Imperialismo e anti-imperialismo em disputa: guerra, intervenção e resistência dos povos, pt. 1

Por Guilherme Leutwiler
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Série se debruça sobre o momento geopolítico atual, analisando o papel dos EUA, as disputas e resistências ao imperialismo.

Nesta série dividida em três partes, vamos explorar as políticas imperialistas dos Estados Unidos, buscando evidenciar seus mecanismos de controle e manutenção hegemônica. 

No primeiro texto, falaremos sobre a política de guerra de um imperialismo que está em declínio, e apontaremos brevemente como esse declínio se deu. No segundo, vamos entender melhor sobre as diversas formas intervencionistas dos EUA, evidenciando casos concretos em alguns países do mundo. Por fim, vamos falar sobre a necessidade da mobilização anti-imperialista, da defesa da soberania, da solidariedade ativa e da importância da organização coletiva no desenvolvimento de ações que questionem a ordem hegemônica e valorizem o Sul Global. 

Parte 1: A política de guerra do imperialismo estadunidense em crise

War pigs – Black Sabbath (1970)

Evil minds that plot destruction (Mentes malignas que planejam a destruição)

Sorcerer of death’s construction (Feiticeiro da construção da morte)

In the fields, the bodies burning (Nos campos, os corpos queimando)

As the war machine keeps turning (Enquanto a máquina de guerra continua girando)

Death and hatred to mankind (Morte e ódio à humanidade)

Poisoning their brainwashed minds (Envenenando suas mentes com lavagem cerebral)

Oh, Lord, yeah (Oh, Senhor, sim)

Politicians hide themselves away (Os políticos se escondem)

They only started the war (Eles apenas começaram a guerra)

Why should they go out to fight? (Por que eles deveriam sair para lutar?)

They leave that role to the poor, yeah (Eles deixam esse papel para os pobres, sim)

A banda inglesa Black Sabbath, já na década de 70, alertava para a engrenagem bélica que, até os dias de hoje, gira em prol do lucro e da manutenção do poder, movida por interesses políticos e econômicos bem definidos. 

Mas essa engrenagem não opera sozinha – ela se organiza, é estruturada e dirigida historicamente a partir de centros de poder. E, hoje, nenhum país expressa essa dinâmica de forma tão evidente quanto os Estados Unidos e sua política de guerra.

Vale lembrar que nem sempre os EUA estiveram nessa posição hegemônica. Essa consolidação se deu a partir das guerras do século XX, em especial a Segunda Guerra Mundial. 

Foi a partir desse contexto que os EUA passaram a organizar a ordem global, na medida em que ampliaram sua capacidade produtiva e financeira, patrocinando a reconstrução europeia e estruturando instituições e mecanismos de governança internacional, como a ONU.

Ainda, esse processo foi acompanhado por uma intensa disputa narrativa, desde a minimização do papel decisivo da URSS na derrota nazista, até a corrida espacial e o fortalecimento da propaganda anti-comunista. Ou seja, desde o início, o poder estadunidense se estrutura não apenas em termos econômicos e militares (com o Plano Marshall ou com as inúmeras bases militares exteriores), mas também ideológicos. 

(Para fins de curiosidade: estima-se que os EUA teriam cerca de 1600 instalações militares em diversos países do mundo até o fim da guerra fria, em especial na europa e ásia. Hoje, a estimativa é que os EUA mantêm cerca de 750 bases em aproximadamente 80 países, sem contar um Estado inteiro criado para dominação e controle do Oriente Médio – Israel).

Nesse sentido, a guerra não pode ser mais compreendida como um evento pontual, mas deve ser entendida como uma estrutura política de dominação, controle e reprodução de poder. 

Com o fortalecimento do dólar como moeda global na década de 70 e, mais tarde, com o avanço do neoliberalismo nos anos 80 e 90, o papel hegemônico dos EUA muda: não são mais o produtor industrial do mundo, mas o grande controlador da economia mundial, que aglomera instituições financeiras através do sistema SWIFT e que gere os fluxos financeiros internacionais.

No entanto, isso representa uma inversão da cadeia produtiva estadunidense. A base material industrial/produtiva, que antes era a base da pirâmide econômica, perde centralidade, enquanto os produtos financeiros e a especulação assumem um papel dominante. 

Esse é o primeiro, e talvez o fator mais central que podemos identificar sobre a crise do império dos EUA: a inversão da base econômica, aliada ao processo de desindustrialização do país, impulsionado pela lógica neoliberal e pelas transformações da economia global.

Como consequência desse cenário, desde o início dos anos 2000 o país se consolidou como uma nação devedora no cenário internacional, e para quem gosta de dados: em fevereiro de 2026, a dívida interna dos EUA chegou a aproximadamente 38 trilhões de dólares. 

Se fizéssemos um exercício imaginativo, pensando em dividir essa conta com a população, isso representaria cerca de 113 mil dólares por pessoa. Convertendo para nossa moeda: quase meio milhão de reais – por pessoa!

Ainda, vemos hoje uma perda relativa da supremacia tecno-científica dos EUA para a China, que domina cadeias de produção material industrial e vai na contramão da desindustrialização estadunidense. 

A partir disso, não é difícil notar que o declínio do poder estadunidense tende a se aprofundar, especialmente com o avanço do processo de desdolarização impulsionado pelos BRICS. Isso desemboca em uma saída já conhecida na história: a tentativa de manutenção da hegemonia por meio da força militar.

Vemos conflitos armados em diferentes regiões, genocídios sendo transmitidos em tempo real, disputas entre grandes potências, bloqueios econômicos, intervenções indiretas e uma militarização crescente das relações internacionais. 

A política de guerra estadunidense é multifacetada, global e permanente, porque evidencia o suspiro desesperado de um império em crise.

A fase atual do capitalismo não consegue se reproduzir sem expandir fronteiras, monopolizar recursos e sem utilizar da guerra para isso. E o objetivo é destruir territórios, infraestrutura e vidas para abrir novos ciclos de acumulação e concentração de poder.

É por isso que os EUA são o país que mais gasta com a indústria bélica no mundo. A indústria militar cumpre um papel central ao movimentar a produção industrial interna e ao orientar o avanço científico e tecnológico para fins de guerra, sustentando sua capacidade de intervenção e de ameaça em escala global.

(Mais uma curiosidade: em 2025, os EUA gastaram aproximadamente 900 bilhões de dólares no setor de defesa. Esse valor equivale a quase 40% do PIB do Brasil ou quase 50% do PIB do México!

Para fins de comparação de gastos com defesa dos principais países do mundo, a China gastou cerca de 270 bilhões e a Rússia cerca de 130 bilhões).

Esse é o coração do imperialismo estadunidense hoje. Ele se sustenta, principalmente, em três frentes: a disputa econômica e tecnológica com a China, a imposição de sanções e pressões sobre países da América Latina e a manutenção de sua influência geopolítica no Oriente Médio, em especial a partir de Israel. 

E ainda tem um outro elemento importante: hoje, os recursos materiais e energéticos necessários para a manutenção tecnológica e bélica dos Estados Unidos não estão apenas dentro do seu território. Está espalhado pelo mundo, especialmente no Sul Global. Está no triângulo do Lítio (Argentina, Chile e principalmente Bolívia), no petróleo Venezuelano e Iraniano, nas terras raras do Brasil, no cobalto do Congo, no níquel da Indonésia, nos semicondutores de Taiwan, no urânio de regiões estratégicas da Ásia Central e da África, entre tantos outros recursos fundamentais para a economia e para a guerra.

Ou seja, o império depende da extração e do controle desses territórios para se manter. No fim das contas, a guerra deixa de ser apenas um instrumento e passa a ser uma necessidade. Essa é a estratégia da guerra de um imperialismo que está caindo, mas cai atirando. 

As guerras que presenciamos hoje não se configuram necessariamente nos moldes das duas guerras mundiais anteriores, mas se expressam como um estado permanente de conflito. Nesse cenário, a máquina de guerra não pode parar, porque sua paralisação colocaria em risco não apenas a hegemonia estadunidense, mas o próprio funcionamento do sistema capitalista.

Masters of war – Bob Dylan (1963)

Come you masters of war (Venham, mestres da guerra)

You that build the big guns (Você que constrói as grandes armas)

You that build the death planes (Você que constrói os aviões da morte)

You that build all the bombs (Você que constrói todas as bombas)

You that hide behind walls (Você que se esconde atrás das paredes)

You that hide behind desks (Você que se esconde atrás de mesas)

I just want you to know (Eu só quero que você saiba)

I can see through your masks (Eu posso ver através de suas máscaras)

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Guilherme Leutwiler

Educomunicador, pesquisador e militante. Integra o Movimento Brasil Popular e realiza pesquisa de mestrado em Integração da América Latina, articulando Bem Viver, cultura, internacionalismo e práticas educomunicativas.

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Educomunicador, pesquisador e militante. Integra o Movimento Brasil Popular e realiza pesquisa de mestrado em Integração da América Latina, articulando Bem Viver, cultura, internacionalismo e práticas educomunicativas.

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