Em celebração ao Dia Mundial dos Oceanos, a cidade de Bissau foi palco da 1ª Conferência Nacional sobre Piscicultura Sustentável, promovida pela empresa Mané Nanque Piscicultura. O evento aconteceu no Centro Cultural Franco-Bissau-Guineense e reuniu mais de duas centenas de participantes, entre jovens, pescadores, especialistas ambientais nacionais e internacionais, académicos e representantes institucionais, num momento inédito de reflexão e partilha de saberes sobre o futuro da aquicultura na Guiné-Bissau.
Com o tema “Piscicultura sustentável na Guiné-Bissau: sustentando o que nos sustenta” o encontro teve como principal objetivo promover a piscicultura sustentável como uma ferramenta estratégica para o desenvolvimento socioeconómico e conservação marinha, através de uma jornada nacional de reflexão e formulação de recomendações.
Painéis temáticos e temas abordados
O público assistiu a quatro painéis temáticos que, dentre vários, abordaram assuntos centrais como:
✔ Desafios de gestão de recursos hídricos na Guiné Bissau
✔ Aquicultura como estratégica para conservação da biodiversidade aquática ✔ O papel da piscicultura na adaptação às mudanças climáticas
✔ Industrialização de tilápia: agregação de valores para uma cadeia emergente da piscicultura moderna na Guiné Bissau
✔ Direito internacional do mar em resposta aos desafios de combate à pesca ilegal (INN)
✔ Cultivo de tilápia (Oreochromis niloticus) em sistema intensivo de água alcalina
✔ Piscicultura sustentável na África Ocidental: caminhos para a segurança alimentar e a resiliência climática
Chamado à ação: juventude, mar e justiça climática
Segundo o CEO da Mané Nanque Piscicultura, Dembo Mané Nanque, o evento foi mais que uma celebração:
“Neste dia Mundial dos Oceanos, não estamos apenas a celebrar, estamos aqui para denunciar, alertar e reconstruir uma consciência coletiva. Os oceanos não são apenas paisagens bonitas, são vidas, resistências e território ancestral”.

Dembo destacou a importância da juventude guineense como força ativa na construção de políticas públicas ambientais:
“A juventude guineense não aceita mais ser um simples telespetador. Queremos ser protagonista de uma nova relação com o mar; queremos políticas públicas que respeitem o clima com ações concretas; queremos educação ambiental nas escolas de formas séria e o investimento no setor de piscicultura, proteção dos mangais, respeito pelas tartarugas marinhas”.
Ele finalizou com uma crítica contundente à ausência do governo no evento:“Somente na Guiné Bissau que é aceitável uma iniciativa desta dimensão sem ter a presença do governo, mas não vamos dar trégua.”.
Especialistas e experiências internacionais
Durante as sessões, foi reforçada a importância da piscicultura como ferramenta de combate à insegurança alimentar e como alternativa viável à pesca intensiva, que ameaça os ecossistemas marinhos. Especialistas alertaram para a necessidade de políticas públicas consistentes e de investimentos em formação técnica. Foram partilhadas experiências de sucesso em países africanos com contextos socioeconómicos semelhantes, reforçando a ideia de que a piscicultura sustentável pode ser uma ferramenta eficaz de combate à pobreza, à desnutrição e à degradação ambiental.
Durante a exposição sobre os desafios na gestão de recursos hídricos, o engenheiro ambiental Hans Queta destacou: “Água é um recurso finito, independentemente do ponto geográfico. É necessário usá-la de forma sustentável.”. Ele ainda aponta questões que intensificam as dificuldades: “O crescimento populacional, falta de planificação, urbanização e falta de redes de esgotos contribuem negativamente no sistema de abastecimento de água. As construções nas zonas úmidas sem esgotos levam resíduos para o mar afetando a vida marinha e consequentemente, a diminuição de água”

Ao longo da conferência houve debate entre plateia e os oradores, bem como a sessão de perguntas e respostas a dúvidas dos participantes que permitiu uma interação calorosa, e com certeza, foi o cúmulo do evento.
O evento também contou com momentos culturais, com a performance poética dos poetas e slamers de uma forma estratégica para animar os participantes.
A empreendedora e embaixadora do projeto Puder di Bentana, Inocência Balbina Pinto Monteiro, destacou em sua fala:“É uma honra participar desta iniciativa brilhante que liga o mar à economia, sustentabilidade e inclusão social. O Dia Mundial dos Oceanos é mais que uma data simbólica, é um convite à ação. Não queremos o mar como um recurso, mas como uma parte vital da nossa sobrevivência.”

O evento foi amplamente elogiado por participantes e observadores, sendo considerado um importante passo rumo à valorização do potencial aquícola da Guiné-Bissau e à promoção de uma economia azul sustentável no país.
A conferência encerrou com o compromisso de elaboração de um documento de recomendações, que será submetido ao governo e parceiros de desenvolvimento, com propostas concretas para o reforço institucional, financeiro e técnico do setor.