Onde está o sucesso da COP28?

Por Daniele Savietto

Eu poderia começar este texto com um briefing bem escrito sobre as resoluções da Conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas (COP28) de Dubai. Mas a verdade é que tem muita gente muito melhor do que eu fazendo isso. Inclusive indico que vocês leiam as matérias Climate Action Network (CAN), ou do pessoal da WWF, vejam os resumos nas redes do pessoal do La Clima, ou do Clima Info, além de entrarem no site da UNFCCC e lerem os próprios documentos, afinal, nada melhor do que ir à fonte da informação. 

Então compartilho com vocês a minha experiência e começo citando Adorno: “O amor é a capacidade de perceber o semelhante no dessemelhante”. Porque falo da COP28 de maneira que faça sentido para mim e que possa, de alguma forma, acrescentar qualquer mais valia a este discurso, que hoje ficou super midiático, é falar sobre amor. 

Sim, procuro aqui construir um paralelo entre a verdade dos fatos científicos sobre o aquecimento global, as resoluções de uma negociação toda dialética e a oportunidade de amar nosso dessemelhante. Parece coisa de maluca, e talvez seja mesmo.

Minha primeira COP foi em 2013 e eu voltei pra casa deslumbrada. 

Nem o frio da Polônia era capaz de esfriar o tanto de emoção que era estar ali, ver de perto um processo que eu só lia sobre (até porque naquele tempo a conferência não era tão mainstream). 

Tudo era incrível e eu acreditava e confiava nos detalhes. Como a Conferência era bem menor do que hoje (comparando com esta de Dubai, 4 vezes menor), nosso acesso aos negociadores e as plenárias era facilitado, e o governo do Brasil nos garantia uma credencial como parte, o que facilitava ainda mais a movimentação naquelas salas.

Aquela COP não chegava nem aos pés do luxo que vimos nesta. Era em um estádio, os side events eram menores e os pavilhões dos países mais simples. Mas, ainda assim, a impressão que tive foi incomparável. Voltei pra casa achando a UNFCCC o máximo. 

Eu amei fazer parte da pressão nos protestos, (ok, ainda hoje é minha parte preferida), eu não perdi nenhum Fóssil do Dia e cheguei a entregar o anti-prêmio com o pessoal da CAN

Claro que eu entendia como o processo era falho, e adorava ver as pessoas confrontando a Isabela Teixeira, então secretária do meio ambiente do Brasil, sobre um posicionamento mais forte e ambicioso. A Marcha Pelo Clima foi o ápice, e andar pelas ruas congeladas gritando era quase uma experiência catártica. 

Em 2014 a COP foi em Lima, e ali me apaixonei mais do que nunca pelas pessoas. Eu amava ir no fim do dia à Cúpula dos povos e tive o privilégio de visitar uma comunidade indígena na floresta amazônica peruana. 

Foi naquela COP também que comecei a me irritar mais com a maneira como os processos aconteciam, e se tivesse um poder mágico eu teria virado uma ditadora só para acabar com a espera do consenso.

Agora, 10 anos passaram e os processos burocráticos ficaram-me insuportáveis frente ao crescimento dos problemas. E ainda que o início da COP28 tenha aprovado um texto importante sobre o fundo de Perdas e Danos, eu cheguei desacreditada e pensei: o que estou fazendo aqui? 

Sou adorniana demais, olhando para aqueles no poder só conseguia lembrar da frase do Adorno: “O preço que os homens pagam pelo aumento de seu poder é a alienação daquilo sobre o que exercem poder”. E aqui na COP, estamos falando de governos com todo poder. 

Existe solução, existe tecnologia e existe dinheiro. Aí, automaticamente me vem à cabeça as palavras do Almada Negreiros: “Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa – salvar a humanidade”. E peço uma licença poética para parafrasear dizendo que hoje, as soluções que hão-de salvar a humanidade já estavam escritas, só faltava uma coisa – salvar a humanidade.

Por que vou gastar meu tempo escutando pessoas que sabem como resolver mas se recusam? Por que vou usar minhas férias para ouvir sobre uma transformação lenta que não tem coragem de atacar o problema? Por que andar no meio de tantos lobistas da indústria do petróleo e empresas que só querem ano a ano aumentar seus lucros como se vivêssemos num planeta infinito? No meio de tanta gente estudada para escrever tratados, lembro Adorno mais uma vez e penso “como é estúpido ser inteligente”. 

Talvez fosse melhor voltar para casa, pegar minhas filhas, mudar para um sítio enquanto ainda temos natureza. No final do primeiro dia, irritada com tudo aquilo, olhei para Paulo Lima, que, para quem não conhece, é o nosso sonhalista, e perguntei se ele achava que ainda valia a pena. Claro que eu ganhei uma lição sobre a força da participação. Ainda bem que o Paulo ensina com gentileza.

Aí vieram as pessoas. Pessoas que chegaram ali sem nem saber como, para unir suas vozes e pressionar por um acordo minimamente efetivo. 

Fui cobrir os protestos dos jovens. Fui conversar com agricultores orgânicos e me encantar com a simplicidade de Kboing Widyarti. Fui abraçar ativistas. Fui ver o brilho nos olhos de uma Maria Gabriella do Tocantins, que com apenas 21 anos, me ensinava sobre as problemáticas na agenda de transição. Fui chorar litros na “COP28 Peoples Plenary Programan”, onde os representantes das constituintes discursaram.  Fui ouvir atenta Joseph Sikulu chorar pelas pessoas que correm sérios riscos de não terem mais território no pacífico.

Se você me perguntar o que acho da COP, a resposta é complexa e ambígua, acho que um pouco como a vida. Ainda me irrito com os processos e acho o texto final fraco. Concordo que, pela primeira vez, em 30 anos, incluir os combustíveis fósseis foi uma vitória, principalmente no cenário que estávamos e com a presidência que tínhamos. 

Os principais pontos do texto destacam a operacionalização do fundo de perdas e danos, o que representa um passo significativo na assistência às nações mais vulneráveis aos impactos climáticos. Inclui os combustíveis fósseis como problema, pela primeira vez, e a necessidade de sua transição “gradual”. O compromisso de manter os objetivos do Acordo de Paris e limitar o aumento da temperatura global a 1,5°C também estão presentes. Desenvolver planos nacionais de adaptação até 2030. São resoluções que poderiam ser melhores, e escritas de maneira mais incisiva, mas que ainda representam um compromisso global. 

Mas não é por ele que vou mensurar o sucesso ou o fracasso desta Conferência.

É pelo que me motiva e alimenta minha alma, é pelas pessoas.

No final da COP28 e após o último protesto que eu desisti de cobrir e quis só participar, não era mais preciso me convencer de que sim, a Conferência valia a pena e confirmar que queria estar em Baku no próximo ano. Porque poder me emocionar com os emocionados me alimenta. Porque ver as pessoas pegarem o microfone e chorarem enquanto apresentam estatísticas e falam sobre as suas realidades me alimenta. Porque as pessoas são mesmo incríveis 

Existe uma magia na individualidade, no olhar nos olhos, uma magia que de alguma forma a gente não vê quando olha para a massa. 

Este processo é ideal?
Óbvio que não. Muito longe disso. Pode melhorar? Com certeza.

Mas é o processo que temos hoje, que longe de caminhar nos passos gigantes que eu idealizaria, é sim afetado pela dinâmica das pessoas que deixaram suas casas e gastaram uma fortuna para estarem ali, falando pelos seus. Estas pessoas são apaixonantes e eu me apaixono. 

Porque estar perto delas faz eu gostar mais de quem eu sou e querer trabalhar em quem eu posso ser. Porque acredito que posso parecer um pouco mais com cada uma delas. 

Dependendo de como for a pergunta, posso dizer que a COP foi um fracasso, que não ouvi menção em mudar este sistema capitalista que não é só ridículo, mas incompatível com a vida na Terra. 

Mas, se a pergunta for construída diferente, aí direi que a COP foi um sucesso. 

Se por uma mágica do universo eu pudesse escolher pessoas para sentarem à mesa de negociação e desenharem o acordo, eu colocaria Gariellas, Josephs, Paulos e Kboings, colocaria crianças, colocaria pessoas de verdade para chorarem enquanto escrevem os acordos que precisamos. 

Porque, como já disse em outro artigo publicado na Agência Jovem de Notícias, as emoções são força. Afinal, como você pode olhar para comunidades inteiras que sofrem e sofrerão mudanças migratórias, crises alimentares, e muitos outros problemas, e não chorar enquanto planeja a ação menos traumática para elas. E reforço o menos aqui, porque a tragédia já está dada.  

No entanto, mesmo sabendo que estas pessoas não estão nas mesas e salas de negociação, as vozes delas ecoam de várias maneiras.

É graças a elas que o documento final que temos hoje é minimamente aceitável e por isso sempre serei grata. É para elas e sobre elas que quero escrever e agradecer.

O sucesso desta COP é definitivamente o sucesso da luta da sociedade civil. 

E se estarei na próxima? Não quero trair a esperança daquela Dani de 10 anos atrás, e muito menos me ajustar ao mundo. Por isso, enquanto puder seguir pelos corredores todo mundo que tenha cara de gente de verdade, quero estar em uma COP.  Afinal, ali é um canal de mudança e, como diria meu amado Belchior: “Amar e mudar as coisas me interessa mais”.

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