Eleições 2026: Jovens negras e periféricas lançam manifesto

Por Redação AJN
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Construído a partir de escuta com as juventudes, documento das jovens ativistas da Rede Multiatores MUDE com Elas cobra metas orçamentárias nos primeiros 100 dias de mandato de candidaturas ao Executivo e Legislativo.

Não aceitar o lugar de plateia nem ser reduzida a mero voto de quatro em quatro anos. Com essa premissa política, as jovens ativistas da Rede Multiatores MUDE com Elas apresentaram no último dia 2 de setembro o documento “Juventudes Negras e Periféricas por Direitos, Trabalho Digno, Cuidado e Bem Viver: Agenda de compromissos para candidaturas e mandatos nas Eleições 2026”.

O lançamento ocorreu durante a plenária do Encontro Nacional da rede multiatores e marcou o início da incidência direta das jovens sobre as chapas que disputam os poderes Executivo e Legislativo neste pleito.

O manifesto é fruto de uma formulação coletiva iniciada em 8 de julho, no encontro Juventudes no Corre: da quebrada às urnas, que reuniu dezenas de adolescentes e jovens na capital paulista ao lado da ativista Débora Dias. As vivências compartilhadas no evento — marcadas por jornadas exaustivas, racismo institucional e falta de creches — foram organizadas em reivindicações concretas de formulação orçamentária e jurídica.

Durante a leitura do documento no encontro nacional, a jovem ativista Julia Mendes sintetizou a urgência da agenda e cobrou maturidade das forças políticas:

“Se as jovens negras já estão organizadas dizendo quais são as suas demandas e os seus direitos, o que ainda falta para que isso vire prioridade real nas políticas públicas?”

As quatro urgências do manifesto

A plataforma sistematiza reivindicações estruturais distribuídas em quatro eixos centrais:

  • Aprendizagem profissional com perspectiva de futuro: defesa da Lei de Aprendizagem como porta de entrada protegida, exigindo fiscalização rigorosa contra o desvio de função e a substituição de mão de obra adulta por aprendizes precarizados. O texto também cobra a aplicação efetiva da NR-1 na prevenção de riscos psicossociais e estratégias de transição para contratos formais estáveis após o período de formação.
  • Canais de denúncia seguros e autônomos: criação e fortalecimento de mecanismos públicos e independentes das empresas denunciadas para acolher casos de racismo, sexismo, assédio moral e sexual e LGBTfobia. O movimento defende apoio explícito ao Projeto de Lei nº 1.070/2025, em tramitação na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), que prevê proteção a quem denuncia para coibir retaliações e demissões sumárias.
  • Política de cuidados com recorte racial: garantia de creches públicas, escolas em tempo integral e cuidotecas nos bairros periféricos, reconhecendo que a sobrecarga do trabalho doméstico e do cuidado com dependentes não remunerado recai massivamente sobre meninas e mulheres negras, forçando a evasão escolar e profissional. No âmbito federal, a agenda pressiona pela aprovação do Projeto de Lei nº 2.340/2026, que altera a recém-criada Política Nacional de Cuidados (Lei 15.069/2024) para incluir explicitamente jovens mulheres negras como público prioritário.
  • Saúde mental pública no território: ruptura com a visão individualizante do sofrimento psíquico juvenil, apontando a relação direta entre precarização da vida, jornadas abusivas e adoecimento mental. O documento reivindica a ampliação de recursos para os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e serviços territoriais do SUS, livres de racismo, criminalização e estigma.

Compromisso no papel e no orçamento

Diferente de cartas de intenções genéricas, a agenda estipula compromissos vinculantes para os dois poderes. Para o Executivo, exige-se o detalhamento de metas executivas nos primeiros 100 dias de governo, destinação de recursos nas leis orçamentárias anuais e prestação periódica de contas com participação direta de jovens periféricas. Já para o Legislativo, a cobrança se concentra na destinação de emendas parlamentares às quatro áreas e no enfrentamento rigoroso a projetos que precarizem ainda mais as relações de trabalho da juventude.

A deputada federal e candidata à reeleição Juliana Cardoso e a candidata à deputada estadual Neon Cunha acompanharam o lançamento do manifesto e fizeram falas apoiando a iniciativa das jovens ativistas da rede MUDE com Elas.

Acesse o manifesto completo e o termo formal de adesão para as candidaturas.

Imagem destacada: Thais Namai/MUDE com Elas/Viração

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