“Aprendemos com os adultos, e eles aprendem com a gente”, dizem crianças da 10ª CNDCA

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Anne Ehlke (PR), 17 anos | Imagem: Paula Froés

A X Conferência Nacional do Direito da Criança e do Adolescente (CNDCA) conta com um espaço só para crianças onde, por meio de brincadeiras e metodologias específicas, elas discutem temas relacionados aos seus direitos.

Maria Eduarda, que tem 11 anos e é do PA, aprovou essa novidade da 10CDNCA. “Eu gostei porque aqui eu não tô debatendo só o meu direito e sim de todas as crianças do meu município, do meu estado e do Brasil”. O Alex Ryan, cearense e com 12 anos, concorda com a opinião da Maria Eduarda e diz que esse espaço com a participação das crianças é essencial “porque as crianças têm que ter vez e voto e existem vários pontos de vista: o ponto de vista do adulto é um, da criança é outro. Pra criança o mundo é todo colorido, mas nem tudo é assim, a gente precisa também ser realista e dar nossa opinião sobre tudo”.

Em uma das atividades, elas desenharam em papéis o que eles sonham para o futuro das crianças brasileiras. Houve de tudo nos desenhos, desde o desejo de serem respeitados os direitos, até a divulgação do ECA em canais de televisão. O Jonathan Teixeira, que é do RJ e tem 10 anos, diz que em seu desenho representou que “queria que todas as crianças tenham a mesma oportunidade que eu, porque têm algumas vezes que as crianças falam ‘poxa, não tem nada pra gente se divertir, nada pra gente brincar’, mas é porque às vezes a criança não tem a mesma oportunidade que outras”.

Leia na íntegra a entrevistas com as crianças.

JONATAS TEIXEIRA –10 ANOS, RJ

O que vocês fazem aqui?

Jonatas: Aqui é uma conferência na verdade, só que aqui a gente tá numa salinha que a gente que comanda as coisas, a gente conversa o que tem que ser mudado, a gente fala sobre as leis, entendeu? Sobre o que tá se passando no nosso bairro. A conferência é um lugar pra conferir, né? E eu acho que como eu tô tendo essa oportunidade, todas as crianças deveriam ter, porque se tá falando da gente não tem como falar de nós sem nós mesmos. Elas têm que ter essa mesma oportunidade porque, como se fala, é oportunidade, né? Todo mundo falou ‘oportunista’, não, não é oportunista! Eu tive uma oportunidade, é diferente ser oportunista e ter uma oportunidade.

E vocês conversam e depois escrevem, desenham? Como é aqui?

Jonatas: A gente faz algumas brincadeiras. A gente canta, faz várias coisas. E aí tem algumas vezes que a gente faz trabalho, tipo agora, tem algumas lições, né?

Tem algumas crianças que são meio que bagunceiras, mas a gente tá segurando um pouco, as crianças que são quietas eles (os educadores) pedem até pra ajudar. Porque eles botaram estampadas ali, tipo num varalzinho, todas as regras, mas tem algumas crianças que não estão obedecendo aí a gente vai e fala pra eles. Se a gente tá aqui é pra gente aprender e isso tá sendo, creio que não só pra mim, mas pra todas as crianças que estão aqui hoje, uma experiência muito boa, porque a gente aprende com os adultos e os adultos aprendem com a gente.

Você acha que vai conseguir levar pra sua escola, pros seus amigos, tudo que está aprendendo aqui?

Jonatas: Eu não só acho, como desejo, é obrigado, né? Porque na minha escola não tem grêmio escolar, onde eu moro nem todas as pessoas sabem o que é o ECA, entendeu? Eu tô procurando levar isso pra lá.

De que forma você acha que vai conseguir levar isso pra eles?

Jonatas: Se eu tomar uma atitude eu acho que consigo, eu creio que consigo na verdade. Porque, assim, a gente tomando uma atitude tudo que é impossível se torna possível.

O que vocês estão fazendo agora?

Jonatas: A gente agora tá fazendo uns desenhos que amanhã talvez a presidente Dilma esteja aqui (pra ver). Fazendo propostas, desenhando qual seria o sonho nosso pras todas as crianças. Eu desenhei mais ou menos que eu queria que todas as crianças tivessem a mesma oportunidade que eu, porque tem algumas vezes que as crianças falam: “Poxa, não tem nada pra gente se divertir, nada pra gente brincar”, mas é porque às vezes a criança não tem a mesma oportunidade que muitas crianças estão tendo hoje.

E você acha que as crianças estão tendo espaço aqui?

Jonatas: Com certeza, porque tem muita gente que falam que as crianças não têm voz, mas é uma oportunidade que a gente tá tendo e que todas as crianças deveriam ter; tem que ter esse direito de ter a voz, porque não é querendo falar que o adulto não tenha o mesmo valor, mas eu acho que do mesmo modo que a gente é comovido eu acho que as outras pessoas se comovem com a nossa palavra, eu acho muito importante a gente ter oportunidade de falar.

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ALEX RIAN, 12 ANOS, CE

Qual foi a sua sensação de participar de uma sala só pra crianças aqui na Conferência?

Alex: Pra mim foi ótimo, porque há muita separações em grupos e lá (com os adultos) a gente não poderia se expressar do nosso jeito, tinha muito adulto e a gente teria que usar as melhores palavras. Aqui não, é só a gente, crianças, e os nossos responsáveis, e assim eu interajo melhor. Eu acho que aqui é o melhor lugar.

Pra você, qual é a importância da participação das crianças aqui?

Alex: É essencial porque as crianças, pra mim, tem que ter vez e voto e tem vários pontos de vista: o ponto de vista do adulto é um, da criança é outro; pra criança o mundo é todo colorido, mas nem tudo é assim: a gente precisa também ser realistas e dar nossa opinião sobre tudo.

Você acha que chegando na sua casa de novo, no seu ambiente de escola, você vai conseguir mostrar essa realidade?

Alex: Consigo. Entre todas as conferências que eu fui, sempre mostrei tudo isso, mostrei minha capacidade. Aqui eu não tô sendo eu, tô sendo todas as crianças do Brasil e isso é ótimo, tá sendo uma experiência nova pra mim.

Que diferenças você notou entre as outras conferências que você participou e essa?

Alex: A nacional está sendo um pouco desorganizada, mas tá melhorando e também a nacional é muito mais pessoas; e aqui é o que vai ser, daqui a dois anos tudo vai melhorar; o que tá sendo feito aqui vai ficar, é a reta final.

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MARIA EDUARDA LEITE – 11 ANOS – PA

É a sua primeira experiência com conferência?

Maria: Nacional sim, mas já participei de uma municipal, uma estadual e agora estou aqui.

Que diferenças você percebeu desde que começou a participar disso até agora? O que acrescentou na sua vida?

Maria: Eu acho que quando eu não conhecia o ECA eu não conhecia várias coisas, tipo: pessoas, leis, etc. Mas agora eu acho que tudo melhorou.

Nas outras conferências você sentia que tinha esses espaços para que as crianças se expressassem o que pensam?

Maria: Tinha como eu falar, né? Mas não tinha espaço pras crianças debaterem só com crianças.

O que você achou dessa novidade?

Maria: Eu gostei, porque aqui eu não tô debatendo só o meu direito, eu tô debatendo o direito de todas as crianças do meu município, do meu estado e do Brasil.

Você representou no seu desenho uma criança ensinando um adulto. Você acha que você vai conseguir fazer isso onde você mora?

Maria: Não sei, mas vou tentar.

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Making of: Essa produção foi realizada por adolescentes que participam da cobertura educomunicativa da 10ª Conferência Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, uma intervenção socioeducativa que utiliza técnicas do jornalismo para promover a participação e a liberdade de expressão de crianças e adolescentes. Ela é realizada de forma colaborativa, democrática e lúdica.

 

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