“Boa Noite, Bom Dia”: quando a música transforma o hospital em lugar de afeto

Por Sara Pimentel de Oliveira
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Projeto leva alegria para pacientes do Hospital Universitário da UFF, em Niterói

Chapéu, sombreiro e orelha de coelho. São com esses adereços que os alunos da UFF levam um pouco mais de alegria para os pacientes internados Hospital Universitário Antônio Pedro. 

Boa Noite, Bom dia é um projeto de extensão da Universidade Federal Fluminense, que visa a melhora da qualidade do período de hospitalização dos pacientes. Semanalmente,  o projeto tem atuado há 16 anos com visitas musicais às enfermarias do Hospital Universitário Antônio Pedro. A visita é feita às quartas, em grupo e é liderada pelo estudante de medicina e bolsista do projeto, Pedro Henrique Brandão.

Alunos durante visita ao Hospital Universitário Antônio Pedro nas atividades do 
projeto Boa Noite, Bom dia. Ao violão, o bolsista do projeto Pedro Henrique Brandão e do lado direito, o voluntário Vitor Lauar. (Reprodução: Vitor Lauar)

Conversamos com a professora do Instituto do Centro de Saúde da UFF e orientadora do projeto, Lenita Lorena, que contou sobre o surgimento do projeto de extensão.

“O projeto de extensão “Boa Noite, Bom Dia” foi criado em 2008. Ele nasceu da ideia de um aluno de medicina que também era músico. E ele, então, levantou essa possibilidade de levar música para alegrar os pacientes no final da tarde, nesse horário do anoitecer, quando as enfermarias ficam muito tristes, silenciosas, com pouco movimento.”

A professora acrescentou que após o projeto ser colocado no papel, uma professora de seu departamento transformou-o em um projeto de extensão e desde 2009, ela tem assumido a coordenação do Boa Noite, Bom Dia.

“E, realmente, ao longo de todos esses anos, nós temos observado que essa proposta desse aluno, do Rodrigo, é realmente bem-sucedida, porque consegue levar um momento de alegria, de descontração, de leveza; consegue levar cor para o ambiente das enfermarias, que normalmente é um ambiente mais frio, mais triste. A internação hospitalar é sempre cercada de muita angústia, de apreensão, e o Boa Noite, Bom Dia consegue levar essa leveza para esses pacientes e também para os acompanhantes, que muitas vezes também sofrem tanto ou mais do que os pacientes.”

O repertório das músicas dos pacientes é variado: desde gospel, samba, k-pop e até hino do flamengo. Pedro toca no violão e os colegas o acompanham com a letra. Qualquer aluno do curso da saúde pode participar, levar sua fantasia ou usar adereços fornecidos pelo projeto. 

Pedro tem atuado desde o quarto período da faculdade no Boa Noite, Bom dia. Em entrevista à AJN, ele descreveu seu cotidiano e a sua função no projeto:

“O meu dia a dia no projeto, como bolsista, envolve tocar violão e, portanto, conduzir os grupos de visita. Esses grupos envolvem apenas alunos da UFF, da área da saúde, medicina e enfermagem. Nós visitamos as enfermarias do [Hospital] Antônio Pedro, às vezes as UTIs e as unidades mais complexas, e cantamos, interagimos com os pacientes. E a minha função , para além de tocar violão, estar ali conduzindo musicalmente, é também guiar e instruir os alunos nas visitas, para que eles se sintam um pouco mais à vontade e um pouco mais direcionados sobre o que eles podem ou não fazer, como eles abordam o paciente, como eles podem conversar.”

Pedro também conta sobre a contribuição do projeto para a bagagem social de um estudante de medicina:

“O projeto é fantástico do ponto de vista de extensão, como um projeto de extensão, porque ele complementa muitas coisas que o currículo médico não te permite aprender. Para além de saber conversar com pacientes nas disciplinas de comunicação, você ter empatia, você saber reconhecer a fragilidade do paciente, olhar para ele não apenas como uma pessoa doente, mas como uma pessoa que está passando por dificuldades,uma pessoa que tem seus problemas em casa, que está ali contra sua vontade. O projeto, ele permite que os alunos realmente desenvolvam sua área humana, sua área empática, desenvolvam uma estátua para lidar com as dificuldades dos pacientes.”

Entre os alunos, o projeto é carinhosamente chamado de “BNBD”, uma sigla com as iniciais do nome. Quem compartilhou a sua experiência como voluntário do Boa Noite, Bom dia foi Vitor Lauar, 20 anos e estudante do segundo período de medicina da UFF:

“Logo de cara, durante a semana de apresentação, eu conheci vários projetos, várias propostas diferentes e esse foi o que mais chamou a atenção justamente pela questão do contato com o paciente. Porque, de cara, quando você entra na faculdade de medicina, você tem muitas matérias de biologia como bioquímica e neurobiologia, que muitas vezes, parecem distantes da realidade do que você vai ver no dia-a-dia. E então, eu vi que no BNBD, eu tinha uma oportunidade de conhecer o paciente de fato, conhecer a realidade dele.”

 O voluntário Vitor Lauar fantasiado durante uma de suas visitas e atividades do projeto. (Reprodução: Vitor Lauar)

Vitor reforça também a existência de uma troca mútua que o projeto promove entre alunos e pessoas hospitalizadas:

“Eu sempre reforço que o BNBD é uma troca mútua. Tanto a gente tá aprendendo a lidar com o paciente, quanto a gente tá trazendo alegria pra ele naquele ambiente hospitalar, que muitas vezes é completamente desgarrado de pessoalidade.”

Alunos após visita ao Hospital Universitário Antônio Pedro nas atividades do 
projeto Boa Noite, Bom dia. (Reprodução: Vitor Lauar)

O Boa Noite, Bom Dia vai além da música e das fantasias: ele reafirma a importância da empatia e do cuidado humano dentro do ambiente hospitalar. Ao unir alunos, professores e pacientes em torno da musicalidade, o projeto acerta em tornar a experiência da internação menos dolorosa possível e prova que a atuação de um profissional de saúde deve ser humana, afetiva, atenciosa e solidária. 

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Sara Pimentel de Oliveira

Vestibulanda de jornalismo, nas horas vagas, pintora, mas geralmente pianista e leitora número 1 da Carolina Maria de Jesus.

Sara Pimentel de Oliveira

Vestibulanda de jornalismo, nas horas vagas, pintora, mas geralmente pianista e leitora número 1 da Carolina Maria de Jesus.

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