Man opens empty wallet. No money concept.

Opinião: Por que a Educação Financeira ainda é um desafio em pleno Século XXI?

Em pleno século XXI, a educação financeira ainda é tema que carece de diálogo. Na minha coluna deste mês, trago um ponto de vista sobre os desafios e possíveis razões para essa ausência.

Por Marcela Rabelo

Foto: Reprodução do Facebook

Quando o assunto é finanças, qual é a primeira coisa que lhe vem à mente:

Pode afirmar que tem controle de todos os seus gastos?
Possui a maturidade certa para ter um cartão de crédito?
Tem aquela reserva financeira de emergência para os meses de apuros?

De acordo com o Relatório da Anbima, o Raio X do Investidor Brasileiro, 3ª edição, “em 2019, 62% da população brasileira não economizou um centavo, uma situação que deixa essas pessoas especialmente vulneráveis em tempos de crise”.

Saiba que o que existe por trás desta pesquisa vai além da hipótese de que menos de 40% dos brasileiros entrevistados poupa ou investe dinheiro, mas valida também as crenças e premissas relacionadas ao dinheiro disseminadas na cultura do nosso país por gerações.

Essa ausência da educação financeira na grade curricular da escola, desde o primário, torna difícil desenraizar conceitos como “é preciso ser rico para investir” ou mesmo padrões de comportamento tais como “a vida é muito curta e o dinheiro foi feito para gastar”.

Não obstante, conceitos como esses são alimentados todos os dias de maneira sutil: pela convivência, seja no núcleo familiar, seja na roda de amizades, visto que as pessoas tendem a adquirir comportamentos e expectativas de seu próprio grupo, como foi demonstrado no experimento de Conformidade social produzido pelo National Geographic; o que, por este motivo, de proximidade e influência em ações e decisões, dificulta até mesmo uma mudança da forma de pensar a respeito do assunto de finanças.

Mas então, seria isso só fruto de falta de educação financeira? Da não abordagem do tema nas escolas?

Pode-se inferir que são fatores que contribuem, mas não são os que prevalecem. Isto porque um dos desafios da educação financeira é justamente ser um processo de aprendizagem, que assim como qualquer outro, demanda tempo e conhecimento. E pode ser complicado compreender conceitos que muitas vezes são novos para o público em geral (o mercado financeiro); esse aprendizado também requer outras duas coisas importantes: interesse e orientação.

Nos dias atuais é muito fácil ser persuadido a comprar, porém é muito difícil ser encorajado a investir. Quando olhamos para o consumismo do mundo, percebemos o quanto estamos todos expostos ao estímulo de compras geralmente supérfluas – que chegam em verdadeiros bombardeios pelas mídias. Fato que, somado às crenças e premissas negativas relacionadas ao dinheiro, juntamente com fatores individuais ligados aos círculos sociais a qual o indivíduo pertence, só contribuem para que quando você veja aquela bolsa na vitrine, o lançamento daquele celular com novas funcionalidades ou, o esperado carro do ano, nem pense duas vezes antes de comprá-los.

E eis que surge o adverso do investimento: o endividamento.

Foto: Banco de imagens Pixabay

Não há nada de errado em desejar qualquer que seja o item, afinal todos nós, seres humanos, temos sonhos, desejos e, o prezado livre-arbítrio. Porém, em muitas vezes, fazer dívidas para ter bens não é uma boa escolha. Isso porque a maioria dos bens não são bens duráveis, o que só faz com que entremos no ciclo vicioso do consumismo. E, o mais curioso é que a maioria dos bens perdem o valor a longo prazo, assim, quando se contrai uma dívida, principalmente de longo prazo e com juros altos, o que se paga não é o valor real daquele produto; quando terminamos de pagar as parcelas, o que compramos já não vale a mesma quantia de antes.

O interessante é este comportamento ser frequente em qualquer faixa etária, o que reforça a ideia das premissas repassadas na cultura brasileira, pois, visualizando as desigualdades sociais e econômicas no país, fica evidente que a educação financeira deveria ser prioridade na formação de todos os cidadãos. Ao perceber a distância existente entre o que a maioria da população, em sua individualidade, deseja ter e, o que realmente tem, nota-se que ainda existem muitos desafios a serem concluídos.

Traçar metas é o passo mais importante para uma mudança de pensamento e adentrar no mundo dos investimentos; e se, ao invés de contrair uma dívida com juros altíssimos ao seu desfavor, usar o dinheiro para investir em um ativo conservador, como o Tesouro Selic, por exemplo? Neste caso específico, os juros trabalham ao seu favor e, traçando uma meta apropriada, os mesmos sonhos e desejos serão realizados, mas com duas únicas diferenças: com planejamento e rentabilidade.

Existem iniciativas de vários órgãos e instituições públicas em promover a educação financeira, bem como a mesma mídia que estimula as compras também exibe pessoas e conteúdos relacionados a esta educação.

Qualquer pessoa pode aprender como funciona a economia do país e administrar bem os seus recursos, mas vale lembrar que isso é mais do que um processo de aprendizagem, é também uma mudança na forma de pensar e entender a economia. Isto é algo que, para surtir um efeito significativo na população brasileira, precisa ocorrer na mesma proporção com que as falsas premissas sobre o dinheiro atravessam gerações, ou seja, é algo que necessita ser cultivado.

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