A segunda mesa do encontro anual do MUDE com Elas, contou com a presença dos convidados Scarlett Rodrigues da Cunha – Coordenadora de Projetos de Direitos Humanos do Instituto Ethos, Mário Rogério – Diretor do Programa de Indicadores do CEERT e Carolina Gomes – Gerente de Inclusão e Diversidade na PwC Brasil, para debater sobre a temática “dos dados sobre desigualdade às práticas de superação: quais os compromissos das empresas para acesso do trabalho decente para jovens negras?”, mediada por Katiana Normandia (Kinah).
Scarlett Cunha abriu o diálogo falando sobre empregabilidade, práticas empresariais de diversidade e inclusão, e políticas públicas a partir de dados coletados na pesquisa que coordenou pelo Instituto Ethos: Perfil Social, Racial e de Gênero das 1.100 Maiores Empresas do Brasil e Suas Ações Afirmativas 2023-2024. Os dados coletados mostram que homens brancos ocupam, em sua maioria, os quadros de alta e média liderança nas empresas. Em contrapartida, a população negra está agrupada em cargos de entrada, sendo que, as funções atreladas ao quadro funcional, são ocupadas em maioria por homens negros.
No que se refere às mulheres negras, a pesquisa mostrou que 53,7% do ingresso nas empresas ocorre, majoritariamente, através de programas de trainee para cargos funcionais. Scarllet Cunha disse que “se não fossem os trainees, não existiriam espaços para que mulheres negras ocupassem as empresas”, enfatizando a necessidade de atrelar as práticas de inclusão e diversidade para garantias de direitos, e finaliza “para além do ingresso nas empresas, pensar em práticas de inclusão, saúde e bem estar, sem romantizar as táticas e estratégias de sobrevivência”.
Em seguida, Mário Rogério fortaleceu o diálogo apresentando o Relatório do MUDE com Elas em parceria com o CEERT, que analisa os dados coletados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) em 2023, que lança um olhar sobre os indicadores de acesso ao trabalho pela juventude. Mário Rogério pontuou que 57,9% das jovens negras estão à margem da precariedade do trabalho e que aproximadamente 20% das jovens negras estão empregadas.
Ainda sobre a pesquisa e dialogando com a temática do trabalho do cuidado, o relatório mostrou que uma das barreiras para o acesso e permanência de jovens negras no trabalho são os afazeres domésticos, somando mais de 93% entre 14 anos ou mais. Esta barreira ocasiona a entrada em trabalhos precarizados para compor renda, como enfatizou Mário Rogério “às vezes saem da escola e encontram trabalhos precários, com piores condições e salários. Isso é o que vive a nossa juventude, para tentar compor uma renda familiar, para tentar seguir uma vida com um pouco mais de qualidade”.
Mário Rogério frisou que as questões de raça e gênero criam barreiras para se avançar na equidade e no acesso aos direitos, sendo importante trabalhar nos dados desses indicadores para que as jovens negras sejam enxergadas, assim colaborando para a definição de lugares na sociedade para reverter as realidades de desigualdade do trabalho.
Em entrevista cedida a Rede MUDE com Elas, Mário Rogério disse que “a importância de trabalhar com o recorte de cor e raça é importante, pois só conseguimos avançar neste tema, se conseguirmos enxergar essas barreiras que atingem a juventude, para que possamos transpor elas. Se não vemos a distorção, não resolvemos a questão da juventude negra, ocasionando na perpetuação das desigualdades. Os dados possibilitam uma intervenção precisa para entender a profundidade das desigualdades, assim, construindo metas, monitorando políticas públicas, para que a sociedade civil cobre os governos da aplicação.”
Finalizando a mesa, Carolina Gomes falou sobre a importância da existência de espaços e debates que olhem para as mulheres negras, que representam o maior grupo populacional do Brasil: “É preciso garantir que as pessoas que estão entrando consigam visualizar uma jornada possível. […] que as pessoas entrem, mas também olhar se elas estão tendo condições de continuar nesses espaços e ascender”.
Sobre as estratégias de inclusão e diversidade no ambiente corporativo para que mulheres negras consigam pensar e vislumbrar lugares dentro desta estrutura, Carolina Gomes em entrevista cedida a Rede MUDE com Elas, enfatizou que as empresas precisam ter dados para entender quais são essas populações internas e quais os desafios; a partir disso, precisam de intencionalidade para que possam de fato endereçar os problemas, recursos e esforços tanto do ponto de vista do microcosmo das empresas e quanto do problema é da localidade que ela se encontra, para conseguirem movimentar todas as agendas e mudar a realidade.
Carolina Gomes disse que é importante que o poder público direcione as empresas para mostrarem as disparidades sociais entre mulheres e homens em relação ao mercado de trabalho, para que deste modo, elas se mobilizem com maior celeridade e assertividade conforme o contexto social que o Brasil enfrenta.
Em entrevista cedida a Rede MUDE com Elas, Carolina Gomes enfatizou as colocações da mesa e pontuou que a Pandemia da Covid-19 escancarou as desigualdades sociais e a necessidade de um olhar intersetorial e social para o acesso e permanência do trabalho para jovens negras: “A gente precisa da união dos poderes, da sociedade civil, iniciativa privada, unida em prol dessa mudança. Mais do que oferecer formação, é preciso que haja a possibilidade de inserção no trabalho para perspectivas de futuro para que essas pessoas consigam fazer um projeto de mudança na sua realidade”.
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Este conteúdo foi produzido para o MUDE com Elas, rede multiatores superando a desigualdade de gênero e raça, implementada a partir de uma parceria entre Terre des Hommes Brasil, Ação Educativa e CEERT, com cofinanciamento da Cooperação Alemã/BMZ.