Me recuso a não viver o futuro: vozes de jovens negras sobre justiça climática e trabalho digno

Por Brendaly Sampaio
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No terceiro painel do 2º Encontro Nacional da Rede MultiAtores do projeto MUDE com Elas, fomos atravessadas por falas que reafirmam o que já sabemos, mas que raramente é ouvido nos espaços de poder: o futuro do planeta e do trabalho passa, necessariamente, pela escuta e protagonismo das mulheres negras

Com o tema “Me recuso a não viver o futuro: jovens negras, mudanças climáticas e o futuro do trabalho digno”, o painel — com participação de Vitória Alessandra Vieira de Abreu (jovem representante do Prosseguir Colmeia), Nilma Bentes (Movimento de Mulheres Negras / CEDENPA) e Rita Silvana (Universidade de Brasília), sob mediação comentada de Daniel Teixeira (CEERT) — nos lembrou que não há como sonhar com o futuro quando o presente já nos é negado. A crise climática não afeta a todos da mesma forma: ela tem cor, tem gênero e tem CEP, especialmente no cotidiano das periferias, onde falta água, justiça e dignidade. 

Vitória Abreu, psicóloga e jovem integrante do programa de formação de lideranças negras Prosseguir, moradora de Nova Iguaçu (RJ) e participante do Projeto Colmeia via Instituto Ipiranga, compartilhou sua experiência com projetos voltados para adolescentes na Baixada Fluminense. Em sua fala, deixou a reflexão: “Quando se fala que haverá falta de água, para quem será essa falta? Se minha mãe ainda hoje precisa carregar balde de água de longe”. Sua fala expõe o modo como a crise climática escancara desigualdades históricas e estruturais. A justiça climática, nesse sentido, não pode ser pensada sem considerar raça, classe, gênero e território.

Vitória Abreu no evento anual do MUDE com Elas. Foto: Webert da Cruz

Nilma Bentes, referência do movimento de mulheres negras, reforçou que “sozinho ninguém é nada”. Foi uma convocação potente a reimaginar os modos de existir e resistir, para além da lógica da razão eurocentrada e da troca. “A razão é eurocêntrica. Então, pensemos mais com o coração”, disse. Uma provocação que convida a colocar o afeto, o cuidado e a coletividade no centro das decisões.

Nilma Bentes durante fala no segundo Encontro Nacional MUDE com Elas. Foto: Webert da Cruz

A professora Rita Silvana nos lembrou: “Nós somos natureza. Quando destruímos a natureza, destruímos nós mesmos”. Uma verdade simples, mas que escapa das narrativas dominantes sobre desenvolvimento e progresso. Mais do que discursos técnicos sobre clima, o painel foi um chamado a uma escuta sensível e à ação coletiva.

Rita Silvana em sua participação no evento do MUDE com Elas em Brasília. Foto: Webert da Cruz

Entre diagnósticos e afetos, as convidadas também apontaram caminhos: é urgente criar pontes, ampliar a representatividade nos espaços de decisão, garantir que as juventudes negras estejam onde as políticas públicas são pensadas, avaliadas e implementadas. Afinal, “metade do mundo são mulheres, e a outra metade são filhos delas” — como lembrado por Nilma Bentes.

Brendaly Sampaio é jovem ativista do MUDE com Elas. Você pode saber mais sobre ela aqui.

Este conteúdo foi produzido para o MUDE com Elas, rede multiatores superando a desigualdade de gênero e raça, implementada a partir de uma parceria entre Terre des Hommes Brasil, Ação Educativa e CEERT, com cofinanciamento da Cooperação Alemã/BMZ.

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