“O que trago hoje não é apenas um conjunto de relatos, é um diagnóstico vivo, construído nos territórios.” A frase de Brena Rodrigues, jovem ativista da Rede MultiAtores MUDE com Elas e representante da Marcha das Mulheres Negras São Paulo, definiu o tom da audiência pública realizada na tarde de 24 de novembro de 2025, na Câmara dos Deputados. Ocupando a mesa principal de um plenário historicamente dominado por homens brancos, Brena e outras lideranças reivindicaram que o direito ao trabalho digno, à proteção e ao futuro deixe de ser uma promessa falha para a juventude negra.

O encontro presidido pela deputada Juliana Cardoso (PT-SP) não foi um evento isolado, mas um ato político estratégico realizado um dia antes da 2ª Marcha Nacional das Mulheres Negras. Articulada pela Rede MultiAtores MUDE com Elas — uma coalizão formada por Ação Educativa, CEERT, Terre des Hommes e outras entidades —, a audiência teve como objetivo pressionar o Legislativo e o Executivo a transformarem a escuta em política pública efetiva.
A origem: Do território para Brasília
A mobilização em Brasília é um desdobramento direto de uma articulação iniciada meses antes. Segundo Andréia Alves, assessora de advocacy da Rede, a pauta nasceu de uma reunião interministerial realizada em 25 de julho, Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha. Naquela ocasião, ficou evidente que os canais de denúncia trabalhista existentes não dialogavam com a realidade das jovens negras, que muitas vezes não sabem a quem recorrer diante do racismo e do assédio.
“A demanda não saiu de um gabinete; saiu dos territórios”, reforça a articulação do movimento. A audiência pública serviu para cobrar a continuidade desses compromissos que, segundo Andreia, “deveriam ter se desdobrado, mas não se desdobraram” na velocidade necessária.

A desigualdade em números e vivências
Para contrapor o discurso de meritocracia, a audiência foi municiada com dados concretos apresentados pelo Policy Briefing da Oxfam Brasil e pelo Observatório MUDE com Elas. Waldete Tristão, do Ceert, expôs a disparidade: no terceiro trimestre de 2024, a taxa de desemprego entre jovens negras atingiu 16% – o dobro da observada entre jovens brancos.
A precariedade se estende a quem consegue uma vaga:
- Informalidade: 40,8% das jovens negras estão na informalidade, contra 32,4% das brancas.
- Renda: Uma jovem mulher negra recebe, em média, 62% a menos do que um homem branco.
- Rotatividade: Quase 46% das jovens negras estão há menos de um ano no emprego, indicando alta rotatividade e baixa retenção.
“De que adianta fazer uma maçaroca de dados?”, questionou Bárbara Barboza, da Oxfam Brasil, citando a filósofa Sueli Carneiro. Para ela, os números precisam servir como “arma” para enfrentar desigualdades e exigir que o Estado produza dados desagregados que tirem essas jovens da invisibilidade.

Manifesto: O cuidado tem cor
Um dos pontos altos do encontro foi a distribuição do Manifesto Nacional das Jovens Negras Ativistas. O documento critica a recém aprovada Política Nacional de Cuidados (Lei nº 15.069/2024) por não estabelecer raça e gênero como marcadores prioritários.
O manifesto lembra que 69,9% de todo o trabalho doméstico e de cuidado no Brasil é realizado por mulheres negras, segundo dados do IPEA (2025). “Não se pode falar de trabalho digno sem escutar jovens negras. Não se pode falar de desenvolvimento sem considerar o impacto racial”, afirmou Brena Rodrigues.
As ativistas exigem também a revisão da Lei da Aprendizagem, apontando barreiras como critérios estéticos e territoriais racistas nos processos seletivos e a falta de efetivação após o fim dos contratos.

O silêncio dos canais de denúncia
Outro gargalo central debatido foi a ineficiência dos canais de denúncia. Gabriel Siqueira, da Ação Educativa, destacou que, em pesquisa com 80 jovens, todas relataram ter sofrido discriminação, mas poucas formalizaram a queixa. O motivo? A multiplicidade de canais (MPT, MTE, Fala.BR) gera confusão, a linguagem é distante e, pior, a maioria dos sistemas não permite identificar que a denunciante é uma jovem mulher negra.
“Ficar na discussão não leva à prática”, cobrou a jovem ativista Stheffany, exigindo campanhas de comunicação que informem a juventude periférica sobre onde e como denunciar, garantindo acolhimento e não apenas burocracia.
Presenças e ausências políticas
A audiência evidenciou quem está comprometido com a pauta. A mesa contou com representantes do Ministério da Igualdade Racial, do Ministério do Trabalho e Emprego e do Ministério Público do Trabalho, que reconheceram a necessidade de aprimorar a fiscalização e as políticas afirmativas.
No entanto, no âmbito parlamentar, a presença foi restrita. Além da proponente Juliana Cardoso, apenas a deputada Erika Kokay (PT-DF) participou ativamente, fazendo uma defesa contundente de que “o trabalho não pode ser associado ao sofrimento” e que políticas públicas precisam de interseccionalidade. A ausência massiva de outros parlamentares reforçou a crítica feita na mesa sobre a sub-representação negra nos espaços de poder.

Encaminhamentos: Um Projeto de Lei para chamar de seu
O principal resultado político do encontro foi o consenso sobre a necessidade de criar um instrumento legal específico. “Não existe, no momento, nenhum projeto de lei que interseccione, de fato, jovens mulheres negras”, pontuou Bárbara Barboza.
Como encaminhamento prático, a Rede MUDE com Elas, em parceria com os mandatos presentes, comprometeu-se a:
- Construir um Projeto de Lei (PL) focado no trabalho digno para jovens mulheres negras, abordando acesso, permanência e ascensão.
- Estabelecer um comitê intersetorial permanente entre ministérios e sociedade civil para unificar e monitorar os dados de denúncias de assédio e racismo.
- Pressionar pela inclusão explícita das jovens negras como público prioritário na implementação da Política Nacional de Cuidados.

A audiência encerrou-se com o plenário ocupado por estudantes de escolas públicas e ativistas, reafirmando que a juventude negra não está mais pedindo licença para entrar, mas sim exigindo que a estrutura do Estado se reconcilie com suas vidas.