Entre a precarização do trabalho e a violação do direito à moradia

Por Teresa Cristina
Compartilhe:
Webinário da Rede Multiatores MUDE com Elas discute como a precarização do trabalho e a negação do direito à moradia se entrelaçam, afetando especialmente a vida de jovens negras nas periferias. A partir de dados e pesquisas, especialistas abordam violações cotidianas, insegurança habitacional e desafios para a permanência no mundo do trabalho.

No dia 21 de maio, a Rede Multiatores MUDE com Elas realizou o I Webinário do Grupo de Trabalho Observatório, transmitido ao vivo pelo canal do YouTube do projeto. O encontro marcou o lançamento do site-repositório da rede e de dois estudos inéditos desenvolvidos pelo CEERT (Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades), organização que integra o grupo executivo da rede ao lado da Ação Educativa e da Terre des Hommes.

Com mediação da jornalista e jovem ativista Kali Rodrigues, o debate abordou a realidade das jovens negras no Brasil e, especialmente, em São Paulo, com foco em trabalho e moradia. Participaram como convidadas as pesquisadoras Adriana Dantas, autora do livro As escolas privadas da periferia: uma análise decolonial; Lorrana Nascimento, da Coordenação Político-Pedagógica da Rede Nacional de Cursinhos Populares Podemos +; e Marilane Teixeira, economista do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit).

A escritora e pesquisadora Waldete Tristão, do CEERT, abriu o webinário com uma apresentação interativa do novo site do Observatório, que reúne materiais produzidos pela rede, além de uma curadoria de livros, textos e vídeos que aprofundam os conteúdos de pesquisa.

“O objetivo é dar subsídios para a reflexão e incidência política, para que a juventude negra se emancipe na luta por um mercado de trabalho mais justo e inclusivo”, destacou Waldete.

O site é um espaço dinâmico, que será constantemente atualizado pelo GT Observatório com novos estudos, guias e outros materiais.

Dois estudos inéditos

Entre os conteúdos já disponíveis, destacam-se os estudos recém-lançados:

“As duas pesquisas se complementam e permitem uma compreensão mais ampla da realidade vivida pelas jovens mulheres negras”, explicou Mário Rogério, diretor de Indicadores do CEERT, que apresentou os estudos durante o webinário.

Mulheres negras no topo da precariedade

“Quem está ficando de fora das oportunidades de trabalho?”, provocou Mário logo no início de sua apresentação.

A resposta, embora conhecida, segue alarmante: jovens negras ocupam a base da pirâmide social e enfrentam as maiores taxas de desemprego e subutilização da força de trabalho no país. Mulheres pretas e pardas de 15 a 29 anos representam, por exemplo, 45,2% de todos os jovens que nem estudam nem trabalham.

A desigualdade também se expressa na renda média: em São Paulo, jovens negras recebem, em média, R$ 2.278, enquanto jovens brancos ganham R$ 4.022.

Quando o tema é precariedade — que inclui vínculos temporários, sublocação, informalidade e salários inferiores ao mínimo —, elas lideram com 57,9%. Em seguida, aparecem jovens negros (46,8%), mulheres brancas (35,8%) e homens brancos (34,7%).

A desigualdade se repete na moradia. “Nas cidades brasileiras, as famílias de baixa renda se concentram em áreas com pouca infraestrutura e serviços ambientais básicos. Grande parte desses domicílios é chefiada por mulheres”, explicou Mário Rogério.

Segundo o estudo, famílias negras vivem majoritariamente em aglomerados subnormais: regiões com padrão urbanístico irregular, poluição concentrada, carência de serviços públicos essenciais e exposição a riscos ambientais.

“É o racismo institucional e ambiental que gera impactos desiguais justamente nos territórios onde se concentram as famílias mais pobres, pessoas negras, indígenas e quilombolas”, concluiu Mário.

Cuidado não remunerado e desigualdades persistentes

Adriana Dantas destacou como o processo de colonização e a imigração forçada de pessoas negras, especialmente após o fim da escravização, resultaram em uma territorialização desigual. Segundo ela, a questão da terra é fundamental para compreender os efeitos que ainda perduram desde a colonização.

Ela apontou que essa desigualdade se reflete diretamente na posição ocupada pelas jovens negras no mercado de trabalho, observando que quem mora em áreas precárias tende a ter menos acesso à educação de qualidade e, consequentemente, acaba ocupando os piores postos de trabalho.

Para Adriana, o mais preocupante é que essa conjuntura se mantém praticamente inalterada, reforçando a necessidade de compreender a raiz do problema.

Marilane Teixeira reforçou a análise e chamou atenção para a divisão sexual e racial do trabalho. Apesar das transformações no mercado ao longo do tempo, as mulheres — sobretudo as negras — seguem concentradas em atividades de cuidado, frequentemente precarizadas.

Complementando o pensamento, Lorrana Nascimento, que atua em cursinhos populares, destacou que o cuidado não remunerado é uma das principais causas de evasão escolar entre mulheres negras. Segundo ela, muitas meninas precisam abandonar a escola para cuidar dos filhos, de um avô ou de outro parente, dedicando-se integralmente às tarefas domésticas.

Os dados e relatos apresentados no webinário deixam claro que as desigualdades enfrentadas pelas jovens negras no Brasil não são falhas isoladas, mas expressões de um sistema que ainda naturaliza a exclusão e precariza vidas desde a infância. O desafio que se impõe não é apenas o de produzir novos diagnósticos, mas o de transformar radicalmente as estruturas que sustentam essa realidade, garantindo que as futuras gerações não herdem os mesmos limites impostos às de hoje.

Acesse o site do observatório e conheça os estudos: https://mudecomelas.org.br/

Assista o webinário na íntegra no canal do Youtube do MUDE com Elas.

Este conteúdo foi produzido para o MUDE com Elas, rede multiatores superando a desigualdade de gênero e raça, implementada a partir de uma parceria entre Terre des Hommes Brasil, Ação Educativa e CEERT, com cofinanciamento da Cooperação Alemã/BMZ.

Compartilhe:

Teresa Cristina

Jornalista educomunicadora.

Teresa Cristina

Jornalista educomunicadora.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

plugins premium WordPress