Até cansar o cansaço. Até que vire do avesso. Até um novo começo.
Juliana Linhares (2026)
Estudar, trabalhar e cuidar. Esta é a tríade que conduz as trajetórias de vida de muitas jovens mulheres negras no Brasil, como aponta a pesquisa “Indicadores da situação de jovens negras no mercado de trabalho (2016-2024)”, realizada pela Rede Multiatores Mude com Elas, que revela como a sobrecarga dos afazeres domésticos e do trabalho de cuidado não remunerado recai desproporcionalmente sobre as jovens mulheres negras, comprometendo seus estudos e o acesso ao mercado de trabalho formal.
Esta sobrecarga de trabalho faz parte de uma complexa realidade de mulheres negras no Brasil, que são afetadas pelo que Cida Bento (2022) chama de pacto narcísico da branquitude. Este pacto silencia desigualdades raciais e promove a exclusão sistemática de mulheres negras de cargos de prestígio. Os dados são assustadores: segundo os relatórios do Mude com Elas (baseados na PNAD Contínua), as jovens mulheres negras dedicam, em média, 19 horas semanais a afazeres domésticos e tarefas de cuidado — praticamente o dobro do tempo gasto por jovens homens brancos. Além disso, 42% das jovens negras no mercado de trabalho estão na informalidade e sua renda média é cerca de 48% menor que a de jovens brancos.
No entanto, a irresponsabilidade privilegiada (Tronto, 1993) de homens brancos dirigentes dos Estados mantém uma desigual distribuição das tarefas de cuidados na sociedade brasileira e uma ineficiência das políticas públicas em garantir creches; Instituições de Longa Permanência de Idosos (ILPIs) de qualidade; lavanderias coletivas; cozinhas populares; e tempo para realização de atividades domésticas de reprodução social (limpar, lavar, cozinhar, cuidar, etc.). É urgente repensar a divisão das responsabilidades de cuidados. É preciso um plano de práticas democráticas de cuidados que libere muitas jovens mulheres negras da sobrecarga que afeta suas trajetórias de formação e profissionalização.
As políticas afirmativas em universidades e no mercado de trabalho devem vir acompanhadas de um plano de democratização dos cuidados, que coloque as jovens mulheres negras no centro de políticas públicas específicas, considerando seus territórios e suas condições de classe, impulsionando a corresponsabilização pelo trabalho doméstico e de cuidados na sociedade brasileira. É urgente que o Estado e seus dirigentes estejam ao lado dessas jovens na linha de frente do combate às desigualdades e na luta pela democratização dos cuidados.
Estudar e trabalhar produz cansaço. Chegar em casa, cuidar e realizar trabalhos domésticos cansa o cansaço, exaure as forças e as potencialidades criativas das juventudes. Assim, o Estado, o mercado de trabalho e a sociedade em geral perdem talentos, empobrecem a inovação e privam as instituições de uma pluralidade real de visões e soluções, como pondera Cida Bento (2022). É preciso reconhecer que formamos uma rede de interdependência de cuidados, cuidamos e somos cuidadas o tempo todo, por isso, as responsabilidades devem ser compartilhadas. É urgente acabar com o privilégio de alguns e a sobrecarga de outras no cuidado intergeracional.
Referências
AÇÃO EDUCATIVA; CEERT. O Preço da Maternidade para Jovens Negras: trajetórias interrompidas pelas desigualdades raciais. São Paulo: Ação Educativa; CEERT; Terre des Hommes, 2026. Disponível em: https://www.ceert.org.br/public/57 . Acesso em: 21 jul. 2026.
AÇÃO EDUCATIVA; CEERT. Ocupar o Futuro: jovens mulheres negras e o trabalho na cidade de São Paulo. São Paulo: Ação Educativa; CEERT; Terre des Hommes, 2024. Disponível em: https://mudecomelas.org.br/biblioteca/1. Acesso em: 21 jul. 2026.
AÇÃO EDUCATIVA; CEERT. Relatório MUDE com Elas: Indicadores com base nos microdados da Pnad Contínua (IBGE). São Paulo: Ação Educativa; CEERT; Terre des Hommes Alemanha, 2025. Disponível em: https://mudecomelas.org.br/biblioteca/1. Acesso em: 21 jul. 2026.
BENTO, Cida. O pacto da branquitude. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.
TRONTO, Joan. Moral Boundaries : a political argument for an ethic care. London, Routledge, 1993.
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Este conteúdo foi produzido para o MUDE com Elas, rede multiatores superando a desigualdade de gênero e raça, implementada a partir de uma parceria entre Terre des Hommes Brasil, Ação Educativa e CEERT, com cofinanciamento da Cooperação Alemã/BMZ.