O Quilombismo (Palavras Negras)

Uma reflexão sobre o livro do Abdias Nascimento
Por Amanda Costa

“Quilombo não significa escravo fugido. Quilombo quer dizer reunião fraterna e livre, solidariedade, convivência, comunhão existencial.”

Abdias Nascimento

Antes de falar sobre as minhas percepções sobre o maravilhoso livro do Abdias Nascimento, quero te contar uma história.

Estávamos no ano de 2019, eu cursava o último ano da faculdade e participava de um programa de capacitação para jovens talentos. Tivemos um encontro para treinar comunicação e storytelling e numa das atividades, fomos desafiados a fazer um pitch de 2 minutos.

Na minha vez, lembro de encerrar afirmando a minha negritude. Eu disse:

  • Eu sou uma menina preta da periferia e entendi que o lugar que eu mereço estar é o lugar que eu decidi ocupar.

Eu estava no início do meu processo de descoberta racial (leia os textos: Me descobrimento negra e Afrotransbordamento) e percebi a importância de me afirmar nos espaços, pois isso me trazia uma sensação de força, alegria e empoderamento.

Ao final do meu discurso, a auxiliar do facilitador (uma mulher branca) me chamou de canto e disse que ao final do encontro gostaria de conversar comigo. Eu prontamente aceitei, pois pensei que ela iria me parabenizar pelo pitch e me dar dicas de como melhorar a apresentação. No entanto, eu estava enganada.

Assim que acabou o treinamento, fui ao seu encontro. Ela me disse:

  • Querida, vou te dar um feedback do coração e saiba que só vou falar porque gostei muito de você. Eu prefiro que você evite dizer que é uma mulher “preta da periferia”, pois isso me incomoda. Acredito que da mesma forma que me senti desconfortável, outros também não gostem. Dá para ver que você tem um futuro brilhante pela frente, e pode ser que pessoas importantes se sintam incomodadas com seu discurso. É melhor você não abordar esses pontos, ok?

Na época eu fiquei chocadaaaaaaaa, triste, inconformada. Até escrevi um artigo para desabafar e me liberar de todos aqueles sentimentos. Veja parte do texto: 

[Leia o texto A subalterna rompe o silêncio]

Querida leitora, porque será que ver uma mulher negra com poder de fala desperta tanto incômodo?

De acordo com Abdias Nascimento, a história do Brasil é uma versão concebida pelos brancos e para os brancos, exatamente como toda sua estrutura econômica, sociocultural, política e militar. Se queremos evoluir enquanto sociedade, precisamos questionar essa estrutura racista e incomodar AINDA MAIS. É preciso refletir, criticar, ampliar, renovar e atualizar o nosso conhecimento para construir novos marcadores sociais.

Por muito tempo, a mulher negra foi duplamente rejeitada, vista apenas como a empregada doméstica, lavadeira, cozinheira, aquela que realizava serviços típicos na escravidão. Fomos a ama de leite, a menina de recado, a mulher que o branco da casa-grande usava quando queria, a cozinheira de forno e fogão, e quando ficávamos velhas, caímos no esquecimento e na invisibilidade… No entanto, nunca aceitamos passivamente esta condição! 

A nossa luta pela liberdade ecoa pela história apagada e continua até hoje em nossos atos de reparação, subversão e empoderamento.

Quem foi Abdias do Nascimento (1914 – 2011)

Abdias Nascimento. Ilustração. Nova Escola BOX pensadores negros, 2020.

Ator, poeta, escritor, dramaturgo, artista plástico, político e ativista racial, o professor Abdias foi uma pessoa à frente de seu tempo. Além de enfrentar em sua juventude o racismo brasileiro, Abdias também lutou pelas pautas sobre identidade, multiculturalismo, ação afirmativa, plena participação do negro na sociedade brasileira e muito mais.

A obra Quilombismo (Palavras Negras) de Abdias é uma “escrevivência”, isto é, a “escrita de vivências” de um intelectual, artista e ativista político que investiu toda a sua vida para quebrar paradigmas e lutar pelos direitos do povo negro. O capítulo 7 do livro apresenta uma proposta sócio-política para o Brasil, que foi apresentada no II Congresso de Cultura Negra das Américas, em 1980. Veja um trecho:

“Como maioria da população, cabe democraticamente ao negro assumir a liderança do Brasil, e o quilombismo representa uma tentativa de pensar a nossa forma de abordar os respectivos desafios e responsabilidades, construindo as políticas públicas necessárias a fim de tornar realidade para todos o exercício da cidadania plena num Brasil multirracial, multiétnico e pluricultural.”

Abdias do Nascimento

Alguns princípios do quilombismo são:

1. O quilombismo é um movimento político dos negros brasileiros, objetivando a implantação de um Estado Nacional Quilombista, inspirado no modelo da República dos Palmares, no século XVI, e em outros quilombos que existiram e existem no país. 

2. O Estado Nacional Quilombista tem sua base numa sociedade livre, justa, igualitária e soberana. O igualitarismo democrática quilombista é compreendido no tocante a sexo, sociedade, religião, política, justiça, educação, cultura, condição racial, situação econômica, enfim, todas as expressões da vida em sociedade. O mesmo igualitarismo se aplica a todos os níveis do poder e de instituições públicas e privadas. 

3. A finalidade básica do Estado Nacional Quilombista é a de promover a felicidade do ser humano. Para atingir sua finalidade, o quilombismo acredita numa economia de base comunitário-cooperativista no setor da produção, da distribuição e da divisão dos resultados do trabalho coletivo.

(…)

15. O quilombismo essencialmente é um defensor da existência humana e, como tal, ele se coloca contra a poluição ecológica e favorece todas as formas de melhoramento ambiental que possam assegurar uma vida saudável para as crianças, as mulheres e os homens, os animais, as criaturas do mar, as plantas, as selvas, as pedras e todas as manifestações da natureza.

Que homem! Se Abdias ainda estivesse vivo, tenho certeza que ele seria uma lindeza climática 😁

Agora vamos refletir sobre a história 🙂 

Chimamanda Adichie, uma escritora nigeriana renomada, falou em seu TED sobre o perigo da única história. De acordo com a palestrante, a história do mundo foi contada pela perspectiva dos “vencedores”, ou seja, aqueles que exploraram, subjugaram e colonizaram povos e culturas.

Nós negros, descendentes dos africanos em diaspóra, fomos obrigados a esquecer nossa história durante muito tempo. Mas a verdade precisa ser dita: também passamos por um holocausto! Mais de 300 milhões de homens, mulheres e crianças foram friamente assassinados, torturados, estuprados e raptados por criminosos europeus durante os tempos e escravidão. Não podemos esquecer que enquanto os jesuítas tentavam domesticar os indígenas, os africanos e seus descendentes construíam as fundações socioeconômicas desse país. Enquanto isso, a escória portuguesa tinha apenas um lema: “colonizar, civilizar e cristianizar.”

Está na hora de acabar com a lavagem cerebral que o supremacismo branco fez em muitos de nós. Como, por exemplo, o Brasil não foi descoberto: nosso país foi invadido! A Princesa Isabel não “libertou os negros num ato de extrema benevolência”, mas a abolição formal do dia 13 de maio de 1888 é marcado pela exclusão social do negro na sociedade brasileira. No mesmo instante que o africano escravizado adquiriu a condição legal de “cidadão”, paradoxalmente, ele se tornou o negro indesejável, marginalizado no mercado de trabalho, destituído da própria existência humana! A abolição da escravatura através da Lei Áurea consistiu em um ato de natureza exclusivamente jurídica, sem raízes na verdadeira luta dos escravos contra o regime opressor.

“Muitos africanos “emancipados” e cidadãos foram obrigados pelas circunstâncias a permanecer com seus antigos senhores, trabalhando sob condições idênticas às anteriores, sem nenhuma outra alternativa ou opção. Outros se aventuraram deslocando-se para outras regiões ou cidades, e a única coisa que obtiveram foi desemprego, miséria, fome e destruição. De vítima acorrentada pelo regime racista de trabalho forçado, o escravo passou para o estado de verdadeiro pária social, submetido pelas correntes invisíveis forjadas por aquela mesma sociedade racista e escravocrata (…). E para que assim permanecesse o negro um marginal, o governo e as classes dominantes estimularam e subsidiaram a imigração branco-europeia que, além de preencher as necessidades de mão de obra, atendia ao mesmo tempo à política explícita de embranquecer a população.”

Abdias do Nascimento

Querida leitora, saiba que a “democracia racial” não existe! Nosso país desenvolveu uma cultura baseada em valores racistas, institucionalizando o sistemático genocídio físico, a degradação moral, o desprezo das religiões de matriz africana e folclorizando a cultura, os valores e a moral negra.

“Não importa que transformações possam sofrer a sociedade brasileira: a estrutura racista (psicocultural-econômica-política) permanece.”

Abdias Nascimento

É eita atrás de vixe. Mas eu te pergunto: o que podemos fazer agora?
De acordo com Abdias Nascimento, para acabar com o desprezo racista, supremacismo branco e elitismo oficial, é necessário que os afro-brasileiros se organizem em instituições negras de todos os aspectos: econômicas, educativas, culturais e principalmente, organizações políticas.

Precisamos revisitar nosso passado e ressignificar a nossa história. Como mulher negra, eu sei que isso não é algo fácil. Dói, incomoda, causa raiva. Mas é colocando os sentimentos para fora que vamos ter forças para mudar as estruturas sociais desse país.

“Caso o negro perdesse a memória do tráfico e da escravidão, ele se distanciaria cada vez mais da África e acabaria perdendo a lembrança do seu ponto de partida. E este ponto de partida é o ponto básico: quem não tem passado não tem presente e nem poderá ter futuro.”

Abdias do Nascimento

Afinal de contas, negritude representa muito mais que um movimento literário ou poético: simboliza a posição antirracista, anticolonislista e as ligações entre os africanos em todo o mundo.

Eu sonho com o dia em que vamos ter uma “burguesia negra” nesse país. Enquanto isso não acontece, eu estou disposta a estudar, trabalhar e lutar pelos direitos do meu povo, compartilhando conhecimento para tirá-los da miséria socioeconômica que a herança escravocrata nos deixou.

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