O encontro “Em marcha pelo Bem Viver: diálogos sobre juventudes negras e o trabalho de cuidado”, promovido pelo Em Movimento em parceria com a Rede MultiAtores MUDE COM ELAS, reuniu pesquisadoras, gestoras públicas e ativistas, no dia 19 de setembro, no auditório da Ação da Educativa, em São Paulo, para discutir um dos temas mais urgentes da agenda social: o cuidado.
Realizado dentro da programação da Marcha de Mulheres Negras pelo Bem Viver, o debate revelou como essa atividade, essencial para a sustentação da vida coletiva, continua invisibilizada e recai de forma desproporcional sobre as mulheres negras jovens, que enfrentam tanto a exclusão escolar quanto a precarização da informalidade. Ignorar esse recorte racial e geracional na formulação de políticas públicas significa perpetuar desigualdades históricas.
Nesse cenário, a juventude negra feminina reivindica o direito de disputar o sentido do cuidado como categoria política. A Marcha de Mulheres Negras se afirma como espaço insurgente onde essas jovens — muitas delas também mães — constroem suas próprias narrativas e redes de apoio. Mais do que garantir a sobrevivência, projetam dignidade, autonomia e um horizonte coletivo que transforma o cuidado em força de mudança social.

O mundo do trabalho apareceu como um dos campos mais sensíveis dessa disputa. Foi exposta a contradição entre a retórica empresarial de inclusão e a realidade da exploração cotidiana. A provocação da assessora executiva do Fundo Agbara, Alana Moriel, ao questionar “quem lucra com quem lacra?”, sintetizou a crítica à filantropia corporativa que capitaliza discursos de diversidade sem garantir permanência, direitos ou oportunidades reais. A exigência, nesse ponto, vai além da representatividade: trata-se de cobrar redistribuição de recursos, responsabilização social e criação de caminhos concretos de empregabilidade para as mulheres negras, historicamente posicionadas na base da pirâmide econômica.
A Marcha de Mulheres Negras também ressignificou o cuidado como prática de resistência, deslocando-o da ideia de obrigação imposta para afirmá-lo como horizonte político de transformação. O conceito de bem viver não surge como promessa abstrata, mas como teoria de mudança enraizada nos territórios, nas periferias e nas redes comunitárias que já sustentam a juventude negra no cotidiano. Nesse sentido, a Marcha ultrapassa o gesto simbólico e se consolida como projeto político coletivo, capaz de articular memória, identidade e futuro — como destacou a jovem ativista Brena Rodrigues.
Pensar o cuidado, como mostrou o encontro, é discutir como o país organiza a vida e distribui oportunidades. Colocar a juventude negra no centro desse debate é reconhecer que ela não apenas resiste, mas inventa novos caminhos. Isso exige políticas públicas que incorporem a realidade racial e geracional, compromissos concretos das empresas e valorização das redes culturais e comunitárias que já atuam como espaços de proteção e aprendizado.
O Brasil que a Marcha de Mulheres Negras anuncia não é uma utopia distante: é uma convocação para o agora. A juventude negra, sobretudo as mulheres, já constrói esse país em cada gesto de resistência, em cada rede de apoio, em cada passo que transforma o cuidado em potência política.

Além de Alana Moriel, Brena Rodrigues, o evento teve a participação da secretária nacional de cuidado e famíla do Ministério de Desenvolvimento Social Laís Abramo, a diretora-geral do coletivo Delas Tálita Vitória e da pesquisadora em antropologia social Jaqueline Santos, com mediação da secretária executiva do Em Movimento Larissa Fontana. O encontro teve um encerramento cultural com a presença da poeta, slamer e MC Aflordecente e o coletivo Baile Arruda, resistência cultural da Zona Leste de São Paulo.