Ao longo das minhas pesquisas semanais antes de produzir esse artigo, me deparei com um texto que dava 4 dicas para ser uma pessoa criativa. Entre reduzir o tempo de uso das redes sociais ou diminuir os estímulos paralelos, cultivando a integração entre lazer e as obrigações, vi também outro ponto, que para mim foi o mais significativo – e questionável – não porque está errado, mas justamente porque a ideia se fundamentava a partir do conceito de “ajustar o foco”.
Após entender o que estava sendo posto, basicamente a indicação era reservar momentos aleatórios para produzir, se debruçar sobre a sua mente e focar naquilo que imaginou desenvolver. Deixar a fluidez aparecer como em um “modo criação”, e o “pulo do gato” seria ainda melhor: evitar o autojulgamento; foi ali que a dica “me pegou”. Me pegou porque quando olho pra minha trajetória, lembro que por muitas vezes me auto julguei, sem nem mesmo precisar tirar um momento para criar algo, desde a época da escola, talvez desde muito antes.
O julgamento é algo que atravessa corpos dissidentes, e não só no campo social e semântico, mas nas vivências mais específicas e conectadas com a criatividade que podemos imaginar. Quando a gente vem da quebrada, a bolha da subalternidade, da aceitação posta, é mais complicada de ser furada. E quando começamos a movimentar nossas mentes para pensar outros modelos de experienciar nosso entorno, nos deparamos com a estagnação que pode sim ser generalista, mas que reverbera em muitos outros prismas, para além da cabeça pensante e inovadora que teve a brilhante ideia de passar 4 dicas que nenhuma pessoa pode deixar de seguir. A vivência periférica traz potencialidades e, por um lado, a narrativa construída em focar sem julgamento se torna válida, principalmente porque o autor embasa seus apontamentos exemplificando todas as vezes que nós focamos em algo, mas nos sentimos travados e não conseguimos sair do lugar. Então rapidamente acessamos o celular ou abrimos uma nova aba no computador, como uma fuga. Por vezes achamos que se estamos bloqueados é porque não temos o que dizer. O ponto aqui é que esse sentimento é muito verdadeiro para quem vem da quebrada.

Devido às condições socioeconômicas do Brasil, entre outras questões, o empreendedorismo ainda é visto como uma exclusividade para quem habita e trabalha nos grandes centros urbanos. Não só o empreendedorismo, mas o lugar de ter o que dizer, de ter holofotes, fala e espaços para a fluidez criativa. Isso, sem sombra de dúvida, não quer dizer que todo o potencial nas favelas não seja visceral, mas sim que toda essa visceralidade também é usada para enfrentar os desafios diariamente. Segundo dados do estudo realizado pelo Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGVcenn), realizado em parceria com a Fundação Arymax, os negócios sociais formados fora da periferia têm capital inicial 37 vezes maior (R$ 712 mil, em média) do que aqueles que começaram na periferia (R$ 19 mil). Já as receitas dos empreendimentos sociais periféricos são 21 vezes menores: uma média de R $146,9 mil, contra R $3,053 milhões dos que são da periferia. Não ter o que dizer é o que a juventude dissidente escuta em muitos espaços; quem é cria vê a realidade ser experienciada de outra forma, até mesmo quando consegue ter acessos possíveis para melhor as condições pessoais e de sua família, porque existe um abismo entre as possibilidades e a realidade.
Segundo a United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization [Unesco], a criatividade é considerada a competência central para o século XXI, por expressar o potencial humano em diferentes contextos, a criatividade é essencial para a inovação, o empreendedorismo, a liderança criativa e o desenvolvimento econômico e sustentável das organizações e sociedades.
A criatividade é um tema que suscita crescentes e múltiplos interesses, nos diversos campos do conhecimento. Dentro de um ecossistema de setores artísticos e criativos (como design, comunicação, moda, produção audiovisual, games, filmes e séries), a criatividade é força vital e propulsora do desenvolvimento socioeconômico das sociedades contemporâneas, pautadas pela economia criativa e cultural (Bandeira & Costa, 2015). A boa notícia é que a criatividade, ao contrário do que muitos acreditam, não é um dom reservado para pessoas “abençoadas”, mestres da área de negócios, habitando as terras pouco habitadas do Vale do Silício. A criatividade é uma característica natural e essencial do ser humano, uma habilidade que pode ser devolvida por todos. E entender que a criatividade é gerada a partir da criação de condições primordiais para que ela possa emergir naturalmente é mais do que necessário.
Atualmente, o Brasil abriga mais de 6 mil favelas, com mais de 13 milhões de consumidores que movimentam mais de 120 bilhões na economia. Dentro desse contexto, podemos nos questionar sobre como essa economia aquecida ainda recebe tão pouco investimento. Ora, se somos todos criativos, podemos criar jornadas potencializadas.
A RIO2C, maior festival de criatividade da América Latina, que reúne talentos, executivos e empresas para discutir sobre inovação e futuro do mercado criativo, tratou exatamente desse tema na edição deste ano, realizada poucas semanas antes do Dia da Criatividade e Inovação. Por lá, rolaram muitos depoimentos do pessoal falando que após o evento se sentiram mais elevadas, que vivenciaram durante as conversas e palestras momentos únicos. Cheguei a ver um post que dizia sobre “as cinco habilidades que diferenciam os inovadores dos profissionais comuns: ASSOCIAR, QUESTIONAR, OBSERVAR, TRABALHAR EM REDE, EXPERIMENTAR”. Essas habilidades também estão presentes no livro “DNA do Inovador”, de Jeff Dyer, Hal Gregersen e Clayton M. Christensen. O livro pretende discutir como qualquer pessoa pode desenvolver essas cinco habilidades, necessárias para se tornar um profissional criativo, inovador e de ruptura. Minha indagação aqui é: Quais são essas rupturas? Quem está disposto e legitimado para ceder as caçambas que suportam os entulhos de toda a quinquilharia centenária que o mercado da criatividade tem mantido?
Neste ano, tivemos poucos painéis para enaltecer e pautar publicamente a potência e os estilos de vida da quebrada na Rio 2C. Mesmo diante da hipervisibilidade nos espaços midiáticos, foram limitados os espaços de distribuição das nossas narrativas, de narrativas criativas que provém de quem tem muito o que dizer. No plano concreto das condições de vida, das condições dos espaços, a periferia segue sendo invisível. Mas se ainda permanecemos em busca de maiores acessos, ao mesmo tempo estamos criando os nossos próprios acessos.
Um jovem da periferia de Guarujá (SP), que não tem graduação e que começou a publicar vídeos na internet com o que aprendeu num curso técnico de cinema pago com o seguro de vida recebido após a morte da mãe, produz hoje o maior canal de música do YouTube no mundo – o Kondzilla. Essa pode ser uma breve sinopse da trajetória de Konrad Dantas, também conhecido como Kond, 30 anos, empresário, diretor e produtor de clipes, que com suas empresas de produção de conteúdo, portfólio de 400 artistas e seus canais de vídeos com mais de 48 milhões de inscritos, têm mostrado a potência do funk brasileiro das favelas em todos os cantos do mundo. Dos dez vídeos mais assistidos pelos brasileiros na plataforma do Google em 2018, cinco foram produzidos por ele.
Kond esteve no Rio 2C 2019, há 4 edições anteriores a essa, e contando um pouco de como tudo começou e também enaltecendo a força dessa diversidade criativa das periferias brasileiras. Foi com essa criatividade que ele driblou a falta de recursos técnicos e, com muita improvisação e a ajuda de câmeras de fotografia, começou a produzir clipes para os MCs das comunidades de São Paulo. Foi assim que deu visibilidade ao MC Guimê com o instantâneo hit “Tá Patrão”. Sua linguagem encantou o então cantor da banda Charlie Brown Jr., Chorão, que o convidou para gravar um DVD do grupo. Foi um marco na carreira de Kond e também quando percebeu que com esse caminho poderia dar visibilidade a outros jovens artistas: “Eu sabia que através da arte eu ia conseguir mudar, transformar minha vida e a vida da minha família, sair da periferia e dar uma vida mais confortável para todo mundo. E hoje consigo fazer isso com outros artistas e não apenas com a minha vida”, contou o empresário Kond, em uma entrevista cedida para Oi Futuro.
Algo dito pelo Ricardo Silvestre em uma das palestras do evento de 2023, palestra da qual emprestei parte do título deste texto, me chamou a atenção: se você quer aprender sobre criatividade e inovação, você precisa sem dúvida ouvir o que a periferia e o que as favelas têm a dizer, porque elas são um berço de criatividade desde que o mundo é mundo, e isso é inegável. Apesar das grandes marcas estarem se aproximando desses criadores e empreendedores, ainda há um longo caminho a ser percorrido. Exemplo dessa inovação está na fala de Andreza Delgado, empresária e fundadora do PerifaCon, a primeira feira voltada para o público geek de periferia. Ela destacou como sua iniciativa movimenta a economia local e abre oportunidades para artistas, programadores e fãs da cultura nerd que não possuem recursos financeiros para ir às feiras que acontecem no centro de São Paulo.

Em uma matéria da ABC da Comunicação, é discutida a forma como as iniciativas da periferia vão muito além dos eventos. Uma delas é o “Empreende Aí”, criado em 2015, que oferece cursos e capacitação para empreendedores nas regiões periféricas de São Paulo-SP. Outra iniciativa muito interessante que funciona como um Laboratório de Inovação e Tecnologia Social é o Instituto das Pretas. Terceiro exemplo: o Wakanda Educação Empreendedora, que ensina micro e pequenas empresas a impulsionarem seus negócios. Sem falar na gigante Gerando Falcões – eu já citei o trabalho deles em outros posts.
Berço de cultura e diversidade, a periferia também tem oportunidade. A periferia paulistana, por exemplo, sempre teve muita coisa a ensinar para mostrar as verdadeiras faces de um Brasil desigual e complicado. No entanto, ela é muito mais do que isso! Não falta capital humano, inteligência e muito espaço para esse fazer diferente, tão caro à cultura da criatividade e da inovação. Cabe às grandes empresas, principalmente aquelas localizadas nos centros, abrirem as suas portas para essas pessoas, seja por meio de parcerias ou oportunidades de trabalho. Afinal, essa é a chance de fazer diferente, sair um pouco do discurso e gerar negócios com criatividade, inovação, diversidade e novas tecnologias. Assim será possível construir uma sociedade muito mais justa e inclusiva, gerando lucro e impactando positivamente o ecossistema à nossa volta. É como apontou Zé Ricardo no painel “O potencial criativo da favela” da Rio2C, “O mais importante para nós que trabalhamos com a favela é contribuir para ampliar a visão do público sobre o que é a favela. A favela é uma potência cultural, criativa, empreendedora e econômica”.