O Eu e o Social

É através dos atos sociais de comunicação que o indivíduo é capaz de significar os seus atos e pertencimento no mundo, sejam repensando suas práticas e seu discurso.

Por Reynaldo de Azevedo Gosmão

Pensar a sociedade, as identidades e as relações entre o Eu e o Outro, requer a compreensão da dinamicidade das histórias, ideologias e outros atravessamentos que norteiam a compreensão da nossa coletividade. 

É ambivalente e paradoxal pensar as fronteiras entre sociedade, os indivíduos e seus atos, essa tríade compõe processos de individualização e subjetivação que representam a realidade de determinada cultura e seus fatores de pertencimento de dada diversidade e pluralidade de um povo. 

Através da teoria de George Mead, percebemos a natureza dialética da relação entre indivíduo e sociedade, concluindo que a individualização é o resultado da socialização e não sua antítese. Em “Espiritu, persona y sociedad” (1934), Mead descreve como a mente e o self emergem do processo social. 

A psicologia individual, para Mead, só pode ser compreendida como um processo social, sendo este anterior ao processo da experiência individual. Para o autor, a linguagem consiste na comunicação através de símbolos que envolvem significados e se da, necessariamente, através da interação entre indivíduos, em uma tríplice relação:

1) o gesto inicial de um indivíduo;

2) a reação de um outro indivíduo a esse gesto e

3) o resultado da ação iniciada pelo primeiro gesto ou complementação do ato social dado. Esse processo permite também, que os indivíduos a partir da sua experiência, possam antecipar as reações dos outros e ajustar suas ações de acordo.

O que vou destacar, é o quanto estamos no ponto 1 e 2 atualmente na sociedade brasileira, com a cultura do cancelamento: não é permitido a complementação ou reflexão de um ato social, onde o texto, o repudio, a diferença e os engajamentos seguem a linguagem do “dislike”; se não gostei é excluído.

A linguagem se tornou algo tão sólido, que o amor está morrendo atrás de meia dúzia de dizeres em um textos, fruto de brigas de whatsapp, onde a contradição e o processo discursivo, está sendo esquecido como um processo dinâmico, retiramos o “curso”, “caminho” da própria ontologia da palavra disCURSO. 

Se alguém é racista, homofóbico, machista, não será o cancelamento que resolverá a questão, o que possibilita a mudança das identidades, e das posições assumidas na esfera social é o processo de tomada de consciência do significado. 

A linguagem é um mecanismo que possibilita a reflexão mútua, dentro de um ato social, pois exige que cada indivíduo, na relação, reconstrua seus lugares. 

Assim, os processos psíquicos bem como os discursivos deixam de ser uma substância fixa e congelada, mas passa na interação social a ganha vigor e vida; é através dos atos sociais de comunicação que o indivíduo é capaz de significar os seus atos e pertencimento no mundo, seja repensando suas práticas e seu discurso. O cancelamento mata o que há de mais precioso, o repensar nossos espaços subjetivos e coletivos.

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2 Comments

  • Comentava nessa segunda feira à tarde, sobre a questão, de muitas namoradas e esposas, Não se contentarem em comprar as roupas “dele”, mas até sendo vendedoras dessas lojas! E numa ocasião comentei esse fato com um vendedor e, ele disse que de fato estamos nos permitindo mais a paquera, mas o que a namorada dele, por exemplo, se estivesse com ele no restaurante e você estivesse vindo do buffet, por não teres um abdomem sarado, te acharia “fora do pareo”, mas que ele repararia as pernas hidratadas (eu estava de calção) e a bunda discreta de mexer o imaginário de muito homem! Maroto ele disse que não era cantada, mas que muitas mulheres, como muitas pessoas, avaliam os contextos subjetivamente!

  • […] questão deixarei em suspenso, mas é óbvio, que nossas relações se estabelecem entre um Eu – Outro, mas tem um perigo aí, principalmente quando pactuamos e fazemos um conluio ou uma trama […]

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