Heroínas negras brasileiras: um olhar literário para a representatividade da mulher negra

Como uma menina negra, sempre pensei sobre qual era o meu lugar no mundo, porque se faltavam exemplos, era porque não havíamos conhecido nossas antepassadas, que tanto lutaram para o nosso direito de podermos pensar no que queremos ser em qualquer espaço de nossas vidas. É nos cordéis que Jarid Arraes conta a história de 15 mulheres negras e brasileiras para responder essas e outras perguntas, tornando públicos seus grandes feitos e contribuindo para lembrarmos da importância desse grupo social silenciado pela historiografia. 

 Por Sara Pimentel 

Sobre o livro 

     Heroínas Negras Brasileiras em 15 cordéis é um livro composto por textos sobre personalidades femininas não tão conhecidas que revolucionaram  o seu meio, lutaram e resistiram à inúmeras violências em seus respectivos tempos, sejam eles marcados pela escravidão ou a desigualdade e exclusão como herança da mesma: Antonieta de Barros, Aqualtune, Carolina Maria de Jesus, Dandara dos Palmares, Esperança  Garcia, Eva Maria do Bonsucesso, Laudelina de Campos, Luísa Mahin, Maria Felipa, Maria Firmina dos Reis, Mariana Crioula, Na Agotimé, Tereza de Benguela, Tia Ciata e Zacinba Gaba.

                          Algumas ilustrações das mulheres biografadas no livro. 

Acompanhado de uma ilustração de cada mulher, o livro também é inovador com o conceito de biografias em cordéis – gênero literário de caráter narrativo, escrito em versos regulares e típicos da cultura nordestina brasileira. – que não apenas chama a curiosidade do leitor, como torna a leitura dinâmica com as rimas, conforme a história vai sendo contada nos versos. E no final de cada cordel, há um texto resumido sobre a mulher biografada no pequeno capítulo. 

     Cordel sobre a escritora Carolina Maria de Jesus. 

Personalidades citadas e a memória como ferramenta de resgate a identidade de mulheres negras

Em um país que estigmatizou todas as gerações de uma etnia com desigualdade, preconceito e inúmeras violências derivadas dos quatro séculos de escravidão até os dias de hoje, é fundamental que haja a memória de pessoas negras. Especialmente às mulheres, a parcela mais fragilizada da população negra constantemente marginalizada. 

    Histórias como a de Tereza De Benguela e Mariana Crioula, rainhas de quilombos e símbolos de resistência, colocam a mulher negra no seu verdadeiro e mais puro protagonismo, ao qual foi silenciado, dilacerado e tirado à força pela crueldade do escravismo. 

   As 15 histórias das educadoras, políticas, soldados, escritoras e artistas são um grande símbolo do conceito de representatividade, que pode ser uma excelente ferramenta do antirracismo.      Retomar a fala de personalidades históricas é também dar a chance de mulheres e meninas negras contemporâneas enxergarem em suas antepassadas o verdadeiro sentido de continuar resistindo e lutando contra uma sociedade insistentemente racista para conquistar seu lugar.

     Ilustração de Maria Firmina dos Reis, a primeira romancista negra brasileira com o seu livro Úrsula.

 Heroínas Negras Brasileiras é um verdadeiro convite ao conhecimento da história brasileira —  e não me refiro a história escrita pelos grupos sociais privilegiados — mas por quem verdadeiramente compõe o nosso país, que resistiram e lutaram contra todas as violências e reivindicaram os direitos negados durante muito tempo à mulher negra brasileira. 

           Trecho do cordel sobre Mariana Crioula, integrante da maior revolta de escravos do Rio de Janeiro. 

Sobre a autora

Nascida em Juazeiro do Norte, no estado do Ceará, Jarid Arraes é escritora, cordelista, poeta e autora de sucessos como Redemoinho em dia quente (Alfaguara, 2019), Um buraco com meu nome (Ferina, 2018) e As Lendas de Dandara (Editora de Cultura, 2016) Foi finalista do prêmio Jabuti e vencedora do prêmio APCA na categoria de contos/crônicas. Em suas redes sociais, Jarid promove a leitura crítica e escrita criativa como também desenvolveu o Clube de Escrita para Mulheres, que pretende inserir e incluir o grupo feminino frente aos desafios do mercado editorial e também do processo criativo.

      A autora Jarid Arraes com um exemplar e algumas ilustrações de mulheres biografadas em seu livro. 

Na orelha de Heroínas Negras Brasileiras, Jarid conta que sempre notou a falta de veiculação midiática e escolar sobre as mulheres negras que fizeram grandes coisas pela humanidade ou que lutaram batalhas contra a escravidão do Brasil. Foi esse esquecimento que incentivou a autora a dedicar quatro anos a profundas pesquisas que ajudassem a compor os cordéis sobre  as histórias das mulheres negras brasileiras.

Hoje, o livro é usado em escolas do Brasil inteiro e ainda conta com tradução para o inglês na Biblioteca do Congresso em Washington, nos Estados Unidos.

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