O que está acontecendo no Irã e por quê o ódio contra as Mulheres?

Vimos nas últimas semanas o grande alarde que foi feito no Irã e no mundo a respeito do uso do hijab e da violência do governo para com as mulheres iranianas. Com isso em mente, o artigo tem como dever proporcionar informação e mostrar a você leitor quais são os históricos disso e o que está acontecendo no Irã atualmente.

Por Gabrielly Louise Padilha Silva

Muito se fala sobre a violência do governo iraniano, e em especial nas últimas semanas o caso de Mahsa Amini tomou proporções mundiais pela crueldade do estado. A jovem de 22 anos foi presa e depois morta pelo governo do Irã por estar usando incorretamente o hijab (peça de vestimenta da religião muçulmana para as mulheres) e foi pega pela “polícia da moralidade” iraniana por estar mostrando uma parte de seu cabelo.

Mulher com Hijab, reprodução: Freepik

De acordo com a religião muçulmana, o uso do hijab é obrigatório a todas as mulheres depois do primeiro período menstrual. Alguns relatos sobre essa obrigatoriedade foram dados por mulheres muçulmanas à revista Capricho [escrito por Isabella Otto, em 21 de agosto de 2021] como as seguintes:

Carima: Várias passagens no Alcorão, livro sagrado muçulmano, e nos Hadiths, declarações atríbuidas ao profeta Mohamad, fazem referência ao véu das esposas do profeta, é algo obrigatório a partir da primeira menarca para as mulheres que seguem o Islamismo. O véu é uma forma de mostrar submissão a Deus.

Mariam:O rosto e as mãos são algumas partes do corpo que podemos mostrar, mas em algumas interpretações e culturas, a mulher que usa o niqab [traje parecido com a burca, mas que os olhos ficam à mostra, sem a proteção da rede, muito comum na Árabia Saudita e no Iêmen]. Ou seja, Deus ordenou que as mulheres muçulmanas se cobrissem em submissão a ele e não a nenhum homem. No entanto, a mulher tem o livre arbítrio e é ela quem deve escolher.

Sabendo que a Mulher tem livre arbítrio para o uso da vestimenta, por que o governo acha tão errado a mulher que não o usa?

A história do Irã com as vestimentas femininas é longa e difícil para as mulheres que não concordam com as ordens. O governo usa partes do Alcorão (livro santo islâmico) e partes do Hadith (testemunhos do profeta Mohamad) para justificar a política, mesmo que a escrita muçulmana não seja totalmente clara se as mulheres devem usar o véu. A resistência ao uso obrigatório do hijab foi quase imediata. Depois do Supremo Líder Iraniano Aytollah Khomeini dizer que as mulheres deveriam observar o código de vestimenta iraniano em 1979, elas fizeram vários protestos, levando o governante a dizer que seus comentários eram somente uma recomendação. No entanto, o comentário virou lei em 1983.

Os códigos de vestimenta iranianos são estritamente obrigatórios no país e sua aplicação é vigiada pela “polícia da moralidade”, que patrulha as ruas com veículos, detendo pessoas que estão com vestimentas “inadequadas”. Como forma de protesto, várias mulheres iranianas que são contra a obrigatoriedade do hijab o usam de qualquer forma, sem ligar muito para as regras impostas, para o governo e a sociedade, chegando a usá-los caídos ao redor da cabeça e também como echarpe, nos ombros. Como foi dito pela plataforma de notícias CNN e o site Monday Feelings.

Os protestos contra o uso da vestimenta acontecem esporadicamente, mas por conta do caso de Mahsa Amini, o acontecimento se tornou bem mais conhecido, chegando a impactar e atrair interesse de muitas pessoas, governantes e repórteres através do globo.

Mulheres iranianas cortam cabelo em protesto após morte de Mahsa Amini

Para muitos, o hijab é um símbolo de opressão. E se formos olhar pelo lado religioso, os homens e o governo apenas não estão sabendo interpretar o que realmente está escrito nos livros sagrados islâmicos.

Há dias ouvem-se gritos, como: “Morte ao ditador” e “à República Islâmica”. E o governo responde com os mais diversos ataques à população, que vão desde cortar o acesso a internet para que não sejam publicadas notícias do país e para o povo não ter acesso à informações vindas do ocidente, já que em vários países há protestos contra o governo iraniano e a lamentação da morte da jovem. Desde a morte da jovem, a Anistia Internacional e a Organização das Nações Unidas têm relatado as mortes, os feridos e a quantidade de pessoas detidas pelo estado.

Mahsa Amini: Women in Iran burn headscarves in anti-hijab protests – BBC News

Protesto no Irã, reprodução: Unsplash

“As provas que recolhemos no terreno mostram que as forças de segurança estão a disparar projéteis metálicos, que são usados para caçar, contra manifestantes e pessoas na rua. Centenas de mulheres, crianças e homens foram feridos e vimos imagens horríveis de manifestantes com feridas na cabeça, no peito e no estômago. As forças de intenção de causar o máximo dano possível”, revela Raha Bahreini, investigadora iraniana e advogada de direitos humanos da Anistia Internacional, em relato dado ao veículo de informação digital EuroNews.

De Nova Iorque a Buenos Aires, e da capital argentina  Turquia, tudo o que se ouve falar e tudo o que se vê através de noticiários é o caso da jovem iraniana morta pela “polícia da moralidade”. Quando Mahsa Amini foi detida pelo governo, testemunhas e parentes afirmam que a jovem curda foi severamente atacada pelos oficiais, sendo espancada diversas vezes na região da cabeça. Mais tarde, ela acabou desmaiando e foi levada a um hospital em coma, dia 16 de setembro. Três dias depois, Mahsa morreu. O governo disse que a jovem iraniana morreu devido a um ataque cardíaco, mas a família afirma que ela estava em perfeita saúde.

Protestos Irã, reprodução: Unsplash

De acordo com uma ativista iraniana que preferiu permanecer anônima ao conversar com o repórter Joshua Askew, do veículo de informação digital EuroNews, outro problema com a atual política do hijab iraniana é que a regra não respeita as diferentes formas de vestir usadas pelos vários grupos étnicos e religiosos do Irã. “O governo islâmico nem aprova os outros tipos de hijab e roupas tradicionais em outros grupos étnicos”, disse ela. “Eles até oprimem as pessoas que realmente praticam sua religião.”

O Irã é uma sociedade muito mista, contendo persas, curdos, azerbaijanos, lurus, gila kis, árabes, baluchis e turcomenos. Cada um tem sua própria roupa tradicional e usa o hijab de maneiras diferentes, alternando cores, padrões e estilos.

No entanto, o caso de Mahsa foi um divisor de águas nesta ideia que o governo pregou, de que o motivo pelo qual as mulheres são detidas é falta de respeito pela cultura iraniana. O problema com o hijab no Irã não é cultural; é político, já que várias mulheres foram presas por conta de suas vestimentas e não por seu desrespeito pela cultura.

As ativistas dizem que estão esperançosas de que algo mude, mesmo que seja muito difícil, e que a morte de Mahsa Amini foi uma abertura dos portões do ódio para com o governo do país. Como relataram ao veículo de notícias EuroNews.

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