu para a dívida líquida do Brasil foi o FHC, seguido pelo governo Temer, em terceiro Bolsonaro, quarto governo Dilma, e pasmem, governo Lula aparece apenas em quinto lugar.

Confiram os dados AQUI e refaçam as contas por vocês. Lembrando que o Ipea é do governo, sob atual administração e por isso não há como ter seus dados adulterados.

Pautar o meio ambiente com um ministro que literalmente afirmou ser hora de “passar a boiada”, parece demagogia. Mas acho importante porque todas e todos afirmam amar a natureza, se preocupar com o meio ambiente e prezar por levar seus filhos a experiências naturais. Assim sendo, acredito que esta seja uma preocupação comum.

O governo Bolsonaro é responsável pela maior devastação da floresta Amazônica. De acordo com dados apresentados pela Imazon Nos últimos 12 meses, de agosto de 2021 a julho de 2022, foram derrubados 10.781 km² de floresta, o que equivale a sete vezes a cidade de São Paulo. Essa foi a maior área devastada dos últimos 15 anos para o período”.

Se você possui alguma preocupação ambiental considere as informações presentes AQUI ou AQUI.

Para quem questiona a comparação entre os governos, a verdade, segundo dados expostos o governo petista herdou um numero alto de desmatamento e realizou um trabalho para diminuir esta destruição, que passa a ser retomada com o governo Bolsonaro, tire suas dúvidas direto no Inpe AQUI.

Acho que a pandemia foi a maior fatalidade não esperada pelo governo Bolsonaro, e desastrosamente administrada. Em números, o Brasil possui aproximadamente 3% da população mundial, mas contamos com tristes 12% das mortes por covid no mundo, o que significa 4 vezes mais que a média mundial. Confira os dados AQUI.

Se tivéssemos tido um governante mais humanizado estas estatísticas poderiam ser diferentes.

Educação é meu ponto nefrálgico, professora desde 2007, filha de professora, que sonhava ser professora, e, assim como muita gente, acredito ser esse o caminho. Talvez, por ser uma Freiriana de coração, acredito que “Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda.”

Por isso, empresto os dados conjugados pelo Instituto Apub para vocês:

Na educação básica, a redução de investimentos é da ordem de 13%. Os recursos destinados a investimento na educação básica (ensino fundamental e médio) caíram de R$ 6,9 bilhões em 2020 para R$ 6 bilhões em 2021. Em 2018, antes da gestão de Jair Bolsonaro, foram 7,5 bilhões (sim, Bolsonaro perde até para Temer).
Já na educação infantil, o corte foi pela metade: de R$ 207 milhões, em 2018, para R$ 96 milhões no ano passado. Em 2019, foram investidos R$ 128 milhões e, em 2020, R$ 111 milhões.
Já no Ensino Superior, segundo a pesquisa, há uma redução de empenho do orçamento discricionário, ou seja, aquele que o governo tem o poder de cortar. A redução do empenho foi de R$ 13 bilhões, em 2018, para R$ 8,2 bilhões em 2021. No que se refere a recursos obrigatórios para a rede federal de universidades e institutos federais, o recuo foi de 71%, com perda de 1,3 bilhão.

Mas, insisto, faça as contas através dos dados que estão AQUI.

Em uma conversa amistosa com um conhecido, ele concluiu me dizendo que, apesar de não ser Bolsonarista, votaria no Bolsonaro porque o Lula não terá governabilidade e a oposição não o deixará governar. Como empresário, ele precisa pensar na economia e um país travado só prejudica os números.
Existe muita verdade nesta afirmação. Mas aqui, ideologicamente, eu mantenho minha posição.

Porque no fim, o Bolsonaro representa tudo o que sou contra, e, ainda que existisse uma garantia econômica de crescimento, eu não poderia votar nele.

Não se conta uma história só com números.

Quando Catalani faz a apresentação brasileira do livro do Adorno “Aspectos do novo radicalismo de direita”, ele afirma que “a relativização do passado nazista consiste na separação do lado bom da prosperidade econômica”, que no início do regime trouxe bons resultados.

Não nos enganemos ao acreditar que o fascismo foi um “mero desastre histórico”, mas nas palavras de Horkheimer, está mais para a “verdade da sociedade moderna”. E, ainda emprestando as palavras de Catalani, “embora o fascismo tenha sido derrotado militarmente, aquilo que o causou permaneceu intacto”.

Adorno afirma que “poderíamos caracterizar os movimentos fascistas como as feridas, as cicatrizes de uma democracia que até hoje ainda não faz justiça a seu próprio conceito”. E não faz, nossa jovem democracia ainda precisa caminhar.

E por isso, não é exagero acreditar que o atual governo, que pretende continuar no poder, ainda que representasse uma possível ascensão econômica, (o que particularmente também não acredito), representa um perigo muito maior para aqueles que, sonhadores, esperam por um futuro melhor em uma sociedade democrática. Acredito sim que o governo Bolsonaro reúne características de governos fascistas e representa ideais de retrocesso.

Por isso, escolho o Lula. Não me isento, não me escondo, e se eu puder deixar algo para minhas filhas, espero ensina-las a lutar pelo que acreditam. A combater o poder que oprime ao invés de ambicioná-lo. A não ter vergonha de mudar de opinião quando encontrarem novas informações e para não terem preguiça de pensar.

Voto no Lula confiante de que hoje, com as informações que tenho a disposição, esta é a melhor opção para o país.

Como falei no começo deste artigo, não considero todas as pessoas que votam no Bolsonaro, ainda que conscientes, fascistas.

Não nos enganemos, em suma, tudo é político, e por isso, espero ter uma ínfima contribuição com um debate que desejo que permaneça aberto.

09.10.2022 – LULA EM BH – Lula e Alckmin participam de caminhada em Belo Horizonte (MG), saindo da Praça da Liberdade e seguindo até a Praça Tiradentes. Foto: Ricardo Stuckert

Daniele Savietto é Mestra em jornalismo pela Universidade de Coimbra e Doutoranda em Educação pela Ufscar.

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