Documento orienta as organizações empregadoras a promover a inclusão de jovens negras no mundo do trabalho
Com sala cheia na Associação dos Advogados de São Paulo (AASP), a Rede Multiatores MUDE com Elas lançou, no último dia 5 de junho, o Guia Antirracismo e Antimachismo MUDE com Elas, elaborado pelo CEERT (Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades) e voltado à organizações empregadoras comprometidas com diversidade, equidade e inclusão. O documento sistematiza conceitos, práticas e estratégias fundamentais para que empresas deixem de apenas “letrar” e passem a incorporar, de forma fluente, políticas antirracistas no cotidiano corporativo.
A atividade reuniu representantes de empresas, organizações da sociedade civil e integrantes da Rede Multiatores. A facilitação foi conduzida por Winnie Santos, coordenadora de projetos do CEERT, que destacou a importância do guia como instrumento de transformação concreta e diálogo entre juventudes negras e setor privado.
A mesa de abertura contou com Shirley Santos (CEERT), Fernanda Nascimento (Ação Educativa) e Angela Schwengber (Terre des Hommes Alemanha), parceiras na implementação do projeto. Em sua fala, Angela reforçou que o guia é parte da segunda fase do projeto MUDE com Elas, focada no diálogo com empresas: “Que o Guia não seja um documento para se guardar na gaveta, mas um material orientador para a mudança que queremos ver no setor privado”.
A apresentação do guia foi feita pela psicóloga social e escritora Júlia Rosemberg, responsável pela organização do material. “O Guia parte de uma base teórica sólida, mas é prático: traz conceitos essenciais, glossário, indicadores e boas práticas. É um exercício de reflexão contínuo e engajamento com a juventude negra”, afirmou.

Júlia destacou que mulheres negras jovens continuam sendo as últimas a entrar e as primeiras a sair das empresas. Segundo ela, essa exclusão é alimentada por uma cultura organizacional que ainda não garante pertencimento, acolhimento e crescimento profissional: “Não adianta contratar se não há ambiente onde essas mulheres possam permanecer e se desenvolver”.
Thais Nascimento, coordenadora de programas no GIFE (Grupo de Institutos Fundações e Empresas) e especialista em diversidade e equidade racial, foi convidada a comentar o documento. Para ela, o guia cumpre um papel crucial: “Passamos a ter um mecanismo concreto pra dizer: ‘Olha, você tem por onde começar’. A partir daí, as organizações precisam reconhecer suas fragilidades e buscar quem está habilitado a conduzir esses processos”.
Thais pontuou que a equidade não se resume à presença de pessoas negras nas empresas, mas exige mudança de estrutura e cultura: “Muitas vezes, a pessoa negra entra e vira o símbolo da diversidade, mas não é promovida, não é reconhecida. Isso mostra que a organização ainda prefere olhar para nossas ausências do que para nossas potências”.
Ela também destacou que não há transformação sem desconforto. Contratar pessoas negras, sobretudo para cargos de liderança, implica desafiar padrões e resistências. “É preciso estar preparado para lidar com os incômodos que surgem — tanto das lideranças quanto das próprias pessoas negras.”
O momento de perguntas do público foi aberto por Tânia Silva, coordenadora de gestão de fornecedores da Vivo e líder de diversidade no Vivo Afro. Em entrevista após o evento, Tânia reforçou que o guia tem potencial para apoiar empresas que ainda não sabem por onde começar: “Ele é prático, didático, mostra o caminho. É um roteiro para estruturar políticas de diversidade e começar de fato a medir o que se está fazendo”.
Tânia também chamou atenção para um ponto menos debatido, mas urgente: a diversidade na cadeia de fornecedores. Mesmo empresas que avançam na pauta internamente enfrentam dificuldades ao contratar terceiros com o mesmo compromisso. “A maioria dos fornecedores nem está habituada a esse tipo de cobrança. Temos que fomentar empresas diversas, apoiar negócios de pessoas negras, mulheres, LGBTQIAPN+. Só assim a diversidade se amplia de verdade.”
Ao fim do encontro, ficou o convite para que empresas não apenas leiam o guia, mas se comprometam com as mudanças propostas. O documento está disponível gratuitamente e é um passo decisivo para que a equidade racial e de gênero deixe de ser discurso e se torne prática estruturante no mundo do trabalho.
Acesse o Guia Antirracista e Antimachista MUDE com Elas clicando aqui.
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Este conteúdo foi produzido para o MUDE com Elas, rede multiatores superando a desigualdade de gênero e raça, implementada a partir de uma parceria entre Terre des Hommes Brasil, Ação Educativa e CEERT, com cofinanciamento da Cooperação Alemã/BMZ.