Em 2019, em um auditório lotado no Teatro Paulo Autran, no Sesc Pinheiros, a filósofa e ativista Angela Davis fez um questionamento à plateia que ficou imortalizado: “Por que vocês precisam buscar uma referência nos Estados Unidos? Eu aprendo mais com Lélia Gonzalez do que vocês comigo”, ela provocou.
O ano de 2025 marca os noventa anos do nascimento da antropóloga, filósofa, professora e militante do movimento negro, Lélia Gonzalez (1935-1994). Com uma obra marcada pela intersecção entre as ruas e a academia, Lélia tem atraído mais a atenção do mercado editorial, o que tem contribuído para que seu legado chegue às novas gerações, reconhecendo nela o pioneirismo em muitas ideias que, hoje, sustentam diversas lutas por direitos às mulheres negras.
“Impacta, na leitura de seus textos e discursos transcritos, exatamente a atualidade das posições tomadas por ela mais de três décadas atrás: críticas à persistência do racismo e do sexismo na cultura brasileira: a defesa de candidaturas negras e de mulheres desde que ancoradas em representação substantiva e de valores, e não apenas descritiva, movida exclusivamente por cor ou gênero”, escrevem as pesquisadoras Flávia Rios e Márcia Lima, que em 2020 reuniram boa parte dos textos de Lélia na coletânea Por um feminismo AFRO Latino Americano, pela editora Zahar.
Quem foi Lélia?
Lélia Gonzalez nasceu em Belo Horizonte em 1935, sendo a penúltima de 18 filhos. Seu pai morreu cedo, e sua mãe, de origem indígena, sustentava a família. Lélia teve uma infância difícil, mas desde cedo trabalhou e se dedicou aos movimentos sociais e feministas.
A situação da família melhorou quando um de seus irmãos se tornou jogador do Flamengo e a família se mudou para o Rio de Janeiro. Lá, Lélia teve mais oportunidades de estudo, graças ao apoio financeiro da família.
Ela se formou em História, Geografia e Filosofia, lecionou na UERJ e na Universidade Gama Filho, e fundou o Instituto de Pesquisas das Culturas Negras do Rio de Janeiro e o Movimento Negro Unificado. Além disso, participou do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher e da Assembleia Constituinte de 1987, contribuindo para a Constituição de 1988 com sua experiência acadêmica e militante.
Lélia e o mercado de trabalho
Lélia dedicava-se a olhar sobre a opressão enfrentada por mulheres negras, latinas e indígenas, ou “amefricanas”, como ela se denominava ao grupo em seus escritos. Ela acreditava que, para superar desigualdades, era necessária uma ação transformadora e coletiva em que era necessário pensar nas mulheres que estão às margens da sociedade: com os piores salários, submetidas a duplas jornadas de trabalho dentro e fora de casa, e a situações de sexismo e racismo.
A intelectual também buscou centralizar o racismo nos estudos sobre capitalismo e mercado de trabalho ao identificar uma “divisão sexual e racial do trabalho”, em que a discriminação racial cria uma “massa marginal” de trabalhadores negros.
Em relação às mulheres negras, elas desempenham, dentro da massa marginal apontada por Lélia, atividades mal remuneradas que também revelam relações de gênero, como a “prestação de serviços domésticos junto às famílias das classes média e alta”, e a “prestação de serviços de baixa remuneração (‘refúgios’) nos supermercados, nas escolas ou nos hospitais, sob a denominação genérica de “servente”.
Ao se dedicarem, principalmente, ao trabalho doméstico, mulheres negras enfrentam uma dupla jornada de trabalho do cuidado, dentro e fora de casa. Essa situação, já identificada por Lélia, leva a uma vida marcada pela restrição de oportunidades e por impactos na saúde física e mental.
O olhar aguçado de Lélia, nos anos 80, é contemporâneo aos dias de hoje, quando observamos, por exemplo, que o desemprego entre mulheres negras é o dobro de homens não negros, conforme dados da RAIS (Relação Anual de Informações Sociais) divulgados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) em novembro de 2024.
“As mulheres negras estão concentradas nas ocupações na base da pirâmide, principalmente, em serviços domésticos, de limpeza, serviços de alimentação. Elas ainda ocupam as vagas que pagam menos de remuneração salarial”, disse a subsecretária de Estatística e Estudos do Trabalho do Ministério do Trabalho e Emprego, Paula Montagner, em entrevista para a CNN Brasil sobre o material.
Ao destacar como o racismo e o sexismo moldam a oferta de oportunidades para mulheres negras, Lélia lançou luz sobre as barreiras históricas e sociais que dificultam o acesso dessas mulheres ao mercado de trabalho.
Sua análise ajuda a desnaturalizar discriminações e valorizar a diversidade cultural e racial como componentes indispensáveis de uma sociedade mais equitativa. Além disso, sua abordagem crítica ao eurocentrismo desafia as normas do mercado de trabalho ao enfatizar a importância de criar espaços que respeitem e integrem diferentes perspectivas culturais.
Nesse sentido, o legado de Gonzalez é um chamado à ação para empresas, governos e organizações sociais que desejam fomentar a inclusão produtiva de jovens mulheres negras através de iniciativas que promovam capacitação profissional, empreendedorismo e mentoria que podem desempenhar um papel crucial na inclusão produtiva dessas mulheres, no fortalecimento da autoestima, na valorização das culturas afro-brasileiras e na promoção de políticas afirmativas.
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Este conteúdo foi produzido para o MUDE com Elas, rede multiatores superando a desigualdade de gênero e raça, implementada a partir de uma parceria entre Terre des Hommes Brasil, Ação Educativa e CEERT, com cofinanciamento da Cooperação Alemã/BMZ.