Entre Mauá, na Grande São Paulo, e Salvador, na Bahia, elas trazem histórias de enfrentamento ao racismo, de resistência cotidiana e da construção de caminhos coletivos a partir da cultura, da educação e do ativismo.
O que as une, além de comporem a Rede Multiatores MUDE com Elas, é a consciência de que suas vozes — forjadas no afeto, no hip hop, na militância e na experiência direta da exclusão — podem abrir possibilidades para muitas outras jovens negras.
As trajetórias de Júlia Mendes e Taynara Silva encerram a Série Histórias de Vida, mostrando que, em meio às dores e barreiras, a força coletiva das juventudes negras cria brechas de esperança, dignidade e transformação. Ambas reafirmam que a luta por trabalho digno e por reconhecimento não é apenas individual, mas coletiva — e que é nessa coletividade que residem os sonhos possíveis.
“Meu maior desafio foi eu mesma”: a luta de Júlia Mendes contra os estereótipos de gênero e raça
Júlia Mendes (24) nasceu e cresceu em Mauá, no ABC Paulista, em um lar de mulheres, com uma mãe solo e duas irmãs. A caçula, desde cedo, encontrou em Catarina, a mais velha, sua principal referência. Foi com ela que aprendeu a consumir Rap, frequentar batalhas de rima e enxergar a cultura Hip Hop como espaço de identidade e resistência.

“Eu tive a sorte de ter minha primeira referência dentro de casa. Muito do que sou hoje foi graças a essa construção com a minha irmã”
Mas o caminho não foi simples. Júlia lembra que sempre destoou do padrão de feminilidade esperado. Aos 18 anos, raspou a cabeça e manteve o estilo de roupas que muitos associam ao masculino. Nas entrevistas de emprego, o choque era imediato: “No currículo estava escrito Júlia Mendes. Quando eu entrava na sala, era uma mulher preta ‘desfem’ [termo utilizado entre a comunidade LGBT+, sobretudo lésbicas e bissexuais, para denominar mulheres que não performam feminilidade]. As pessoas não estavam prontas para lidar com a diversidade do ser”.
Seu primeiro trabalho foi como atendente de loja de festas, seguido por outras experiências consideradas “sub-ocupações”, como o telemarketing. A aparência foi, para ela, um dos maiores obstáculos de inserção. “Meu maior desafio fui eu mesma. Eu tentava me arrumar para assustar menos, mas ainda assim era constrangida, tratada no masculino. Isso me marcou muito”.
Apesar de Júlia apontar que seu maior desafio era ela mesma, essa dificuldade não nasce do indivíduo, mas do entorno. A exigência por uma aparência “perfeita” recai de forma especialmente dura sobre mulheres negras, enquanto o mercado de trabalho formal ainda privilegia a branquitude e padrões estreitos de feminilidade. Ou seja, o que Júlia enfrentou como obstáculo pessoal é, na verdade, uma manifestação das desigualdades e estereótipos sociais que permeiam oportunidades, reconhecimento e respeito.
Cultura como sobrevivência e horizonte
Se a precariedade do mercado de trabalho tentou restringir suas possibilidades, foi na cultura que Júlia encontrou espaço para criar e resistir. Desde 2015, atua em eventos de Hip Hop, sempre de forma independente. Em 2019, integrou a Máfia das Minas, coletivo de jovens mulheres que organizavam batalhas, shows e encontros na região do ABC.
Sem patrocínios ou recursos, os eventos eram sustentados por rifas, vendas de camisetas e até doações de passagem. “A gente prezava por, pelo menos, pagar a passagem e a alimentação de quem chamávamos. Tirávamos leite de pedra, mas fazíamos acontecer”, lembra. Essa vivência moldou não só sua consciência política, mas também a noção de autogestão e finanças coletivas. Ao entrar no MUDE com Elas, Júlia percebeu o contraste: “Não precisava mais tirar do bolso para fazer as coisas. A bolsa permanência, as formações… tudo isso mostrava que era possível”.
Entre os momentos mais marcantes, ela destaca a ida a Brasília, para o 2º Encontro Nacional da Rede MultiAtores MUDE com Elas, em julho. Em uma reunião interministerial no Palácio do Planalto, convocada pela Secretaria Nacional de Juventude em parceria com o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e articulada pela Rede MultiAtores MUDE com Elas, Júlia teve um papel sensível e decisivo no debate.
Durante a reunião, ela compartilhou uma experiência forte de racismo no metrô de São Paulo. Embora não estivesse diretamente ligada ao trabalho, a situação revelou como relações de poder podem colocar uma pessoa na impotência. O silêncio tomou a sala do Planalto enquanto Júlia narrava as dificuldades de denunciar, a dor que paralisa e a força dos coletivos organizados — foi graças às colegas de militância que conseguiu dar continuidade ao processo.
Para ela, levar sua história ao Palácio do Planalto foi uma forma de humanizar a discussão sobre canais de denúncia. “Muitas vezes tudo fica na teoria, nos dados. Eu quis trazer minha vivência. Estar lá foi um divisor de águas”.
Hoje, ela leva esse sentimento de possibilidade para as oficinas que realiza com crianças em Sapopemba, reforçando a importância de se reconhecer no outro. “Quero espalhar esse sentimento de possibilidade. O que o MUDE me deu, eu quero devolver”.
“Forjada no afeto e na educação”: Taynara Silva e a construção da potência coletiva
Nascida em Lauro de Freitas (BA), mas criada no bairro do Alto do Coqueirinho, em Salvador, a cientista social Taynara Silva (25) se define como soteropolitana. Sétima filha de nove, em uma família marcada pela vulnerabilidade socioeconômica, encontrou no afeto e na educação seus maiores alicerces.

“Eu costumo dizer que fui forjada no afeto. Às vezes a gente não estava em condições dignas, mas conseguia rir, brincar, conversar. E também fui forjada na educação, que sempre foi vista como saída possível”, afirma. Assim como Júlia, sua maior referência está na família: a irmã Helenice, advogada, que considera “uma segunda mãe”.
O “privilégio”, diz Taynara, foi ter tido tempo para estudar sem precisar compor renda na infância — entre aspas, já que essa deveria ser uma realidade comum para crianças e adolescentes, mas que, para a juventude negra, nem sempre é possível. Aos 14 anos, ela se mudou com a família para São Paulo e iniciou no mundo do trabalho no fim da adolescência, já na capital paulista.
Do telemarketing à militância
O telemarketing lhe deu um salário, mas também um vazio. “Eu não via a vida passar. Era ausência até de mim mesma. E só consegui entrar porque uma cunhada me indicou. Percebi que minhas habilidades não bastavam, eu precisava que alguém me legitimasse”. O trabalho repetitivo, a cobrança incessante e a falta de perspectiva deixaram marcas profundas em sua saúde mental. Foi nesse período que entendeu com mais clareza como o mercado de trabalho pode excluir, adoecer e limitar os horizontes das juventudes negras.
Essa realidade contrastava com outro lado de sua vida: o voluntariado. A combinação entre vivências de precarização e engajamento social a preparou para um passo maior.
Do Coqueirinho a Brasília: incidência política e autoestima
Esse passo veio com o MUDE com Elas. “Eu achava que era só mais uma militante. O MUDE me fez ver minha potência”. No projeto, encontrou ferramentas e apoio para transformar indignação em estratégia política.
Com a Rede MultiAtores, chegou a mesas de negociação em Brasília, em reuniões com o Ministério da Igualdade Racial e com a Secretaria de Políticas de Cuidado. Para Taynara, ocupar esses espaços foi mais do que uma oportunidade de falar: foi a chance de ver o alto do Coqueirinho conectado à capital federal. “Estar nesses espaços, mesmo que minha voz seja um sussurro, é muito gratificante. Minha autoestima mudou. O MUDE me instrumentalizou a ponto de eu conseguir me impor, trazer minhas vivências e sugerir caminhos”.
Essa passagem de um trabalho precarizado a ambientes de formulação de políticas públicas é, para ela, símbolo de uma virada coletiva. “Historicamente, existem projetos para destruir a autoestima das mulheres negras. No MUDE, eu consigo fortalecê-la”.
Este conteúdo foi produzido para o MUDE com Elas, rede multiatores superando a desigualdade de gênero e raça, implementada a partir de uma parceria entre Terre des Hommes Brasil, Ação Educativa e CEERT, com cofinanciamento da Cooperação Alemã/BMZ.