O último gentil

Gentileza gera gentileza. Mas se a gentileza não vem de lugar nenhum, como ela vai ser uma resposta para algo? Você pode acordar feliz, querendo cumprir suas obrigações sem problemas e desejando o mesmo para as outras pessoas. Não estava nos planos ser grosseiro ou desagradável. O problema é quando você sai de casa e tudo que encontra é o contrário do que queria para o seu dia. A gentileza não vai ser sua resposta, e isso é completamente compreensível. Mas ainda há quem consiga colocar em prática esse comportamento quase impensável.

Por Sofia Leite

Como seria o mundo se gentilezas fossem comuns? Foto: Ron Lach/Pexels

Às terças, saio do trabalho mais cedo. Minha estratégia é não tirar o horário de almoço e, então, voltar para casa antes das cinco horas da tarde. Na última semana, segui essa rotina. Saí às três, peguei o ônibus, que estava quase vazio, e parti rumo ao meu descanso. Gosto de deixar o celular na bolsa quando estou fazendo esse trajeto. Para ter um momento de liberdade criativa, e por medo de ser assaltada também, não entro nas redes sociais. Consigo, por conta disso, prestar atenção em tudo ao meu redor.

Depois de pouco tempo de viagem, um senhor entrou no ônibus. Cabelos brancos, camiseta polo por dentro da bermuda, meias altas, sapatênis marrom e sacola com livros na mão. Nada demais. Voltei a focar nos prédios que passavam pela janela. Chegamos ao viaduto que separa a Avenida 13 de Maio da Avenida Pontes Vieira. Esse é sempre um dos pontos mais legais do meu dia. Adoro ver a cidade pequenininha lá embaixo. Criei uma superstição: preciso olhar para o símbolo da Mercedes-Benz toda vez que que passo ali. Caso não cumpra essa missão, algo de ruim pode acontecer. Nunca reparei se isso funciona ou não, mas, na minha cabeça, faz sentido. Olhei. Não posso arriscar.

Precisei voltar minha atenção para dentro do ônibus novamente. Um rapaz jovem estava pedindo para que alguém pagasse uma passagem para ele. Algo comum, infelizmente. Mas, dessa vez, era diferente. Ele tinha uma nota de dois reais na mão e dizia que podia entregar aquele dinheiro para quem pagasse os quatro e cinquenta da sua passagem. Era tudo que ele possuía. O senhor de camiseta polo se levantou, foi até a catraca, onde o rapaz esperava, fez o que estava sendo pedido e disse que não precisava de nada em troca. Voltou e se sentou na cadeira bem na minha frente. 

Nesse momento, eu pude ouvir a voz daquele senhor. “Pode ficar com o dinheiro”. Não teria como a voz combinar mais com a figura. Parecia que estava escutando um daqueles avós fofos de filmes, que fazem tudo pelos seus netos, falando. Ele foi muito gentil. É tão difícil encontrarmos pessoas gentis. Todos estão extremamente preocupados com o próprio umbigo, e a gentileza acaba não sendo uma prioridade. Mas aquele senhor foi gentil. O mundo precisa de mais gente assim.

Pensei nisso por alguns instantes, admirada, mas logo voltei a observar as ruas. Dobramos na Avenida Barão de Studart e vi que estávamos quase chegando ao finado supermercado Carrefour, que hoje é só um prédio pintado de azul, branco e vermelho que parece estar abandonado tal qual o Titanic. O senhor, com sua sacola cheia de livros na mão, levantou-se rapidamente e puxou a cordinha do ônibus, dando sinal ao motorista de que desceria na próxima parada. Ao nos aproximarmos do ponto onde ele se despediria, escutei a voz fofa dizer: “É na próxima!”. O motorista não escutou, ou pelo menos fingiu que não. Paramos. A porta do ônibus abriu. E mais uma vez: “É na outra!”.

A cena era essa: senhor muito gentil de cabelos brancos, camiseta polo por dentro da bermuda, meias altas, sapatênis marrom e sacola com livros na mão em pé perto da saída do ônibus. Motorista extremamente insatisfeito com o fato de alguém ter se confundido em relação ao local onde desceria. O senhor gentil, que há pouco havia feito o que mais ninguém no ônibus, inclusive eu, teria feito, escuta desaforos vindos de um desconhecido. Os desaforos são retribuídos com silêncio, que só é quebrado para pedir desculpas àquele que estava totalmente fora de si xingando uma das únicas almas gentis que parecem ter restado no nosso planeta.

“Desculpa”. Foi o que aquele senhor disse duas vezes antes de chegarmos à próxima parada. E o que ele falou no destino final não poderia ter sido diferente: “Obrigado”. Ele agradeceu depois de ter sofrido uma breve humilhação na frente de todos os outros passageiros. Agradeceu. Estava onde queria estar. O avô que faz tudo pelos netos havia chegado. 

Esperei ele descer e comecei a chorar. Um sentimento de culpa me invadiu. Culpa por não ter me aproximado do senhor e dito para não se importar com aquilo, já que ele era muito gentil, diferente do motorista. Culpa por não ter feito nada. Culpa por ter chorado. Afinal, ele não precisava das minhas lágrimas, porque devia estar bem e com a consciência tranquila. Provavelmente, caso eu tivesse ido dar apoio àquele homem, ele teria dito que o motorista poderia estar tendo um dia ruim, ou algo do tipo. Gente que tem alma velha, não em relação à idade, mas à sabedoria, age assim. Ele entendeu, com a ajuda do tempo, que aquela situação não merecia outra resposta que não fosse a educação e a gentileza. Isso é a sabedoria. O tempo ensina. Ele não deixaria de ser gentil só por causa de uma grosseria que escutou em uma terça-feira qualquer. Esse seria um motivo muito pequeno para desistir de um propósito que é muito maior.

Fiquei imaginando toda a motivação para o senhor de camiseta polo estar naquele ônibus em uma terça-feira à tarde. O personagem que criei para ele de avô fofo que faz tudo pelos seus netos falou mais alto. Consegui visualizar o vovô pegando o Circular 2 de manhã cedo para ir ao Centro comprar os livros que seus pequenos tanto queriam. Foi em vários sebos diferentes, procurou até encontrar o terceiro volume da saga Harry Potter, a edição de número 50 dos quadrinhos da Turma da Mônica Jovem e a continuação de uma das histórias da Paula Pimenta, desembolsou uma quantia não muito pequena e pegou o Circular 1, que o levaria até sua casa. Com as compras em mãos, o senhor de cabelos brancos, camiseta polo por dentro da bermuda, meias altas e sapatênis marrom partiu ao encontro dos netos. Estava disposto a tornar a vida das pessoas ao seu redor um pouco mais leve. Chorei ainda mais ao imaginar tudo isso.

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