Na COP30, em Belém, enquanto governos e negociadores discutem como acelerar a descarbonização global, um tema crucial permanece à margem do debate oficial: o impacto climático do setor militar e dos conflitos armados.
Enquanto o mundo concentra esforços na transição energética, nos transportes limpos e na transformação industrial, as atividades militares continuam operando em uma zona de sombra contábil, gerando uma pegada de carbono comparável à de economias avançadas e escapando de qualquer obrigação sistemática de monitoramento e prestação de contas. Nesse contexto, a COP30 oferece uma oportunidade — talvez única — de trazer à luz esse impasse e incorporá-lo definitivamente à agenda climática global.
Segundo o Conflict and Environment Observatory (CEOBS), o setor militar seria responsável por 5,5% das emissões globais anuais de gases de efeito estufa.
No relatório apresentado na COP, o CEOBS traz estimativas que revelam a dimensão do problema. Nos três anos desde a segunda invasão da Ucrânia, o conflito teria produzido 237 milhões de toneladas de CO₂ equivalente, com um dano climático estimado em 43 bilhões de dólares. A intensificação da ocupação em Gaza teria gerado, nos primeiros quinze meses, mais de 31 milhões de toneladas de CO₂ equivalente, uma pegada superior à emissão anual de 102 países. E, segundo as previsões, a fase mais emissiva — a reconstrução — ainda está por vir.
As decisões políticas europeias também têm impacto significativo. O plano “ReArm Europe/Readiness 2030” prevê um aumento de mais de 800 bilhões de euros nos gastos militares da União Europeia até 2030. O CEOBS estima que esse crescimento pode gerar, todos os anos, até 218 milhões de toneladas adicionais de CO₂ equivalente, com um dano climático associado de até 298 bilhões de dólares.
Apesar de números tão expressivos, nenhum governo é obrigado a reportar de forma completa as emissões de suas atividades militares. A isenção nasceu no Protocolo de Kyoto e foi mantida no Acordo de Paris, que prevê apenas uma prestação de contas voluntária. O resultado é um quadro fragmentado, definido por muitas organizações como “military emissions gap” — o buraco das emissões militares.
Enquanto isso, o gasto militar mundial continua aumentando e, em 2024, teria alcançado 2,7 trilhões de dólares. Segundo o CEOBS, os países do Norte Global investem 30 vezes mais em seus aparatos militares do que nos fundos destinados ao financiamento climático internacional. Daí surgem algumas propostas de ONGs e instituições. A Oil Change International estima que seria possível mobilizar até 5 trilhões de dólares com um imposto sobre o comércio de armas e a realocação de apenas 20% dos gastos militares dos países ricos. Um relatório da ONU afirma que reinvestir apenas 15% do gasto militar global seria suficiente para cobrir o atual déficit nos fundos para adaptação climática.
No documento apresentado aqui em Belém, o CEOBS indica três prioridades: obrigatoriedade na prestação de contas das emissões militares com diretrizes atualizadas do IPCC; integração da redução das emissões do setor militar nos NDCs; e realinhamento dos investimentos públicos, para garantir que os gastos com defesa não retirem recursos da ação climática, da diplomacia e da construção da paz.Sem enfrentar o custo climático das forças armadas e sem redefinir as prioridades de investimento, os objetivos do Acordo de Paris permanecerão fora de alcance. Mais ainda: sem encontrar alternativas para a forma como conduzimos as relações internacionais, corremos o risco de permanecer presos no mesmo círculo vicioso. Em um mundo que sofre, a COP lembra que diálogo e cooperação continuam sendo o único caminho para enfrentar os desafios do futuro. Juntos.
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