Juventudes em Ação: vozes lusófonas unidas para a COP 30
Por Victor Medeiros – Puro Ouro Verde
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Saiba como o Congresso Internacional da CPLP em Manaus reuniu vozes da lusofonia e resultou na construção da Carta de Manaus, fortalecendo o papel da educação ambiental e da justiça climática.
Heranças ambientais: os erros que precederam qualquer conferência
Muito antes de qualquer conferência global sobre o clima ou da assinatura de protocolos internacionais, o planeta já acumulava cicatrizes profundas deixadas por décadas — e em alguns casos, séculos — de exploração predatória dos recursos naturais. O modelo industrial baseado no lucro imediato, somado à ausência de regulamentações ambientais efetivas, criou um rastro de tragédias humanas, ecológicas e econômicas.
Casos emblemáticos ilustram como a degradação ambiental não é fruto do acaso, mas resultado direto de escolhas políticas e econômicas: o desastre nuclear de Chernobyl (1986), na antiga União Soviética, expôs milhões de pessoas à radiação e contaminou vastas áreas por gerações; a baía de Minamata, no Japão, sofreu contaminação por mercúrio a partir da década de 1950, envenenando milhares de pessoas e levando a um dos piores episódios de intoxicação industrial já registrados; e o derramamento de petróleo no Golfo do México (2010), provocado pela explosão da plataforma Deepwater Horizon, despejou quase 5 milhões de barris de petróleo no mar, devastando ecossistemas costeiros e arruinando economias locais dependentes da pesca e do turismo.
No Brasil, os impactos seguem o mesmo padrão de descaso ambiental. O rompimento das barragens da Samarco, em Mariana (2015), e da Vale, em Brumadinho (2019), liberou milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração, destruindo comunidades inteiras, poluindo rios e ceifando centenas de vidas.
Catástrofe socioambiental provocada pelo rompimento de barragem da mineradora Vale em Brumadinho (MG) no ano de 2019 (Crédito: Ibama)
Além disso, a contaminação por mercúrio em rios da Amazônia, associada ao garimpo ilegal, ameaça populações ribeirinhas e indígenas, enquanto rios urbanos como o Tietê e o Pinheiros permanecem, há décadas, como símbolos da poluição crônica e da falta de políticas públicas de saneamento.
Segundo estudo publicado na Revista Estudos Avançados (USP), “essas problemáticas decorrem, em sua maioria, de ações antrópicas baseadas em modelos de desenvolvimento que não consideram a capacidade de regeneração dos ecossistemas”.
Distrito de Bento Rodrigues, em Mariana (MG), atingido pelo rompimento de duas barragens de rejeitos da mineradora Samarco (Crédito: Antônio Cruz/Agência Brasil)
O que é a COP e por que ela surgiu
Com o avanço das evidências científicas sobre as mudanças climáticas a partir dos anos 1980, cresceu a pressão internacional para que os países buscassem respostas conjuntas. Essa mobilização culminou, em 1992, na criação da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC), durante a Cúpula da Terra no Rio de Janeiro — marco histórico que estabeleceu a base legal para que as nações cooperassem na mitigação do aquecimento global.
Três anos depois, em 1995, ocorreu em Berlim (Alemanha) a primeira Conferência das Partes (COP), reunião anual que se consolidou como o principal fórum global para negociações climáticas. Nela, representantes de governos, cientistas, organizações internacionais, movimentos sociais, povos indígenas e ativistas ambientais discutem compromissos concretos para conter o avanço das emissões de gases de efeito estufa.
Entre os marcos alcançados nesse espaço, estão o Protocolo de Kyoto (1997), primeiro acordo a definir metas obrigatórias de redução de emissões para países desenvolvidos, e o Acordo de Paris (2015), que estabeleceu como meta global limitar o aumento da temperatura média do planeta a 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais.
Mais do que um espaço para diplomacia climática, a COP se tornou também palco de disputas políticas, reivindicações por justiça climática e visibilidade de territórios ameaçados — especialmente de países e comunidades que sofrem os efeitos mais severos do aquecimento global, mas têm pouca responsabilidade histórica pelas emissões. Como resume o portal Sumaúma:
“A COP é o lugar onde se decide o futuro climático do planeta, e ignorá-la é ignorar o impacto que as mudanças climáticas têm no nosso cotidiano, na economia, na saúde e no direito à vida.”
Agora, em 2025, o Brasil se prepara para sediar um dos eventos mais emblemáticos da sua trajetória ambiental: a COP 30, que ocorrerá em Belém do Pará. É a primeira vez que uma Conferência das Partes da UNFCCC será realizada na Amazônia, região que representa tanto a riqueza natural quanto os conflitos ecológicos do nosso tempo.
A escolha de Belém não é meramente geográfica — a cidade simboliza a intersecção entre floresta, rios, povos tradicionais e zonas urbanas em processo de transformação. Assim, sediar a COP 30 na Amazônia revela a intenção, ainda que ambivalente, de reposicionar o país como protagonista nas negociações climáticas globais.
Obras do Parque da Cidade, espaço que sediará a programação da COP30 (Crédito: Ricardo Stuckert/PR)
Apesar de sua relevância diplomática, a logística traz desafios inéditos. A cidade dispõe de pouca infraestrutura hoteleira, com tarifas que chegam a ultrapassar US$ 700 por noite e um número limitado de leitos — situação que levou o Brasil a alugar cruzeiros e criar soluções alternativas para acomodar participantes de países em desenvolvimento. Esses obstáculos geram preocupações sobre a exclusão de atores fundamentais, como ONGs e representantes indígenas.
Em paralelo aos debates oficiais, movimentos sociais da Amazônia intensificam sua presença. Em julho, foi realizada a ação do “Mutirão dos Povos” em frente à futura Blue Zone, com a divulgação da Declaração “A Resposta Somos Nós” — documento que reivindica a cogovernança, a demarcação de territórios, o fim da exploração extrativista e financiamento climático direto para comunidades indígenas e tradicionais. Além disso, o VIII Congresso Internacional dos Países de Língua Portuguesa, realizado em Manaus, reuniu acadêmicos, gestores públicos e representantes da sociedade civil para debater a cooperação ambiental e alinhar propostas a serem apresentadas durante a COP 30.
Outro aspecto marcante tem sido a construção de cartas, ofícios e manifestos por universidades, coletivos científicos, movimentos sociais e povos indígenas, todos com a intenção de serem lidos ou entregues durante a COP. Esses documentos buscam influenciar diretamente as negociações oficiais, reforçando a importância da participação ativa de quem vive na Amazônia e sofre os impactos mais diretos das mudanças climáticas.
O evento também será marcado por compromissos estruturais. A antecipada Cúpula de Chefes de Estado será realizada nos dias 6 e 7 de novembro de 2025, estabelecendo o tom político do encontro.
Convidadores como a UFPA e instituições amazônicas também lançam iniciativas como o movimento “Ciência e Vozes da Amazônia”, que busca garantir participação ativa dos atores locais nas negociações climáticas. Outra expectativa relevante gira em torno do lançamento do Tropical Forest Forever Facility (TFFF), um fundo global para conservação de florestas tropicais que o Brasil pretende apresentar na COP 30.
VIII Congresso Internacional dos Países de Língua Portuguesa: uma ponte para a COP 30
A preparação para a COP 30, sediada em Belém, encontra no VIII Congresso Internacional de Educação Ambiental dos Países e Comunidades de Língua Portuguesa, realizado entre 21 e 25 de julho em Manaus, um espaço estratégico de articulação pedagógica e política. O congresso funcionou como um ponto de conexão entre os debates globais da COP e as experiências locais de educação ambiental, fortalecendo a voz de atores sociais, acadêmicos e comunidades tradicionais da lusofonia.
A iniciativa foi organizada pela RedeLuso, em parceria com o Ministério do Meio Ambiente e da Mudança do Clima, Ministério da Educação, Governo do Estado do Amazonas, Secretaria de Estado de Educação e Desporto Escolar do Amazonas, Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Amazonas e Fundação Matias Machline.
Área de exposição de bandeiras, confeccionadas a mão, por múltiplos grupos e organizações (Crédito: Victor Medeiros/@vk.gmcg)
O evento reuniu mais de 1,6 mil participantes de dez países, com representações de governos, universidades, movimentos sociais, organizações da sociedade civil e comunidades tradicionais. Com o tema “Educação ambiental e ação local: respostas à emergência climática, justiça ambiental, democracia e bem viver”, o congresso contou com painéis temáticos, oficinas, minicursos, conferências, apresentações de trabalhos científicos, pôsteres, visitas a comunidades locais e atividades culturais que valorizam a sociobiodiversidade amazônica.
Stands das organizações (Crédito: Victor Medeiros/@vk.gmcg)
Entre os destaques, esteve a participação da ministra do Meio Ambiente e da Mudança do Clima, Marina Silva, na sessão oficial (21/07) e na cerimônia de abertura (22/07)
Abertura da Conferência, com a Ministra Marina Silva (Crédito: Karen Almeida/@karenbritoal)
Mais do que um encontro acadêmico, o congresso se consolidou como espaço de articulação política da educação ambiental, reunindo vozes e territórios da lusofonia. Durante o evento, foi construída a Carta de Manaus, documento político-pedagógico que aborda compromissos internacionais, políticas públicas de educação ambiental, participação de comunidades tradicionais e justiça climática global e local.
Outra iniciativa de destaque foi a Carta das Juventudes Lusófonas, elaborada paralelamente, que reuniu contribuições de jovens de diferentes países de língua portuguesa. Carta essa que servirá como referência e mobilização para a participação das juventudes na COP 30. Na próxima publicação, você vai conhecer em detalhes o processo de construção dessa carta e como ela fortalece o protagonismo juvenil nas agendas climáticas globais.
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