Não existe transição verde sem justiça racial

Por Teresa Cristina
Compartilhe:
o que a crise climática tem a ver com o trabalho para jovens negras?

Enquanto os impactos da crise climática recaem com mais força sobre mulheres negras e periféricas, o debate sobre empregos verdes e transição ecológica precisa urgentemente incluir quem está na linha de frente das resistências e soluções.

As mudanças climáticas não afetam a todos da mesma forma. Enquanto os lucros da exploração desenfreada da natureza se concentram em poucas mãos, os impactos da crise climática recaem com mais força sobre corpos e territórios marcados por desigualdades históricas. Mulheres negras, jovens, indígenas, ribeirinhas, quilombolas e periféricas são justamente as que mais sofrem e, ao mesmo tempo, as que mais criam soluções sustentáveis e transformadoras a partir da escassez.

É por isso que falar de justiça climática é, necessariamente, falar de justiça racial, de gênero e de classe.

O termo “racismo ambiental” surgiu nos anos 1980, nos Estados Unidos, a partir das lutas de comunidades negras e imigrantes contra a instalação de aterros sanitários e indústrias poluentes em seus bairros. Como mostraram os pesquisadores liderados pelo professor Robert Bullard, precursor do movimento por justiça ambiental, mesmo comunidades negras com maior poder aquisitivo eram escolhidas como alvos dessas instalações, enquanto comunidades brancas de baixa renda não o eram. Ou seja: a renda não era o critério decisivo. Era a raça.

No Brasil, o racismo ambiental tem raízes coloniais. Começa na expropriação das terras indígenas, passa pela Lei de Terras de 1850 – que impediu o acesso à terra por ex-escravizados – e segue até hoje em políticas que perpetuam a precariedade habitacional, o saneamento inadequado e a informalidade fundiária.

Segundo o IBGE (2022), 67% dos moradores de favelas e comunidades urbanas se autodeclaram pretos ou pardos – proporção muito superior à média nacional (55,5%). Além disso, 46% das pessoas pardas e 36% das pretas vivem em domicílios sem esgoto por rede coletora ou pluvial, contra 28% entre brancos. A ausência de saneamento básico, somada à localização em áreas de risco, aumenta drasticamente a exposição a enchentes, deslizamentos e doenças.

A pesquisadora Camila Bellaver Alberti (2024) lembra que essa ocupação de áreas vulneráveis não é uma escolha individual, mas o resultado direto da ausência do Estado. Em sua análise sobre os desastres registrados no Brasil nas últimas décadas, apresentada em sua dissertação de mestrado, ela mostra que os desastres hidrológicos – como enchentes, inundações e deslizamentos – foram os mais letais e destrutivos entre todos os eventos classificados como desastres naturais no país. Foram responsáveis por 82% das mortes, 91% dos desalojamentos e 88% das moradias destruídas nesse conjunto.

A população negra está no centro desses impactos. Um exemplo emblemático é o rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), em 2015 – o maior desastre ambiental da história do país. Estudo do professor Luiz Jardim Wanderley (UERJ) mostra que 84,3% da população de Bento Rodrigues, um dos locais mais afetados, era composta por pessoas pretas ou pardas.

Como apontou a ex-relatora da ONU para o racismo, Tendayi Achiume, essas regiões impactadas pela crise são verdadeiras “zonas de sacrifício racial”, onde populações não brancas estão mais expostas aos efeitos da degradação ambiental – seja nas cidades, florestas, comunidades ribeirinhas ou territórios tradicionais. A injustiça climática é, portanto, uma extensão direta do racismo estrutural.

E mesmo assim, são essas populações que estão na linha de frente das resistências. A juventude negra brasileira – sobretudo as mulheres – cria hortas urbanas, lidera mutirões de moradia, organiza redes de cuidado, memória e cultura nos territórios. Por isso, a justiça climática não pode ser apenas sobre reparação, ela precisa ser sobre protagonismo, escuta real e também alcançar o mundo do trabalho.

A transição no mercado de trabalho: para quem será o futuro verde?

A emergência climática impõe uma reconfiguração profunda do modelo econômico. O aquecimento global – causado, de forma inequívoca, pela ação humana, como aponta o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) – aprofunda desigualdades, compromete a segurança alimentar e ameaça o próprio desenvolvimento. Segundo o Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas, o país pode perder 11 milhões de hectares de áreas cultiváveis até 2030, afetando diretamente a produtividade agrícola e o abastecimento alimentar.

É nesse cenário que surge o debate sobre transição ecológica. E, com ele, a promessa de um novo mercado: os chamados empregos verdes, a economia de baixo carbono e a inovação sustentável. Mas, sem justiça social e racial, essa transição será apenas uma nova forma de exclusão.

Afinal, quem ocupará esses novos postos de trabalho? Que formação será exigida? Quem terá acesso aos processos de qualificação para atuar nas áreas de energia renovável, engenharia ambiental, reflorestamento ou tecnologia limpa? Se nada mudar, é provável que o verde também seja branco e masculino.

Para evitar isso, é urgente pensar políticas públicas que envolvam jovens negras e periféricas na transição sustentável. Isso inclui acesso à educação técnica, investimentos em inovação comunitária, apoio à economia da sociobiodiversidade e valorização de saberes ancestrais. O Brasil tem potencial para liderar esse processo. Somos uma potência ambiental, com baixa emissão per capita de carbono (1,9 tonelada por brasileiro, segundo a Agência Internacional de Energia-AIE). Temos uma das maiores biodiversidades do mundo. Mas não existe inovação nem desenvolvimento econômico sem inclusão.

A juventude negra, especialmente as mulheres, têm vivência e escuta para entender os impactos da crise, mas também criatividade e potência para construir novos caminhos. É um potencial criativo, mas também uma forma concreta de o setor privado se comprometer com a mudança – desde que esteja disposto a reconhecer quem historicamente sustentou o país com seu trabalho.

Caminhos possíveis e encontros necessários

Por isso, o 2º Encontro Nacional da Rede MultiAtores MUDE com Elas: Jovens Mulheres Negras e os Desafios do Trabalho Digno, que acontece em 24 de julho, no Museu Nacional da República, em Brasília, será mais que um evento: será um marco político. Realizado durante o Festival Latinidades, reunirá jovens negras de diferentes localidades, além de representantes do poder público, da sociedade civil e do setor privado, para debater caminhos para um mundo do trabalho mais justo, inclusivo e sustentável.

O painel de encerramento do evento – “Me recuso a não viver o futuro: jovens negras, mudanças climáticas e o futuro do trabalho digno” – será inteiramente dedicado a discutir como os efeitos da crise climática impactam de forma desproporcional a juventude negra e periférica, e por que suas vozes precisam estar no centro da construção de políticas públicas. A mesa contará com a participação de uma jovem representante do programa Prosseguir Colmeia, da ativista histórica Nilma Bentes (CEDENPA) e da professora Rita Silvana (Universidade de Brasília), com mediação de Daniel Teixeira (CEERT). Juntos, dialogarão sobre as conexões entre justiça ambiental e possibilidades de futuro no mundo do trabalho, a partir das vivências e da potência das jovens mulheres negras.

A justiça climática precisa ser pensada, desde já, como parte indissociável das políticas de trabalho, moradia, transporte, saúde, alimentação e renda. Não é um tema à parte – é o próprio centro da questão. E não pode ser construída sem a escuta, a presença e a decisão de quem vive nas bordas, mas que, na verdade, sempre esteve no centro da resistência.

Se o futuro quer ser verde, precisa também ser negro, jovem, periférico e feminino.

Fontes:

PEREIRA, Diego; AMPARO, Thiago. Raça, clima e direito. Revista Conjuntura.

LOUBACK, Andréia C. Quem precisa de justiça climática no Brasil? Observatório do Clima. Série Gênero e Clima, 2023.

ALBERTI, Camila Bellaver. Justiça climática em áreas urbanas, UFRGS, 2024.

TEIXEIRA, Gerson et al. Economia do grande impulso verde, Fundação Perseu Abramo, 2022.

IBGE (2022; IPCC (2021); IPEC (2023); AIE – Agência Internacional de Energia.

Estudo Luiz Jardim Wanderley (UERJ) sobre a população atingida pelo desastre de Mariana (2015).

Este conteúdo foi produzido para o MUDE com Elas, rede multiatores superando a desigualdade de gênero e raça, implementada a partir de uma parceria entre Terre des Hommes Brasil, Ação Educativa e CEERT, com cofinanciamento da Cooperação Alemã/BMZ.

Compartilhe:

Teresa Cristina

Jornalista educomunicadora.

Teresa Cristina

Jornalista educomunicadora.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

plugins premium WordPress