O poder de ditar quem vive ou quem morre

Ao analisarmos os dados que o recente relatório da OXFAM nos fornece e olharmos para as raízes dessas mazelas, será que é possível concluir que existe remédio para a pandemia de desigualdade social?

Por Karen Rodrigues

Nos últimos quatro anos, o Brasil tem passado por gigantescas perdas, registrando quedas em estatísticas já superadas e com um governo negligente, que posiciona e efetiva um projeto de necropolítica a todo momento e, em 2020, com a chegada da pandemia do covid-19 a desigualdade social foi escancarada. Este é um fato que você, leitor, já deve ter entendido e visto por diversos cantos. Porém, quando falamos de desigualdade social no Brasil, especificamente, diversos recortes são necessários para entender a raiz do problema que nos persegue.

A estrutura na qual vivemos tem como objetivo destruir alguns grupos. Quando me refiro a “alguns grupos”, de forma direta quero dizer que geralmente são selecionados com base no racismo.

Para exemplificar como funciona, pense no agora.

Talvez você tenha tido a oportunidade de fazer quarentena, por consequência ficou muito mais tempo em frente à televisão e assistiu jornais de diversos canais. Por lógica, não deve ter conseguido evitar ver os anúncios de morte de mais de 500 mil brasileiros. Mas para além deste número gigantesco de perdas, o contato com a morte por outras causas continuou existindo. Mas, se você assistiu programas como o Jornal da Band, comandado pelo Datena, por exemplo, deve ter percebido que, para muitos telespectadores, essas mortes foram justas, porque significaria menos um problema, menos violência na sociedade.

Esse cenário de violência foi agravado na pandemia pelo fato de o governo atual fornecer um auxílio emergencial em um valor inferior a um salário mínimo (em alguns casos nem sequer foi oferecido), faz com que muitas pessoas simplesmente morram e nem tenham suas mortes questionadas.

Imagem: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Mas, se o vírus não escolhe quem morre, por que um público específico estaria mais sujeito à morte? A questão é que muitos desses indivíduos não têm acesso ao básico –  não têm a possibilidade de fazer quarentena, comprar máscaras (não estou falando de PFF2 e sim das mais “baratas”), muitos perderam trabalho e com isso tiveram dificuldades para pagar aluguel e outras despesas básicas.

O dia a dia faz com que seja necessário fazer a escolha de não se proteger ao máximo, para que os seus sobrevivam e possam comer.

Ter 55% da população em situação de insegurança alimentar (segundo o relatório da OXFAM), não é coincidência.

Imagem: reprodução redebrasilatual.com.br

O que existe no Brasil, efetivamente, é uma divisão racial do trabalho. Por conseguinte, não é por coincidência que a maioria quase absoluta da população negra brasileira faz parte da massa marginal crescente.

Lélia Gonzalez

A instabilidade financeira acaba por dar margem ao trabalho autônomo, ao famoso empreendedorismo” (de subsistência). Ainda que os registros de MEI’s tenham crescido 8,4% em 2020, segundo a Exame, e esse pareça ser um dado positivo, muitos desses brasileiros utilizam deste recurso única e exclusivamente para manter as contas pagas e seus alimentos. Isso também é apontado no relatório da Oxfam, ao informar a perda de emprego e suas rendas.

Em 2021, muito estimulado por esse aumento da formalização de microempreendedores por necessidade, o desemprego caiu consideravelmente, mas essa queda foi baseada na precarização e na informalidade.

O Poder político e socioeconômico está diretamente ligado à raiz do problema vivenciado no Brasil. A luta é, e sempre será constante, mas será que precisamos realmente passar por tais catástrofes para visualizar o óbvio? A pandemia de Covid-19 só escancarou um problema que nos persegue há muito tempo. E a pandemia de desigualdade só se acabará através de diversas revoluções da massa.

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